PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

A Congregação Mariana

 


Primeira Diretoria da Congregação Mariana de Piquete, em 1936, publicada no
Jornal "O Estafeta".
Diretor: Padre Oswaldo B. Bindão; Presidente: João Vieira Soares; Secretário: Luiz Vieira Soares;
Assistentes: José Venino Vieira e José R. Fernandes; Mestre de Noviços: Décio L. Guimarães;
Tesoureiro: Ismael Marques de Almeida; Conselheiros: Benedito Costa, José Vieira Soares,
Eduardo F. de Aquino, José Alves Beraldo e Carlos Vieira Soares.

Virilidade. Este é o termo que ocorre para designar os homens que compunham a ala masculina dos que, imbuídos da convicção dos bons costumes, representavam o símbolo forte dos filhos de Maria e irmãos em Cristo. A presença marcante nas procissões revelava a força da ordem unida sob o estandarte alçado, honraria especial ao que o empunhasse. Privilégio. Conquista. Escolha selecionada. Fibras testadas em batalhas mundanas. A missa das 10 horas, nos domingos, na antiga Matriz de São Miguel, marcava-se especialmente pela presença dos Marianos. Ocupavam, unidos e organizados marcialmente, vários bancos, sempre à esquerda do altar-mor. Alinhavam-se nas entradas e saídas. Reconheciam-se pelos distintivos, fitas, medalhas. Requeriam posturas admitidas como corretas pelo grupo. Eram símbolos de bom comportamento. Sua aceitação na entidade requeria cuidados. Emblematizados nas fileiras marciais. Comprometiam-se pela fé, pela fidelidade ao papa, pela pureza dos costumes, sendo ou para ser exemplares chefes de família. Assim se diferenciavam. Assim se reconheciam na comunidade. Vestiam-se de terno e gravata. Impecáveis na simplicidade. Um hino os identificava. Cadenciado. Viril. Varonil. Glorioso. Harmonioso. Rimado. Ritmado. Não eram vistos nos bailes das cidades. Muito menos nos de Carnaval. Suas mulheres eram singelas, obedientes, mães-de-família. Presentes no lar. Laboriosas. De filhos rigidamente enquadrados. Bem antes do Rock-n-Roll. Dos Beatles. Da televisão. Nos tempos das fogueiras de São João nas festas brejeiras, das conversas tranqüilas no fim do dia, nas quermesses do largo junto à matriz soberana na colina. Tempos de confessionário individualizado pela declaração ante uma telinha junto à qual um padre contrito ouvia. Comunhões diárias, de preferência. De profundo respeito aos mais velhos. Membros de uma agremiação em aval de vida santificada. Referência de clãs como o dos Vieira Soares. Membros desse clã foram exemplos paradigmáticos da organização, seus participantes; líderes e defensores. Sob intensa vigilância. Modelos. Padrões de comportamento.


Três gerações de Congregados Marianos.
Da esquerda para a direita, Ovídio Alves Beraldo, José Alves Beraldo e Wair Ribeiro Beraldo.
Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Eia sus! Soldados de Cristo no esplendor da vitória. Muito distantes de hoje como modelos. Os Congregados Marianos inseriam-se nos moldes caracterizados pelo antigo direito eclesiástico de pessoas dotadas do bem e dele praticantes. Para ser de bem, uma pessoa precisava executar várias boas ações, reconhecíveis por seus efeitos. Se, entretanto, um deslize ocorresse, bastaria um, e a pessoa perderia o atributivo anterior. Se nas fileiras marianas o deslize houvesse, esperava-se o afastamento do congregado, por espontânea decisão, ou por conselho dos demais. Comunicado com discrição. No mundo do trabalho eram pessoas operosas, cumpridores dos deveres, fiéis às hierarquias. Se a dinâmica social mudou esses arranjos e o trabalho tornou-se menos hierárquico e mais criativo, obtido por competência, talento e conhecimento, como fatores a alterar valores tradicionais, a irmandade também se alterou nas suas referências básicas. Do hino triunfante, ufanista, cantado virilmente em ordem unida, sobraram apenas as memórias. Pretendia-se fixar valores. Os ideais impregnados reproduziram-se ou não. Naqueles, nos quais a imersão foi mais convincente pelo terreno fértil encontrado, vicejaram as boas obras de ação cidadã e comunitária Para não citar nomes e correr o risco do esquecimento, ainda que involuntário, é bom lembrar. No conjunto, as obras assistenciais, como, por exemplo, a instalação e manutenção da Vila Vicentina e de seus correligionários de apoio, como membros egressos dessas irmandades que, ao aproximar pessoas, as levava a acreditar na necessidade de buscar o bem. E, em nome dele, agir. A sonoridade das vozes viris dos congregados marianos ficou na velha Matriz a marcar o tempo. E a exemplificar um tempo de habitantes-cidadãos praticando a religiosidade como norma de vida e empenho social como devoção e dádiva. De acordo com os dados de que disponho, a Congregação Mariana de Piquete foi fundada a 2 de novembro de 1933, contando com 18 membros, entre eles, meu informante, Sr. Luiz Vieira Soares (1998). Ele foi um dos principais memorialistas da história das irmandades e das organizações relacionadas à Igreja católica em Piquete.

Dóli de Castro Ferreira


Distintivo mariano

 

A Congregação Mariana 2

A Congregação Mariana de Piquete subsiste em nossos dias, agremiando ambos os sexos em nome de Maria e representados pela singela fita de tafetá azul celeste, da qual pende a honrosa medalha simbólica. Entrevistei o atual presidente, Sr. Vicente Cândido, que demonstrou satisfação em ser Congregado Mariano há 56 anos. Reportou-se aos velhos tempos em que a irmandade contava com Luiz Vieira Soares, Carlos Vieira Soares, e mais os dois irmãos Venino e João, e também Ismael Marques de Almeida, e outros nomes, pessoas que, além de congregados, eram também vicentinos, isto é, participantes da confraria de São Vicente. Disse-me o Sr. Vicente Cândido que a organização que dirige transformou-se ao longo do tempo, e hoje reúne-se em Cenáculos, especialmente nas datas comemorativas de festividades em homenagem a Nossa Senhora. Estive presente a um desses Cenáculos por ocasião do dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo (16 de julho). No Cenáculo são rezados o terço, a Ladainha Mariana e são feitas leituras especiais acompanhadas de comentários. São cantados hinos de louvor e anunciados os próximos encontros. A data relevante consagrada a Nossa Senhora do Carmo remete-se a uma invocação iniciada a partir de um mosteiro e sua capela instalada no monte Carmelo, na Palestina. Daí surgiu a denominação de carmelitas aos que se filiaram à ordem que os nomeia. Representados por uma vestimenta que os identifica - o escapulário, espécie de avental que recobre a frente e as costas do corpo, partes amarradas por cordões junto aos ombros - são propagadores da fé em Nossa Senhora do Carmo. Por sua vez, para os fiéis em geral, o escapulário foi diminuído por um pequeno retalho de pano, impresso, cujas partes da frente e das costas são mais facilmente usadas. O Sr. Vicente Cândido referiu-se à orientação dada por um visitante, o padre Gobbi, no sentido de realizar os Cenáculos para manter viva a Congregação Mariana, de tão honrosas tradições e símbolo de culto.

Entrevista a 16-07-2004.
Dóli de Castro Ferreira
Textos publicados no Jornal "O Estafeta" de outubro de 2004


Congregação Mariana da Vila São José, criada em 1939.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

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