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No final do século XVII, sertanistas taubateanos, transpondo a
Mantiqueira, descobriram as primeiras pintas de ouro nas terras habitadas
pelos cataguases. Teve início, então, uma corrida desenfreada na busca desse
metal, o que fez com que um número sem precedentes de aventureiros se
embrenhasse sertão a fora. O Vale do Paraíba, por sua posição geográfica,
era corredor natural de passagem para a região das minas, e a Garganta do
Embaú, na Mantiqueira, sua porta de entrada. Da Vila de Taubaté partiram as
principais bandeiras, que se derramaram por matas e serras, de sorte que, em
poucos anos, tinham vadeado sertões e descoberto inúmeras minas. Piquete tem
sua origem no final do ciclo do ouro, quando os garimpos já não produziam
como nos anos anteriores. Para abastecer com produtos de lavoura o arraial aurífero
de Soledade de Itajubá, no alto da Mantiqueira, foi aberto um caminho que
partia das margens do Paraíba, na Freguesia de Piedade. Esse caminho
tornou-se conhecido como "Caminho de Minas" ou "Caminho da
Serra do Itajubá" e passou a ser usado por contrabandistas para desvio
de ouro e produtos minerais. Evitavam, assim, o Caminho Velho de São Paulo,
burlando o fisco. O escape de ouro pelas fronteiras sul-mineiras levou o
governo da Capitania das Minas a instalar, na vertente paulista da
Mantiqueira, em dezembro de 1764, um registro e um piquete de tropas para
guarnecê-lo. Logo, o ouro das Gerais se esgotou. Muitos aventureiros
retornaram das minas, fixando-se às margens do Caminho, que teve aumentado
seu movimento e importância. Pousos e vendas foram instalados, e roças
plantadas. Surgiu um núcleo populacional, que deu origem, nos primeiros anos
do oitocentos, ao bairro do Piquete. O povoado associou-se firmemente ao
Caminho de Minas, que aí se bifurcava, saindo um ramo para o porto do Senhor
Bom Jesus da Cachoeira, e o outro para Lorena. O primeiro destinava-se a
atingir a Estrada Geral para a Corte e o segundo ligava o bairro com Aparecida
e outras vilas valeparaibanas e com o litoral, em Mambucaba e Paraty. As condições
desse Caminho eram precárias. Era sempre arriscado transitar por ele,
principalmente no período das chuvas. A topografia da serra não facilitava o
percurso. Além do mais, era muito caro o transporte de mercadorias, já que
os tropeiros e viajantes pagavam impostos em duas barreiras nele existentes, o
que os levava a apresentar queixas à Câmara de Lorena. A Câmara, por sua
vez, recorria ao governo da Província de São Paulo, pedindo recursos para
manter o Caminho transitável, pois sua importância era grande. Quando, por
qualquer motivo, era interrompido, e os produtos sul-mineiros não chegavam às
praças de Lorena, havia desabastecimento e aumento de preços. Apesar das
dificuldades de trânsito, sua importância crescia ano a ano. Assim, em 1861,
por ele passaram mais de vinte e duas mil bestas e inúmeros animais de
andantes e cargueiros, gados e porcos que desciam a serra para serem vendidos
em Lorena, Guaratinguetá, Areias, Silveiras e Rio de Janeiro. Esse movimento
crescente, aliado à cultura cafeeira que era ampliada nas propriedades,
concorreu para o acúmulo de capital entre os fazendeiros. Era grande a
religiosidade dos moradores do bairro do Piquete, o que fez com que se construísse
uma capela no bairro. São Miguel foi escolhido padroeiro do lugar. O bairro
foi, então, elevado, em 1875, à condição de Freguesia. O templo passou a
direcionar o traçado urbano, que, respeitando o rio e o Caminho, que corriam
paralelos, obrigava a construção de casas pelas encostas adjacentes. Em maio
de 1891 ocorreu a emancipação político-administrativa do Bairro do Piquete
e, em 15 de Junho, foi empossada a sua primeira Intendência.
Antônio
Carlos Monteiro Chaves
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - junho de 2004
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