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PIQUETE - CIDADE PAISAGEM |

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Moradores de
Piquete aderem à Revolução
Uma das mais importantes páginas da história do Brasil foi a Revolução Constitucionalista, que irrompeu em São Paulo a 9 de Julho de 1932. Foram três meses de combates que colocaram frente a frente, nos campos de batalha, forças rebeldes e legalistas. Esse conflito armado estendeu- se por todo o estado de São Paulo. O Vale do Paraíba, por sua localização estratégica e geopolítica, foi palco de sangrentas batalhas. A notícia da eclosão desse conflito chegou a Piquete por volta das 10h da manhã do dia seguinte. O primeiro a recebê-la foi o cel. Pompeu Cavalcanti, diretor da Fábrica de Pólvora Sem Fumaça. Nesse mesmo dia, guarnições de Lorena e Caçapava também se levantaram aderindo ao movimento, enquanto tropas revolucionárias ocupavam posições estratégicas em diferentes regiões do Vale. No dia 11, um trem conduzindo soldados chegou à Estação Rodrigues Alves, em Piquete. O diretor da Fábrica, bem como sua oficialidade decidiram por se manter fiéis ao governo federal, e um acordo foi selado com o comandante constitucionalista, coronel Andrade,que se encontrava sediado em Lorena, para que a Fábrica não recebesse tropas e que estas ficariam acantonadas em Piquete. Essas tropas vieram para o município não só devido à presença dessa indústria bélica, mas também para guarnecer a estrada de acesso a Minas, impedindo qualquer movimento ofensivo de tropas federais sobre o túnel, em Cruzeiro, além de Lorena e Cachoeira Paulista.
O coronel Pompeu e sua oficialidade comprometeram-se a não dar informações sobre o movimento das forças revolucionárias às autoridades do governo Vargas. Telegrafou para o Serviço de Material Bélico, no Rio de Janeiro nos seguintes termos: "Fábrica não ocupada mas isolada." A produção fabril foi paralisada, mantendo em funcionamento apenas os serviços de conservação e limpeza. Os operários, bem como a população da cidade aderiram à Revolução. Aos poucos, os moradores que haviam se afastado da cidade retornaram, passando a receber os soldados constitucionalistas. Toda a cidade era simpática à causa revolucionária: passaram a ovacionar os soldados defensores da Lei, colocando à disposição das tropas tudo o que possuíam. Houve uma verdadeira febre de patriotismo: recebiam as tropas no desembarque na Estação com carinho e grandes manifestações de vivas a São Paulo e ao Brasil. Algumas edificações foram requisitadas para a causa paulista. A população harmonizou-se com os soldados, fazendo com que as tensões dos conflitos fossem amenizadas. Assim, muitos moradores serviram de guia pelos tortuosos caminhos da Mantiqueira, outros pegaram em armas, muitas mulheres passaram a cozinhar e costurar para as tropas e músicos da Euterpe tocavam no "Café do Soldado". No dia 15 de julho ocorreu, para a surpresa de todos, forte tiroteio entre as tropas paulistas e a infantaria adversária. A partir desse entrevero, a população, sobressaltada, foi-se acostumando com o matraquear das metralhadoras na serra e os estrondos da artilharia pesada. Em diferentes pontos do município trincheiras foram abertas e canhões paulistas, estrategicamente posicionados, atiravam em direção da Mantiqueira. Em 11 de agosto assumiu a direção da Fábrica o Ten. Cel. Felisberto Antonio Fernandes Leal, em nome do General Bertold Klinger, comandante das tropas constitucionalistas. O propósito era fazer funcionar a Fábrica. O diretor e seus comandados ficaram presos, sob palavra, em suas residências. Com o avanço das tropas federais e o recuo estratégico das tropas constitucionalistas, houve em 14 de setembro, o abandono da Fábrica. Algumas seções foram inutilizadas e máquinas essenciais para a produção de pólvora transferidas para São Paulo em um trem especial, que transportou também operários e familiares. A cidade, temendo as tropas getulistas que se aproximavam pela serra, se esvaziou, de modo que, quando os soldados federais chegaram a Piquete, encontraram-na semi-deserta. Em 2 de outubro, após 82 dias de conflitos foi assinado um armistício. Aos poucos, a cidade foi retornando ao seu ritmo. Os operários que acompanharam as tropas para São Paulo foram sumariamente demitidos. Retornaram com o orgulho ferido, mas cientes do dever cumprido. Em dezembro foram anistiados pelo governo federal. Essa história de civismo dos paulistas, buscando a constitucionalização do país, precisa ser sempre rememorada. Jornal "O Estafeta" - junho de 2007 |

Destruição na revolução
de 32
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Alameda do
Indaguaçus, Dóli de
Castro Ferreira |

