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PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
O Espiritismo em Piquete |

Posse de Geraldo Silvia Mota na
Presidência do C. E. "Deus e Caridade" e sua Diretoria, no final
da década de 50. Da esquerda para a direita: Antonio Motta Silvia, Geraldo
Ferreira Pinto,
Euclides Camargo, Abdon Torres, Geraldo Mota, Mariinha Mota, José Armando e NI.
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"Fora
da Caridade não há Salvação" |
O movimento espírita kardecista em Piquete sempre foi muito intenso e organizado. Havia três centros espíritas: "Jesus, Maria e José", "Allan Kardec" e "Deus e Caridade". Esse último, o maior deles e mais freqüentado, provavelmente devido a sua localização mais central, comandava as atividades espíritas da cidade. Contava com uma plêiade de espíritas históricos, como Fifina e Décio Guimarães, Hermógenes Junqueira (um capítulo à parte na história do Espiritismo em Piquete), Geraldo Ferreira Pinto, Anélio Fagundes, Laura (Ita) e Agnelo de Souza, Maria Barbosa, Odete e José Armando, Maria Cipolly do Nascimento, Mariinha e Geraldo Silvia Mota, Terezinha e Antonio Motta Silvia, João Batista Motta Silvia, Abdon Torres, Euclides (Quido) Camargo, Terezinha Generoso e muitos outros.
No início da década de 60, chegou a Piquete um jovem espírita, escrivão de polícia. Manoel da Cunha fundou a Mocidade Espírita de Piquete, tornando-se seu primeiro presidente. A ele se juntaram Francionil Amaral e suas irmãs Darti Cléa, Dulciléa, Dircéa e Dircenéa; Léa e Marila Motta Silvia, Maria Auxiliadora Mota, as irmãs Aliete e Niwdete Resende, Mariazinha Dória, Flávio e Victor Silva e muitos outros. Sob a sua presidência, aconteceu o Encontro de Mocidades Espíritas do Vale do Paraíba, sediado em Piquete, em 1960. Como conferencista convidado, um jovem baiano que despontava no mundo espírita do Brasil: Divaldo Pereira Franco. Divaldo iniciou nesse Encontro uma série de palestras no Vale do Paraíba, em São Paulo. Sua palavra fantástica e arrebatadora, divulgada pela Rádio Liberdade de Guaratinguetá foi ouvida por toda a região vale-paraibana. Ali se iniciava, no pais, a carreira magnífica do jovem médium e orador baiano, hoje destaque no Brasil Espírita.
O Centro Espírita "Deus e Caridade" mantinha aos domingos um programa através de alto falante, divulgando as belas mensagens espíritas. Logo após o seu encerramento, iniciava-se a Escola Dominical Espírita, sob o comando de Mariinha Mota e a colaboração de Terezinha Motta Silvia. Os jovens da Mocidade Espírita também ajudavam na formação religiosa das crianças. Nas tardes de domingo, o então major do Exército Mário Johnson Rocha dividia com Geraldo Sílvia Mota a direção das reuniões de estudo do "Livro dos Espíritos" e do "Evangelho segundo o Espiritismo". Era encantador ver, nas tardes de domingo, Major Johnson descer da "Vila Militar da Estrela", a pé, de braços dados com sua sogra Zita Moreira, dirigindo-se ao C. E. "Deus e Caridade". Dona Zita fascinava a todos por sua bondade, educação e religiosidade, coroados por sua bela cabeleira branca. Mário Johnson Rocha nascido em 01/12/1918, veio a falecer em 28/09/1992, no Rio de Janeiro. Militar do Exército, atingiu o posto de General. Participou de várias instituições, tais como o Lar Fabiano de Cristo e a Cruzada dos Militares Espíritas, onde permaneceu por muitos anos. No período de 1960 a 1970 foi um dos expositores da Escola de Médiuns da Federação Espírita do Estado da Guanabara, destacando-se pela promoção do estudo do Espiritismo, e outras atividades assistenciais. Atuou também como Conselheiro da Fundação Cristã Espírita Cultural Paulo de Tarso, mantenedora da Rádio Rio de Janeiro.
