PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História
Do Descaminho do Ouro à Emancipação Política


Mapa do Brasil de 1686.

"Buscar hoje a Estrada Real é descobrir uma velha cicatriz, lembrança de um corte profundo traçado a partir do litoral do Rio de Janeiro até o coração de Minas Gerais. Por este ferimento, o Brasil sangrou, no século 18, algo em torno de 650 toneladas de ouro e outra fábula em diamantes. (...)"

Descoberto ouro e publicada a fama delle, subirão logo os moradores de São Paulo a tirallo p'lo mesmo caminjo assima referido, pello qual se descobriu. E logo também sucissivamente do Rio de Janeiro se fez caminho, que se continua da cidade por terra e por mar com poucos dias de viagem athé o lugar de Parati; e deste se entra no matto e em sinco dias se chega a encontrar com o referido de São Paulo; no dous caminho em hu só se continua com vinte dias de viagem ordinária athé chegar as primeiras minas chamadas do Ribeiro das Mortes. Este era o único q'auniwa p. as minas de todas das povoações do sul, a saber de todos os distritos de São Paulo e do rio de Janeiro.
(Rodrigo de Castello Branco,"Carta para Mendo de Foyos Pereira", fins do século 17)

http://www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/bco_imagens/caminouro/camindex.htm

Obs. As imagens colocadas nesta página foram retiradas do site acima.


Embaú


No final do século XVII, sertanistas taubateanos, transpondo a Mantiqueira, descobriram as primeiras pintas de ouro nas terras habitadas pelos cataguases. Teve início, então, uma corrida desenfreada na busca desse metal, o que fez com que um número sem precedentes de aventureiros se embrenhasse sertão a fora. O Vale do Paraíba, por sua posição geográfica, era corredor natural de passagem para a região das minas, e a Garganta do Embaú, na Mantiqueira, sua porta de entrada. Da Vila de Taubaté partiram as principais bandeiras, que se derramaram por matas e serras, de sorte que, em poucos anos, tinham vadeado sertões e descoberto inúmeras minas. Piquete tem sua origem no final do ciclo do ouro, quando os garimpos já não produziam como nos anos anteriores. Para abastecer com produtos de lavoura o arraial aurífero de Soledade de Itajubá, no alto da Mantiqueira, foi aberto um caminho que partia das margens do Paraíba, na Freguesia de Piedade. Esse caminho tornou-se conhecido como "Caminho de Minas" ou "Caminho da Serra do Itajubá" e passou a ser usado por contrabandistas para desvio de ouro e produtos minerais. Evitavam, assim, o Caminho Velho de São Paulo, burlando o fisco. O escape de ouro pelas fronteiras sul-mineiras levou o governo da Capitania das Minas a instalar, na vertente paulista da Mantiqueira, em dezembro de 1764, um registro e um piquete de tropas para guarnecê-lo. Logo, o ouro das Gerais se esgotou. Muitos aventureiros retornaram das minas, fixando-se às margens do Caminho, que teve aumentado seu movimento e importância. Pousos e vendas foram instalados, e roças plantadas. Surgiu um núcleo populacional, que deu origem, nos primeiros anos do oitocentos, ao bairro do Piquete. O povoado associou-se firmemente ao Caminho de Minas, que aí se bifurcava, saindo um ramo para o porto do Senhor Bom Jesus da Cachoeira, e o outro para Lorena. O primeiro destinava-se a atingir a Estrada Geral para a Corte e o segundo ligava o bairro com Aparecida e outras vilas valeparaibanas e com o litoral, em Mambucaba e Paraty. As condições desse Caminho eram precárias. Era sempre arriscado transitar por ele, principalmente no período das chuvas. A topografia da serra não facilitava o percurso. Além do mais, era muito caro o transporte de mercadorias, já que os tropeiros e viajantes pagavam impostos em duas barreiras nele existentes, o que os levava a apresentar queixas à Câmara de Lorena. A Câmara, por sua vez, recorria ao governo da Província de São Paulo, pedindo recursos para manter o Caminho transitável, pois sua importância era grande. Quando, por qualquer motivo, era interrompido, e os produtos sul-mineiros não chegavam às praças de Lorena, havia desabastecimento e aumento de preços. Apesar das dificuldades de trânsito, sua importância crescia ano a ano. Assim, em 1861, por ele passaram mais de vinte e duas mil bestas e inúmeros animais de andantes e cargueiros, gados e porcos que desciam a serra para serem vendidos em Lorena, Guaratinguetá, Areias, Silveiras e Rio de Janeiro. Esse movimento crescente, aliado à cultura cafeeira que era ampliada nas propriedades, concorreu para o acúmulo de capital entre os fazendeiros. Era grande a religiosidade dos moradores do bairro do Piquete, o que fez com que se construísse uma capela no bairro. São Miguel foi escolhido padroeiro do lugar. O bairro foi, então, elevado, em 1875, à condição de Freguesia. O templo passou a direcionar o traçado urbano, que, respeitando o rio e o Caminho, que corriam paralelos, obrigava a construção de casas pelas encostas adjacentes. Em maio de 1891 ocorreu a emancipação político-administrativa do Bairro do Piquete e, em 15 de Junho, foi empossada a sua primeira Intendência.

Antônio Carlos Monteiro Chaves
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - junho de 2004

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