PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

O Trenzinho Piqueteiro
O Ramal de Piquete da EFCB


Estação Rodrigues Alves
Tela de Lucio Daqui - pintor piquetense
Foto de Lety

No governo do Presidente Campos Salles, o Marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Oficial de Artilharia e Engenheiro, então Ministro da Guerra, após haver desempenhado importantes comissões técnicas e de Estado Maior, elaborou um vasto programa de realizações em que previa a construção de uma fábrica de pólvora sem fumaça. Em 16 de Janeiro de 1901 foi nomeada a comissão para escolher o local mais apropriado para a instalação da fábrica de pólvora e, após estudos, concluiu seu trabalho em 17 de Dezembro de 1901 e, no dia 04 de Abril de 1902, através do Aviso n.º 15, dava-se a aprovação para construí-la. Entre os locais escolhidos encontravam-se as terras pertencentes ao Barão da Bocaina que, estando ciente dos planos do Governo, procurou pessoalmente o Ministro da Guerra e doou terrenos para a construção de um sanatório militar de convalescentes próximo a São Francisco. No dia 11 de Fevereiro de 1902 o Ministro da Guerra, o Marechal Mallet, veio em comitiva escolher o local apropriado para a instalação da fábrica e do sanatório, sendo recebido pela municipalidade de Lorena, de onde partiu para a Vila Vieira do Piquete, onde foi hospedado pelo Tenente José Mariano Ribeiro da Silva, no Hotel Santa Cruz, de onde dirigiu-se para São Francisco dos Campos. O Ministro escolheu a região de Lavrinhas para a construção do sanatório e a região da Fazenda Benfica, em terras piquetenses, para a fábrica de pólvora. Durante esta visita, o Ministro determinou também a construção de um Ramal Férreo que, partindo de Lorena (Estrada de Ferro Central do Brasil) atingisse a região do Benfica, na raiz da serra, facilitando o acesso e transporte a região onde seria construída a fábrica de pólvora.


Trem piqueteiro sobre a ponte do Rio Paraiba do Sul na saída do perímetro urbano de Lorena.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

Não podendo as municipalidades ficarem indiferentes ante as iniciativas do Governo, a de Lorena conseguiu de diversos proprietários a cessão gratuita dos terrenos por onde passariam os trilhos da via férrea projetada, bem como fazer as desapropriações necessárias para tal fim. As obras tiveram início logo após a visita do Ministro com a criação da “Comissão de Construção do Ramal Férreo Lorena a Benfica”, sob a direção do Coronel Belarmino de Mendonça, que foi substituído mais tarde pelo Coronel Inácio de Alencastro Guimarães. No dia 03 de Fevereiro de 1902, chegava a Lorena o então 12.º Batalhão de Infantaria, que veio construir o ramal férreo com o efetivo de 450 homens sob o comando do Coronel Francisco Agostinho de Melo Souza Menezes e se instalaram na Fazenda Amarela, pertencente à dona Angelina Moreira de Azevedo, mãe do Barão da Bocaina, que deu autorização para que o batalhão se instalasse gratuitamente em suas terras o tempo necessário para a realização das obras. Em 02 de Novembro de 1902, a edição n.º 800 do Jornal Correio do Norte, de Guaratinguetá, trazia a seguinte notícia:

Jornal Correio do Norte (Guaratinguetá, SP)
n.º 800 - 02 de Novembro de 1902

De Lorena a Benfica

"Conforme noticiamos, já foram assentados durante toda a semana finda, os primeiros trilhos da Estrada de Ferro que desta cidade se destina a Benfica, onde será construída a fábrica de pólvora sem fumaça. O trabalho de assentamento dos trilhos tem sido feito com admirável atividade, tendo os trabalhadores, nestes últimos dias, percorridos quase 2 quilômetros. O Sr. Coronel Bellarmino de Mendonça, Engenheiro-chefe da Comissão Construtora da Estrada, já requisitou a vinda de uma locomotiva para a mesma que deverá estar aqui até 4 de Novembro próximo, afim de facilitar o transporte de materiais para a conclusão de vários serviços até o dia 15 de Novembro."


