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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM |
Em 1928 o
Cinema Popular sofreu uma rodada de má sorte e esteve às portas da
falência. Também, o Quiti, que era seu proprietário, abusava por demais da
paciência dos espectadores. Domingo era o filme em série - "A Mancha
Rubra", com Ruth Roland. Terça-feira, o seriado com Jack Perrin e Francis
Ford - "O Marujo Valente". Quinta-feira, outro seriado: "0 Mistério do
Bairro Chinês e sábado, ainda outro filme seriado denominado "A mão do
diabo". Como segunda, quarta e sexta não havia sessão, o povo era obrigado
a assistir a esses filmes em série, dos quais já estava saturado. Com
isso, o Cinema Popular começou a ficar às moscas. Só mesmo os mais
fanáticos se davam ao trabalho de ir até o Alto da Igreja Matriz, onde ele
era localizado. Pois bem. Quiti, que não era bobo e sabia que o povo
queria mesmo "fitas" de cowboys, começou a fazer propaganda do "colossal e
espetacular" bang-bang "0 estouro da boiada". Quinze dias antes, já os
cartazes à porta de entrada e nas esquinas, e os volantes esparramados
pela cidade anunciavam a noite de gala. Nas rodas formadas nos bares do
Sr. Azer Arantes e do Benedito Elias só se falava na grande fita, que,
segundo os entendidos, esteve quase um mês em exibição no Cine Paratodos,
do Largo de Santa Efigênia, em São Paulo. Eis que chega o dia aprazado.
Acontece, porém, que por um desses imprevistos de difícil explicação, o
filme não chegou pelo trem da três. O proprietário, com as mãos na cabeça,
despachou o único automóvel da cidade para Lorena, em pós do dito. Nesse
ínterim, o povo começava a se juntar às portas do cinema. Gente de toda
parte, pois o nome de Art Acord, protagonista do filme, era sinônimo de
excelência e de direito entre os "habituées" daquela casa de diversão. A
Vila de São José se representava em massa. Aos poucos, o Largo da Matriz
estava apinhado de gente, uns petiscando os gostosos bolos e doces de Nhá
Laura; outros, na barraquinha de seu João Roque, a sorver o cafezinho com
bolo de carne apimentado ou deliciando-se com os saborosos "sonhos"
açucarados que a Maricas de D. Bráulia tão bem fazia. Até o prefeito, que
morava lá pelas bandas do pé da serra, veio com sua presença prestigiar o
espetáculo do "esquenta cano". A sessão ia começar às 19h e 30min. Já
passava das 19h e nada do João Luz aparecer com a fita. Os olhos do Quiti
não saíam do Poço Fundo, que era por onde passava a estrada. Por sorte,
tinha ele ainda o seriado da véspera, que não exibira por falta de
espectadores. Em último lugar exibiria "A mão do diabo" em lugar do
"Estouro da Boiada". A essas alturas a casa já estava lotada. A Banda de
Música, em seu posto, aguardava o início da sessão, enquanto nós, os
filhos de D. Cota Soares, nos desdobrávamos num vai-e-vem tremendo, a
vender nossas cestas de pipocas. As luzes se apagaram e começou uma
comédia de uma só parte, de Pimpão com Cebolório, ao som de uma marcha
apropriada. Termina a comédia. Como naqueles tempos só tínhamos um
projetor, era necessário um intervalo para trocar o rolo e as luzes se
acendiam para isso. A expectativa era geral. Tomam a apagar-se e como o
"Estouro da Boiada" não tinha chegado, o Quiti resolvera mesmo "passar" "
A mão do diabo". Foi o diabo! Sentindo-se ludibriado, o povo começou a
gritar: Pára! Pára! Vamos quebrar! Quiti, por segurança, se refugiou na
cabine das máquinas e não houve jeito de tirá-lo de lá. Felizmente, o povo
daqueles tempos já era igual a esse povo ordeiro e educado de hoje, não
passando, portanto, das ameaças. Mas que o Quiti tomou um tremendo susto
tomou. Texto extraído
do livro "Rememorando..." |