Não só de atividades mediúnicas e de estudos da doutrina era formado o movimento espírita de Piquete. Campanhas do Agasalho, Natal dos Pobres e outras desse tipo faziam valer o preceito "Fora da Caridade não há Salvação".
Ainda hoje esses eventos acontecem, havendo, inclusive, no C. E. "Deus e Caridade", o funcionamento de um Bazar Beneficente, com um pouco de cada coisa: roupas, utensílios domésticos, tapetes, material escolar, brinquedos, recebidas como doação e destinadas aos mais necessitados. Entre suas atividades, o C. E. "Deus e Caridade" mantém uma oficina de costura, onde são confeccionados enxovais para os bebês carentes. Durante as noites, além das atividades mediúnicas, das sessões de passes e fluidificação de água, ainda acontece o estudo do Evangelho, Gênese, Livro dos Médiuns e dos Espíritos e das diversas obras psicografadas por Chico Xavier, autoria de André Luiz. |

Mariinha Mota e seu irmão
Luiz Carlos Beraldo Leite em Congonhas do Campo, junho de 1968.
Cada vez que olho para a foto acima, sinto-me embargada pelo peso da dor refletida na face de minha mãe e também pela altivez de sua fé. Em junho de 1968, Salvador Augusto, meu irmão caçula, então com dez anos de idade, recebeu o diagnóstico de osteossarcoma do fêmur, já com metástases para pulmão e bexiga - um quadro terminal e sem esperanças. Papai, após o primeiro momento de dor e desespero, aceitou a realidade e a perda iminente de seu filho caçula. Mamãe não! Retirou de sua dor e de sua fé as forças para lutar pela vida do filho querido, até a última batalha. Contando com a ajuda e apoio de seu irmão Carlinhos, que tão bem soube ampará-la e acompanhá-la nesse momento difícil, partiu atrás da cura que a medicina negava ao seu filhinho e na qual seu marido já não acreditava. À princípio, procurou José Arigó, o polêmico médium de Congonhas do Campo, através de quem se manifestava o espírito do Dr. Fritz. Arigó, incorporado pelo médico alemão, prescreveu vários remédios, garantindo a cura de meu irmãozinho. Mamãe foi informada que essas medicações somente poderiam ser encontradas em farmácia local. Soube também, por pessoas da cidade, que essa farmácia pertencia a um parente próximo de José Arigó e o próprio médium era também sócio do estabelecimento comercial. Embora as tenha adquirido, com fé e esperança na recuperação de seu filhinho, a venda das medicações por preços abusivos, comercializando ostensivamente a dor e o desespero de pessoas como ela, fizeram que mamãe duvidasse da seriedade da orientação recebida. Aluna do primeiro ano da faculdade de Medicina, confirmei depois, juntamente com Dr. Djalma Barros Passos, médico militar atuante em Piquete, que as medicações prescritas eram desnecessárias e inócuas vitaminas importadas... Mamãe, ainda na luta pela vida de seu filho, dirigiu-se a Uberaba, buscando a orientação do médium Chico Xavier. Lá chegando, soube que Chico estava doente (ele sempre teve uma saúde frágil, o que não o impediu de alcançar uma idade avançada) e que não receberia ninguém. Desalentada, sufocada pelo sofrimento da possível perda de seu filhinho, mamãe sentou-se com tio Carlinhos na calçada da casa de Chico Xavier. Ela quedou-se de cabeça baixa, transida pela dor, desesperada, sem saber o que mais poderia fazer nem a quem recorrer. Tio Carlinhos, mais atento aos acontecimentos em sua volta, ouviu quando chamaram: "Onde está a professora de Piquete?" Não haviam se identificado, ninguém os conhecia... Surpreso, levantou-se e disse que ela estava ali, sentada na calçada, muito triste por não poder falar com o médium. "Chico recebeu aviso dos espíritos que uma professora de