Ramal Férreo de Lorena
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

Em 26 de Março de 1904, durante o governo do Presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves, o seu Ministro da Guerra, o Marechal Argollo, acompanhado do Ministro da Indústria, Viação e Obras, Dr. Lauro Muller, veio com uma comitiva composta de Engenheiros e Técnicos inspecionar o andamento dos trabalhos do ramal ferroviário. Esta comitiva embarcou em Lorena, de trem e dirigiu-se até a então ponta dos trilhos, na Fazenda Conceição, localizada junto ao ribeirão do Ronco, onde inspecionaram as obras. No dia 22 de Julho de 1905, a comissão construtora instalou-se na Fazenda Estrela do Norte, iniciando as obras da barragem do rio Sertão e a construção da usina hidroelétrica que geraria energia elétrica para a fábrica de pólvora em construção. Nessa ocasião, o movimento de tropas e operários era grande, intensificando-se o trânsito na então pacata Vila Vieira do Piquete à medida que o ramal ferroviário se aproximava. E, finalmente, no dia 15 de Setembro de 1906, era solenemente inaugurada em Piquete, a Estação Rodrigues Alves e, em 1907 são concluídas as obras do ramal, sendo entregues ao tráfego 19,670 km em bitola métrica. A fábrica de pólvora, por sua vez, foi inaugurada no dia 15 de Março de 1909 pelo Presidente Afonso Pena.


Trecho do Ramal de Piquete, passando pela Figueira

Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

Na verdade, o Ramal de Piquete fazia parte de um projeto bastante audacioso, que era o prosseguimento dos trilhos desta cidade até a cidade de Itajubá-MG, onde se entroncaria com a então Rede Sul-Mineira, além de um outro trecho que seria construído posteriormente, partindo de Lorena até a localidade litorânea de Mambucaba, no Estado do Rio de Janeiro.


Ponte sobre o Rio Paraíba do Sul reconstruída em 1932.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni


Ponte sobre o rio Paraíba, anos 70.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni


Ponte sobre o rio Paraíba, anos 70.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

O Decreto Legislativo n.º 3298, de 11 de Julho de 1917, autorizou a construção de uma linha férrea em continuação ao tráfego de Lorena a Piquete, em direção ao planalto central, passando por Itajubá e Pedra Branca, no Estado de Minas Gerais. Os estudos desta obra foram aprovados pelo Decreto n.º 9.638, de 26 de Junho de 1918 e a construção, iniciada em 1.º de Outubro de 1918, teve os seus trabalhos suspensos em 1921 com cerca de 38 km de infra-estrutura concluídos entre Itajubá e Imbatuba, que foram encampados pela Rede Sul Mineira posteriormente. Através do Aviso n.º 106, de 30 de Dezembro de 1921, foi entregue o trecho de Lorena a Piquete (Rodrigues Alves) à Estrada de Ferro Central do Brasil e o trecho entre esta Estação à Fábrica de Pólvora permaneceu sob administração do Ministério da Guerra.


Trecho do ramal férreo na Cel. Barreiros

Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

O Ramal de Piquete compreendia as seguintes Estações:

- Lorena, que também servia ao ramal de São Paulo da EFCB, localizada no km 280,604.
- Ponte Paraíba, km 283,531, próxima à ponte ferroviária sobre o rio Paraíba.
- Angelina, km 288,021.
- Coronel Barreiros, km 291,028.
- Francisco Ramos, km 293,481.
- Itabaquara, km 296,431.
- Rodrigues Alves, que passou a ser denominada Piquete a partir de 1933, no km 297,531.

A partir da estação de Piquete a linha prosseguia sob a administração do Ministério da Guerra, onde estavam localizadas as seguintes estações:

- Estrela do Norte, km 298,818.
- General Mendes de Morais, km 300,051, localizada próxima à entrada da fábrica (além desta Estação ainda havia uma outra que localizava-se no interior da fábrica.)

A partir da Estação de Estrela do Norte, iniciava-se um amplo território, que compreendia a Fábrica de Pólvora, guardado e defendido pelas tropas do Exército comandados por um Capitão de Infantaria. Nessa área ninguém entrava, nem a Polícia sem a autorização do Exército. Em Estrela do Norte localizava-se a zona residencial do contingente do Exército onde havia, dentre outras melhorias, um serviço de transporte sobre trilhos de trens, bondes e troles e, pelo menos duas pequenas estações ferroviárias que serviam à referida zona residencial. Além de escoar a produção da fábrica, o Ramal de Piquete também transportava passageiros e os operários da fábrica.