O chamado "Túnel da
Mantiqueira", na Revolução de 32
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Ecos da Paris - Belfort A chamada marcha da Revolução de 32 ressoa todos os anos, a 9 de julho, em São Paulo. Referência recorrente para os paulistas tradicionalistas, é a data de 9 de julho de 1932, simbólica da Revolução Constitucionalista - a também chamada Revolução Paulista. Livros temáticos e teses universitárias têm sido reproduzidos em análises, dados biográficos e contextualizações para espelhar os conflitos e ambigüidades numa sociedade que, a partir da década de 1930, se industrializava mais acentuadamente, se urbanizava e ia deixando para trás um predomínio de ruralismo de pequena mecanização e de produção latifundiária para exportação de fortes marcas de escravismo e hierarquização. A burguesia cada vez mais emergente discutia leis, direitos, modernização produtiva, liberdade de escolhas, votos, eleições sem "coronelismo", clientelismo, e, portanto, democracia, ainda que com forte ranço de elitismo e oligarquia. As chamadas oligarquias paulistas que, segundo se alegava na época, se punham contra as massas que emergiam com o getulismo patriarcalista e patrimonialista, para encaminhamento de um processo ditatorial antevisto nos moldes do totalitarismo anunciado na Europa pelo fascismo, e depois, pelo nazismo, sob o ideário nacionalista. Segundo os críticos da Revolução Paulista, a ênfase é dada ao papel atribuído a São Paulo de "locomotiva" da nação, quando se esgotava a política do "café com leite" pela alternância do cargo presidencial de Estado entre paulistas e mineiros. Afinal, Vargas era gaúcho, dos estancieiros, de arranjo clientelista para fins militares, homens de fronteiras preocupados com limites, poder e imposição de domínio territorial. Ricos em charque. No bojo da Revolução, uma burguesia paulista, de valores hierárquicos, mobilizada pela intelectualidade que via, romanticamente, a defesa da liberdade e da preservação traduzidas em mobilização popular urbana, englobando famílias que se propunham como guardiãs do ideário contido em um Estado, cujos símbolos civilizatórios eram invocados por representações apelativas de conjugação de forças. Estou me referindo aos posteres (cartazes), às bandeiras paulistas confeccionadas e bordadas pelas senhoras e filhas de famílias, às agremiações de pessoas para fotos convidativas de aproximações e arregimentação de forças - todas imagens portadoras de mensagens de polarização para ganhar mais empenho na defesa dos ideais constitucionais. Crianças, adolescentes, mulheres e famílias propondo-se ir à luta. Crianças-soldados, mulheres na enfermagem e nas cozinhas, apelos para a composição amplificada. Marco Antônio Villa, professor de História na Universidade Federal de Rio Claro, SP, acaba de lançar um belo livro - 1932, no qual são reproduzidos, em destaque, esses cartazes, fotos e toda uma série de documentos sobre a mobilização e as ações revolucionárias. Um livro-álbum de ótima qualidade gráfica da Editora da Imprensa Oficial, São Paulo, 2008, que vem enriquecer as obras temáticas sobre a Revolução, seus símbolos e acervo documental. As imagens dos heróis nominados e anônimos, dos objetos da luta como uniformes, equipamento, armas e locais de luta, trazem à memória o que já fora explicitado em outras obras, mas aqui dotados de uma qualidade técnica já mais apurada para gosto dos cultores dessa memória. Não é sem motivos, portanto, que foi emblemática a movimentação a 9 de julho de 2008, das pessoas chegadas a Cruzeiro, vindas de Santa Fé do Sul, RS, a pé, percorrendo cerca de 1 000 km durante três meses, para, 76 anos depois, homenagear a seus mortos. Estes heróis, tombados nas frentes de batalha junto ao famoso túnel e depositados no cemitério local, dão à cidade de Cruzeiro uma aura de destaque histórico. Aos que chegaram de tão longe portando faixas de mensagens em apelo à democracia os aplausos do povo e visitas ao cemitério, com o apoio da imprensa, divulgados os atos públicos e entrevistando-se os excursionistas. Da memória da Revolução em Piquete, o registro das pessoas que a vivenciaram divididas em dois segmentos: o que foi para São Paulo, de trem, sofrendo uma viagem desconfortável e longa, ameaçada a todo o momento pelo sobrevôo dos "vermelhinhos", aviões monomotores dos inimigos, e os perigos das infecções, a fome, a falta das condições higiênicas e o destino incerto, no caminho do desconhecido, aonde chegaram com sofrimentos e foram mal alojados. E ainda, os homens foram convocados para trabalhar na preparação das munições para as frentes de combate. No segmento dos que ficaram, e alguns se vangloriaram disso, como se resistentes fossem, a idéia da heroicidade em enfrentar o inimigo; mas, na verdade, acabaram cooptados pelos soldados do Getúlio, porque contra a força não há argumentos. Tiveram suas casas tomadas, seus quintais invadidos, seus galináceos e ovos apropriados, e ainda tiveram de abrir suas cozinhas e preparar os alimentos solicitados pela soldadesca ignara e nervosa, querendo seus temperos fortes, e a gente do lugar, submetida, dominada, fraca. E os "vermelhinhos" sobrevoando e panfletando ameaças e boatos. Resistência? Melhor cooptar. É assim, em geral, nas guerras, quando as tropas de ocupação chegam. Corriam depois de tudo, entre as conversas ao pé dos fogões-a-lenha, as históricas "ações" cujo lema fora: "O mato ou o morro", de dupla significação e ironias implícitas. Fora as descrições dos soldados do norte, os "getulistas", mais a repetição das cançonetas de ridicularização... Depois, o Getúlio ditador se instalou, fez acordos com a burguesia, tornou-se paternalista e promoveu o sindicalismo de Estado. Foi- lhe concedido o aposto "Pai dos pobres", e nas residências de Piquete, em muitas delas, o retrato de Vargas consagrava-se com a faixa presidencial sobre a casaca preta e a camisa branca, e o cabelo penteado sem nenhum fio fora do lugar. Dóli de
Castro Ferreira |

Soldados no Largo da Estação,
durante a Revolução de 32, em Piquete.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta".
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