Cine Glória,
1928
Foto escaneada do álbum "COISAS FINDAS" da FCR
O cinema em Piquete teve origem em 1922, quando o prefeito municipal, Major Carlos Ribeiro, cogitou montar na cidade uma sala de espetáculos. Ao ventilar a idéia, foi logo apoiado pelos jovens João Batista da Luz e seu irmão Juca Luz, Francisco Ribeiro (Quiti) e José Luiz Ferreira, que propuseram ao prefeito montar um cinema desde que ele fornecesse uma sala de projeção. O major aceitou o desafio e reformou um prédio de sua propriedade localizado na Rua Cel. José Mariano, em frente à velha matriz, onde havia funcionado, até aquela data, o Paço Municipal. Os jovens empresários foram até Lorena e arranjaram com o senhor Tonico Leite, dono de um cinema, uma máquina projetora, instalando assim o Cine Popular. A estréia foi um sucesso. A curiosidade do povo era grande. O filme exibido foi "Carne de Corvo" e a entrada custava 300 réis. O cinema passou a funcionar aos sábados, domingos e segundas-feiras, e era sonorizado por músicos da Euterpe Piquetense. Com o passar do tempo, o cinema caiu no gosto popular e a sala tornou-se pequena. Foi então que, em 1926, José Crispim de Meireles, conhecido como Zequinha Meireles, arrojado construtor na cidade, ergueu na então rua Américo Brasiliense um prédio para abrigar o cinema de Piquete, e, anexo, um "Bar e Confeitaria". Nascia o Cine Glória, com palco, camarotes e geral. A partir de então, o Cine Glória tornou- se referência e ponto de encontro para a sociedade piquetense. Ao lado, um bilhar e uma sorveteria eram muito freqüentados. A sala de projeção estava sempre repleta. Havia famílias que mantinham camarotes alugados. Durante o mês, circulava pela cidade um programa com os filmes que seriam exibidos. Havia publicidade nos jornais da época: "O SENTINELA" e "PIQUETE JORNAL". Foi por meio deles que ficamos sabendo do sucesso de alguns filmes: "Um Grito D'alma", com Blanche Sweet e H. Bosworth, em 1927; a comédia "Amor em Polvorosa", com Larry Semon e Charlie Murray, "O Prínceppe da Sella", "sensacional drama de aventuras desenroladas no Far-west", e" A Boneca de Paris", em 1928. Em maio de 1928, Zequinha Meireles vendeu o Cinema e o Bar Glória para o professor João Cardoso do Nascimento, que alugou o bar para Salomão & Ribeiro e o cinema à empresa Araújo & Luz. Após sua inauguração, o Cine Glória serviu, também, para bailes carnavalescos e festivais beneficentes. Em 1928, lá estreou a peça "Amor e Honra", com o "Grupo de Amadores Dramáticos Piquetenses", dirigido por Francisco Ribeiro. Nessa peça e em muitas outras atuaram, entre outros, Cirilo de Oliveira, Milita, seu Corrêa, Juca Luz, Dudu Viana, Maria Aparecida Leite, Nina Cunha, Alberto Montano, Iracema e Olga Cunha, Doca Palma. Revendo uma fotografia da época de sua inauguração, alguns antigos moradores podem ser reconhecidos: bem instalados nas janelas superiores, Geraldo Magalhães, Sebastião de Souza Lima e o Biteba. Na calçada, em um grupo à esquerda, Antônio Januário e Ana do Nicanor. Junto à porta lateral, podemos reconhecer José de Castro Ferreira, regente da Euterpe, Quiti, Cirilo de Oliveira, Feliciano, maquinista do ramal férreo, Rubens Coutinho, João Galvão, Azer Arantes e Oswaldo de Aquino; de calças curtas, Milton Galvão, Orlando Siriri e Carlos Vieira Soares. O Cine Glória foi, durante muitos anos, orgulho dos piquetenses. Seus proprietários faziam questão de uma boa programação, o que mantinha a casa com ótima freqüência. Alguns ainda recordam com saudades aqueles bons tempos e filmes como Ben Hur, Miguel Strogoff, além de seriados como "Os Miseráveis", de Victor Hugo... Com a construção da Vila Duque Caxias e do Cine Estrela do Norte, nos anos 40, o Cine Glória foi tendo sua freqüência diminuída, até que um comunicado publicado em "O LABOR", em 31 de maio de 1948, noticiou o fechamento do Cine Glória a partir de 1º de junho daquele ano. Jornal "O Estafeta" - Junho de 2005 |