Os trens de passageiros que percorriam este trecho eram conhecidos como os “Trens Piqueteiros”, que por muitos anos constituíram o principal meio de transporte para a cidade de Piquete. Por volta de 1947, o Ramal teve sua bitola modificada para 1,60m, possibilitando assim, a interligação com o Ramal de São Paulo, sem a necessidade de transbordo de cargas entre os vagões, mas tal mudança não alterou o transporte de passageiros vindos de Piquete, pois os mesmos que se dirigiam às cidades do Vale ou para o Rio e São Paulo ainda eram obrigados a fazer baldeações para os trens que se destinavam a estas cidades.


Trem Piqueteiro nas proximidades da Estação de Lorena, com destino a Piquete.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni


Trem Piqueteiro nas proximidades da Estação de Lorena, com destino a Piquete.
Coleção Profº Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

A partir da década de 50 e com as melhorias realizadas na estrada de rodagem entre Lorena e o Sul de Minas, que passava por Piquete, os trens do Ramal de Piquete começaram a perder seus passageiros e cargas para os caminhões e para as empresas de ônibus que começaram a crescer na região do Vale do Paraíba e o número de trens foi diminuindo. Apesar de ser uma linha deficitária, o Ramal de Piquete não foi incluído no programa de erradicações de linhas deficitárias, na década de 60, por ser considerado de interesse militar, o que garantiu uma “sobrevida” para o ramal, adiando sua extinção. A partir de então, o movimento do ramal foi diminuindo, o trem de passageiros foi desativado na segunda metade da década de 70 e os trens de carga só corriam esporadicamente, quando a fábrica de pólvora recebia matéria-prima ou escoava a sua produção. No último ano de funcionamento do ramal, em 1977, a RFFSA transportou de Lorena até Piquete 72 vagões de nitrato, 16 de salitre e 3 de algodão e, em Dezembro deste mesmo ano o ramal foi desativado. Alguns ferroviários que trabalharam na RFFSA na época do funcionamento deste ramal afirmam que todas locomotivas diesel circularam pelo menos uma vez neste trecho, inclusive as U23C e as SD18 e SD38, mas tal fato não dá para se comprovar com certeza, pois ao que parece, este ramal não possuía condições, principalmente nas pontes, de suportar a circulação de locomotivas tão pesadas, mas pelo que conseguimos apurar, descobrimos que as locomotivas U5 e U6, bem como as RS-3 circularam por este trecho com mais freqüência. Após sua desativação, os trilhos ainda permaneceram abandonados até que, em 1983, a Prefeitura de Piquete desapropriou os bens da RFFSA e retirou os trilhos do município, construindo uma avenida em seu lugar. Em Lorena, os trilhos ainda permaneceram até 1985, quando foram retirados pela própria Rede. Do ramal de Piquete quase nada restou, a não ser a ponte sobre o rio Paraíba, transformada em ponte rodoviária, e as Estações de Piquete, Estrela do Norte e General Mendes de Morais, estas duas últimas em bom estado de conservação.


O trem de passageiros ao lado da estação de Lorena, anos 40.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni


Lorena, SP - Junção do Ramal de Piquete (à esquerda) com o Ramal de São Paulo (à direita). Podemos notar na passagem de nível a existência de três trilhos. Isso se justifica pela foto ser tirada pouco tempo depois do alargamendo de bitola (de 1m para 1,60m) na década de 40.
Coleção Prof. Ércio Molinari, Lorena, SP - Cortesia: Marco Giffoni

O “Trem Piqueteiro” ainda é lembrado com saudade pelas pessoas que o conheceram, muitos ainda sonham com a reconstrução da linha, possibilitando a circulação de um trem turístico, mas como sabemos, tal fato é praticamente impossível de acontecer. Uma das últimas lembranças do ramal de Piquete, que era seu entroncamento com o ramal de São Paulo, em Lorena, foi retirado em 2001 a pedido da Prefeitura deste município que precisava da área para colocar em prática o seu projeto de revitalização da Estação. Em Piquete, por volta de 2002, foi colocada como monumento em frente à estação de Estrela do Norte, uma locomotiva a vapor de bitola métrica (n.º 223, ex - RMV) e um carro de passageiros como lembrança do trenzinho piqueteiro que por muitas vezes circulou por aqueles trilhos...