Piquete se encontra aqui, sofrendo muito, que ele deve atendê-la. Como Chico está doente, dêem volta à casa e entrem comigo pelos fundos, para que ninguém saiba que ela irá encontrá-lo. É ordem da Espiritualidade que ele a receba". Mamãe foi atendida pelo médium fantástico. Chico, segundo ela, permaneceu o tempo todo carinhosamente segurando em suas mãos, escutando seu desabafo e o relato dos fatos que a afligiam, como se já os conhecesse. Ouviu-a com paciência e ternura e ao final disse-lhe: "Volte para sua casa, minha irmã, para a companhia de seu filhinho. Aproveite os seus momentos com ele e o entregue nas mãos de Maria, a Mãe de Jesus. Ela também perdeu Seu Filho. Tenha fé, muita fé e vá, minha irmã. Volte para Piquete e aceite os desígnios de Deus." Mamãe, estranhamente confortada pelas doces palavras de Chico Xavier, certa da presença de Deus e do amparo da Espiritualidade, assim o fez. Sem uma lágrima de desalento mais, sem desespero e orando sempre, permaneceu ao lado de seu caçulinha, cercando-o de carinho e amor. Um mês depois, Dozinho faleceu. Não sofreu as atrozes dores que geralmente acompanham essa patologia. Partiu tranqüilo; segundo mamãe, conduzido por Espíritos de Luz. Mamãe encontrava-se sentada em uma cadeira, no quarto do hospital, de cabeça baixa e olhos fechados, orando. Eu e minha irmã Silvia, havíamos acabado de chegar. Ao lado da cama, acompanhamos em silêncio quando ele abriu os olhinhos, saindo de um coma que já durava três dias. Seu olhar dirigiu-se a cada uma de nós duas, longamente, como uma despedida. A respiração começou a falhar, apesar do oxigênio que lhe estava sendo aplicado. Mamãe, nesse momento, sentiu pombas brancas entrando no quarto em revoada e teve a certeza que chegara a hora da partida. Levantou-se. Aproximando-se da cama, recebeu o último olhar de seu filhinho nessa vida. Dozinho partiu, deixando em todos nós uma saudade imensa. Saudade de sua inteligência, de sua doçura, da conformação com seu destino e sobretudo pela sua fé. Ele sempre soube que ia falecer. Dias antes, mostrando o crescimento do tumor em sua coxa, ele me disse: "Zi, eu não vou escapar dessa. Só tenho é muita pena da mamãe." Um dia antes de entrar em coma, Dozinho chamou as freiras e enfermeiras do hospital e despediu-se de todas, uma a uma, grato por terem cuidado dele tão bem. Agradecendo o carinho de Hugo, um dos dedicados enfermeiros do hospital da FPV, a ele deu seus brinquedos, livros e doces, dizendo que não iria mais precisar deles, que os levasse para suas filhas pequenas. Dirigindo-se a mamãe, poucas horas antes do coma, recomendou enfaticamente: "Não chore; você não vai chorar. Eu não quero que você chore, viu?" O velório aconteceu em nossa casa. Mamãe atendeu a todos que a procuraram. Mães que sofriam, inconformadas com o desaparecimento de seus filhos, apoiaram-se nela e no seu exemplo de fé e fortaleza. Encontraram nela o consolo que não possuíam pelas suas próprias perdas. Na saída do féretro, mamãe reuniu forças, mais uma vez, para proferir em voz alta a oração de despedida. Entregou seu filhinho nas mãos de Maria, conforme lhe recomendara Chico Xavier. Ao me recordar desses momentos tão difíceis e dolorosos, penso que não há como modificar os caminhos que nos são traçados... Devemos lutar sempre, mas derrotados em nossos propósitos, busquemos o amparo na fé, para vencermos os momentos difíceis que a vida nos reserva.
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Centro Espírita "Deus
e Caridade" na atualidade.
Foto de Lety
As demais fotos pertencem ao arquivo de Mariinha Mota
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