Prédio onde funcionou
o antigo Cine Glória
Foto de Lety

Foto escaneada do
Jornal "O Estafeta"
Ir ao cinema em
Piquete era estar ligado, aos acontecimentos, receber informações,
comprazer-se com obras de arte, degustar prazeres visuais, assimilar
modelos e observar que o sistema de vida norte- americano (após 1945,
final da II Guerra Mundial) era o fim almejado. Vestia-se, penteava-se,
agia-se, pensava-se segundo esse famoso slogan: o "american way-of-life"
(sistema americano de vida). Com ele, entre outras coisas, veio o
chiclets, e, de lambuja, Carmem Miranda, como baiana estilizada, com um
samba com sotaque norte-americano, no qual se identificavam vários ritmos
latino-americanos, nenhum puro, e todos subliminarmente "arranjados" para
o gosto e os interesses do Tio Sam. E Carmem Miranda incorporou o Zé
Carioca, o Bando da Lua e o que era preciso e aprovado pelos estúdios
hollywoodianos. Fez fortuna e passou a integrar o "star system" provocando
orgulhos pátrios e invejas arrasadoras. Agüentou-se até o final, fincando
pé entre as mansões de Beverly Hills, o bairro estrelado de Los Angeles.
Nos cinemas piquetenses ela pontificava ao lado dos grandes nomes
arrancando suspiros, lágrimas, sorrisos, gargalhadas, aceitações,
conivências, repúdios e toda a sorte dos humores humanos ao se verem
representados em imitação da vida. O real mitificado tomou-se simulacro de
si mesmo. Às vezes, com muito brilho, coreografias e encenações
estereotipadas montadas em cenários de cartão, simuladores dos originais
para gáudio de todos. Depois, a tecnologia levou às locações reais, e, ao
tornar tudo muito próximo do real, se aperfeiçoou tanto, que até hoje
dizem os maravilhados com as técnicas televisivas: Parece um cinema! Mas o
salto de qualidade esvaziou os velhos estúdios de sua magia perturbadora.
A emoção transferiu-se, nas grandes corporações multinacionalizadas, para
os efeitos especiais, nos quais o interesse já não é criar um modo de vida
exemplificado, didático e pretensamente virtuoso, mas uma diversão fugaz
que se encerra nos extensos blocos dos créditos finais, em geral não
atendidos pelos impacientes espectadores. E estes, muitas vezes, perdem um
arremate de enfeite ou de significação; a menos que estejam alertados para
a espera prolongada da trilha musical estendida em mais de uma faixa
musical. Naqueles tempos do cinema em Piquete (década de 1940),
assistia-se ao filme em partes interrompidas, com tempo para o bobinamento
da máquina de projeção. As partes circulavam entre o cinema operário e o Cassino
dos Oficiais (em maiúsculas, como se fazia na época, pelas exigências
hierárquicas). Uma charretinha puxada por uma mula incumbia-se do
transporte das ditas partes. Demoras havia. E se fossem trocadas? Um
espanto e um clamor geral. Interrupções por chuvas tempestuosas, falta de
energia, e... empacamentos da mulinha, que não aceitava mudanças no
itinerário, mesmo se esse tivesse algum tipo de impedimento: reforma de
ponte, perigos da via carroçável ou desatinos caprichosos que não são
apenas da humana forma. Na platéia do cinema operário, impacientava-se o
povo, mas discutiam-se as seqüências e apostava-se nos desenlaces finais.
Alguma ida ao banheiro do bar e padaria ao lado. Talvez desse tempo para
um cafezinho requentado ou um "golinho" confortante. No Cassino, os
intervalos eram regados a boas bebidas e regalos comestíveis bem
preparados e bem servidos. O café sempre novo. Tudo servido com requintes
para um público bem vestido e bem apresentado. Falava-se baixo, segundo o
bom tom e a etiqueta de que os oficiais graduados eram possuidores desde
sua gloriosa Academia. Argumentava-se com base em intelectualidades. Os
filmes eram previamente escolhidos a dedo. Assistia-se ao que de melhor
houvesse no mercado cinematográfico, antecipando-se a todas as salas
valeparaibanas de exibição. Mas também era necessário conceder algumas
vantagens ao operariado: uma sessão grátis toda semana, freqüência
liberada aos aposentados em todos os dias da semana e a presença de filmes
de agrado popular: os religiosos (católicos) em geral, a Paixão de Cristo,
na Semana Santa, e os de Mazzaropi, sempre que os houvesse disponíveis.
Afinal, ninguém é de ferro. E para as crianças, as séries (a maravilhosa,
de Flash Gordon) e os "cowboys": torcia-se sempre pelo branco munido de
arma de fogo contra os vilões mal-encarados e os índios estereotipados nos
cabelos longos presos, cujas armas eram as machadinhas. Dóli de
Castro Ferreira |

Cine Estrela do
Norte
Foto de Lety

Cine Estrela do
Norte após a reforma
Foto de Lety
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