Marco Giffoni - Pesquisador Ferroviário
marcogiffoni@uol.com.br
Texto publicado no site da Associação Nacional de Preservação Ferroviária (ANPF)
www.anpf.com.br


Estação da Estrela do Norte atualmente
Foto de Lety

O "Piqueteiro"


O "Piqueteiro" transportando operários, segue em direção ao Portão da Limeira.
Ao fundo, o antigo Hospital da FPV, atual Fórum. Foto da década de 40, publicada no Jornal "O Estafeta".

Em fevereiro de 1902, o 12° Batalhão de Infantaria do Exército deu início à construção do ramal férreo Lorena-Benfica, da Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa obra militar visava atingir os campos altos da Mantiqueira, na planície de Lavrinhas, próximo a São Francisco dos Campos, propriedade do Barão da Bocaina, onde o governo iria construir um sanatório militar e uma fábrica de pólvoras sem fumaça. No entanto, por questões estratégicas, os planos originais foram mudados e a fábrica acabou sendo construída na planície da Limeira, local onde a linha férrea teve seu ponto final. Inaugurado em setembro de 1906, essa ferrovia, construída para o transporte de operários e de materiais para a edificação da fábrica, passou a servir, por mais de sete décadas, à população de Piquete. Seu ponto de partida era a Estação de Lorena. Ao longo de seu percurso foram construídas as estações Angelina, Coronel Barreiros, Rodrigues A1ves, Estrela do Norte e Limeira. Havia ainda as paradas Ponte do Paraíba, Francisco Ramos e Bela Vista. Em março de 1909, ocorreu a inauguração da Fábrica de Pólvora sem Fumaça, e a partir de então houve um crescimento no fluxo de passageiros por essa ferrovia. Muitos antigos moradores se recordam do trenzinho dos operários que diariamente transportava trabalhadores para a Fábrica. Apelidado carinhosamente pelos lorenenses de "O Piqueteiro", todas as manhãs, nosso tradicional trenzinho, que trafegava seis vezes por dia de Lorena a Piquete e vice-versa, agitava a pequena cidade. Passou a fazer parte da paisagem bucólica de Piquete. Esse comboio que, nos primeiros anos da Fábrica, era formado por três vagões puxados por uma maria-fumaça, chegou a ter sete carros de passageiros, superlotando a plataforma de Lorena. Apesar do risco de se trabalhar numa fábrica de explosivos, todos os dias era uma festa assistir ao embarque desses operários. A Estação de Lorena tingia-se de azul com mais de 800 uniformes em movimento. Às 5h45min, o Piqueteiro partia. A viagem durava em média uma hora. Quem por ele viajasse pela primeira vez, estranharia, mas com o tempo se acostumava. Era pequeno, apertado e sacolejava muito. Não oferecia conforto. Durante o trajeto fazia uma parada obrigatória nas estações Coronel Barreiros e Rodrigues Alves, para saciar a sede da locomotiva. 0 trajeto era uma animação. Estreitavam-se amizades, colocavam-se as notícias em dia e faziam-se planos para os fins de semana - assistir ao Estrela x Hepacaré ou uma pescaria. Uns passageiros vinham lendo, outros aproveitavam para dormir um pouco mais ao som frenético da máquina. Alguns jogavam dominó, truco ou palitinho. No meio do operariado havia sempre um mais espirituoso que alegrava os colegas de trabalho contando piadas e imitando os chefes, para gargalhada geral. Havia aqueles que, debruçados sobre as janelas, olhares perdidos, contemplavam a paisagem que passava. Na Bela Vista, a locomotiva apitava avisando sua chegada à Rodrigues Alves, onde muitos operários embarcavam. Resfolegando, envolto em fumaça, o Piqueteiro chegava à Estação da Limeira, portão de entrada da Fábrica, para o desembarque e o registro na Casa do Ponto. Logo soava a sirene e todos deviam estar a postos para mais um dia de trabalho. No final da tarde, lá estava ele, sempre fiel, o Piqueteiro, à espera dos seus passageiros para o retorno...

Jornal "O Estafeta" - novembro de 2008

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