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PIQUETE - CIDADE PAISAGEM |

Em frente à antiga Basílica
de Aparecida, o Pe. João Baptista Seraphim, então Pároco de Piquete,
e a Pia União das Filhas de Maria, com sua presidente vitalícia, Maria de
Lourdes Ferreira (Mariquinha),
quando de uma romaria ao Santuário Mariano, na década de 1950.
Foto do Jornal "O Estafeta"
Filhas de
Maria eram as moças que se vestiam de branco imaculado, seu símbolo e força,
e compunham a Pia União (2). Através das décadas de 1930, 40 e 50
representaram, nas suas vestes, os atos e o ideal da pureza e dedicação
a Maria, a Mãe Santíssima.
Maria de
Lourdes Ferreira (Mariquinha) era a presidente tornada vitalícia e honorária.
Freqüentemente eleita por decisão unânime, acabou aclamada para ocupar
permanentemente o posto e deste fazer sua principal missão. A dedicação foi
plena, e a observância das normas, ponto de honra cumprido com denodo,
porém sem perder a humildade e a compaixão, palavra esta tomada no sentido
etimológico de partilha e comprometimento. O vestido das moças era
branco, de fustão, uniforme obrigatório e severamente controlado no
modelo único. Branco igualmente era o véu que lhes cobria a cabeça em todos
os atos religiosos. Vigiava-se para que estivessem adequadamente limpos e bem
cuidados. A fita, distintivo da irmandade, colocada ao pescoço, e a faixa, na
cintura, eram azuis da tonalidade celeste, confeccionadas em tafetá moiré
(4). A faixa complementava, solenemente, o traje nas cerimônias especiais. A
medalha da Virgem Nossa Senhora da Conceição era o símbolo nas fitas,
homenagem distinguida. Essas fitas e faixas eram artesanalmente confeccionadas
e cabia à presidente inspecionar a autenticidade dos materiais. A colocação
da fita na nova Filha de Maria constituía ato solene. Portar as fitas era
identificar a agremiação e, portanto, usadas nos diferentes atos de religião,
cotidianamente, enquanto o uniforme era reservado para as principais
solenidades. Nas procissões, em fila central, as moças esvoaçavam quais
pombinhas, envolvidas lateralmente pelas filas do povo em geral.
Reverenciava-se sua passagem e os corações palpitavam entre pais, parentes,
afilhados, admiradores, e por que não, namorados e futuros esposos? Muitas
delas aguardavam, ansiosas, o momento de substituir o vestido branco da
irmandade pelo traje completo da noiva. A Filha de Maria representava o ideal
da futura esposa e mãe de família e a moça sonhava o sacramento
matrimonial, esplendorosa nas suas virtudes. Para as moças de família,
pertencer à Pia União era um rito de passagem e uma garantia aos
pretendentes. No dia do casamento a fita era devolvida (5) à presidente
como símbolo de consentimento ao novo estado e um penhor de continuidade na
vida cristã. Estaria a recém-casada em outras associações, com véu (6)
substituído pelos filós e rendas pretas, mas com o propósito firme de bem
orientar os filhos e ser o esteio forte do lar. Exemplares por destino e formação.
Outras, sentiam o apelo da vocação para a vida religiosa e se afastavam para
este destino. Em ambos os casos as fitas eram devolvidas solenemente. Outras
moças permaneciam solteiras e adentradas em anos, mas fiéis às suas juras e
códigos, conservando o frescor da juventude nas vestes brancas e véus esvoaçantes.
Outras tiveram destinos transversais, mas todas se irmanavam no mesmo ideal: o
de reverenciar a Virgem Santíssima, o de procurar fugir das ocasiões de tentação,
não freqüentar bailes públicos, não assistir a filmes provocativos - de
preferência não ir ao cinema, a não ser nas ocasiões de fitas religiosas.
Afinal, o cinema era, na maioria das vezes, uma janela aberta para paixões, e
a pureza de atos e pensamentos deveria ser o eixo ativo dessas moças. Não
usavam pinturas nos rostos e o modo de vestir deveria ser discreto.
Trabalhavam pela comunidade: catequizavam, ajudavam na preparação do
batismo, do crisma, do matrimônio; arrumavam os andores das procissões,
limpavam e decoravam a igreja. Eram estimuladas para o trabalho no lar, mas
também trabalhavam ativamente nas quermesses das festas religiosas elaborando
quitutes, providenciando brindes e prendas e angariando fundos. Aconselhavam
pessoas, visitavam doentes e eram portadoras de palavras de conforto e
solidariedade. O tempo prolongou a presença ativa de muitas delas, encaradas
como líderes e obedecidas como modelos. No mês de maio esse exército branco
tinha a mais importante expressão. Era o mês de Maria. Nas rezas noturnas lá
iam as moças em oferecimentos de flores, acompanhando os casais paraninfos da
noite. Em seguida iam, em procissões, levar a Virgem em visitas às casas de
família, onde o coroamento da Senhora se acompanhava da revoada de
anjos. Os corações se aqueciam e as pétalas das flores engalanavam a cerimônia.
A família anfitriã jorrava sua alegria no saboroso licor e cafezinho, além
dos doces e biscoitos. A presidente se entusiasmava e relembrava, com alegria,
esses atos. Estava sempre presente, fossem quais fossem as manifestações
climáticas ou as implicações familiares e emocionais. Os dias suarentos de
sol a pino ou garoentos das névoas da serra e as noites de céus cravejados
das cintilações estelares testemunharam a presença das piedosas Filhas de
Maria nas procissões diurnas e noturnas, e mesmo nas das sofridas madrugadas
das procissões da Ressurreição. Massageavam-se as pálpebras sonolentas nos
olhos arenosos da noite incompletamente dormida, mas mantinham-se os espíritos
alertas. A banda tocava, animando, e a mensagem do dia gratificava a todos.
O
tempo passou, muitos atos foram modificados e a Igreja acompanhou a dinâmica
social. A Pia União deixou de existir em Piquete. Existe em outros lugares.
Nestes, são vistas senhoras de cabelos embranquecidos portando, impávidas,
sua fita azul, certas de suas disposições. Existem, em Piquete, algumas
dessas moças, ainda solteiras, igualmente fortalecidas no seu ideal e no
culto dessa memória. Guardam, felizes, boas recordações, embora já não
mais ostentem suas fitas azuis, substituídas por outros símbolos. A Legião
de Maria continuou o culto especial à Virgem. Expande a temática da organização
das fileiras: marianas, com ampla participação de mulheres solteiras ou
casadas, mas também de homens, que se comprometem a seguir o código e
estatutos, e principalmente atuar no resguardo do amor a Maria e em
engrandecimento da fé. |
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Notas: (1) - As associações religiosas em Piquete ligadas à Igreja Católica
tiveram sua origem no século XX e têm sua história e trajetória ligadas à
evolução do município. Algumas delas nasceram no início do século e estão
adentrando o novo milênio. A do presente trabalho não chega a essa
possibilidade. Outras surgiram já bem mais tarde. Todas elas, porém, foram e
estão sendo importantes fios condutores socioculturais. Por isto, vale o
resgate histórico de suas importâncias. |
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