PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Velhos Carnavais




Bloco "O Guarany", na esquina das ruas Mantiqueira com Oliveira Braga, no Carnaval de 1931.
Em primeiro plano, à esquerda, o mestre-sala Eleotério e a porta-bandeira Cota Peixoto.
À direita, com o estandarte do "Flor do Indaiá", Djanira Catrica.
Foto escaneada do jornal "O Estafeta".

Dos Velhos, Velhissimos Carnavais

Entrar em minudências da evolução do carnaval em nossa cidade seria cansativo e certamente repetitivo se assim fizermos ano a ano. E nem dados satisfatórios teríamos para tanto. Vamos destacar fases que cremos as mais interessantes. Pelo final do anterior e inicio do atual século, os dias reservados aos festejos carnavalescos consistiam mais na diversão de pregações de peças e de gozações, o que eram, às vezes, de péssimo mau gosto principalmente para aqueles que eram o alvo delas. Uma festa para entrudar, ou seja, empulhar, troçar, caçoar dos amigos ou de quem quer que fosse. Vejam um exemplo: um grupo reunia-se em alguma ponte ou beira do rio e iniciava um empurra-empurra para jogar uns e outros na água. Pelo menos servia para melhorar o ânimo de quem estava chumbado. Embora já fosse proibido desde 1893 "o brinquedo de entrudo com água, oca, tinta e outras substâncias e bem assim as vendas de limas e laranjinhas de cera ou borracha", a turma não levava muito a sério. Essas tais limas, laranjinhas ou limões de cheiro eram vendidas com um tipo de perfume dentro. Entretanto, acabado o líquido original os "foliões" enchiam os invólucros com outros de composição variada, como tintas, urina e até outras misturas as quais espirravam nos outros. Sem dúvida, estes "brinquedos" foram os precursores dos lança-perfumes surgidos mais tarde. Não ficava nisso a molecagem, não. Jogavam água nos outros e por cima pó de café, trigo, gorduras etc. Brincadeirinha besta, convenhamos. Quem mais pagava o pato nessa época era o pessoal dos quarteirões, ou seja, "o pessoal da roça". Nesses dias de entrudo, a turma de lá pagava para não ter que vir à Vila. Esse negócio de homem vestido de mulher é antigo, viu gente! Apenas as roupas eram mais espalhafatosas, de cores vivas; a marmanjada toda vestida de mulher, apenas com um pouquinho de pudor, já que usava máscaras dos mais diferentes formatos. Fazia-se acompanhar por bumbos. Muitos foliões promoviam festas em suas casas e estas consistiam no que chamavam do "enterro da leitoa". Vamos contar isso em pedacinhos para ver do que se tratava. O festeiro ou carnavalesco e seus convidados, matavam uma leitoa, assavam-na, transpassavam-na com varas e saiam pelas ruas com o bicho temperado e cheiroso às costas; o séqüito que se formava ia todo desvanecendo-se em prantos. Na passagem do cortejo, os animais que fossem encontrados "dando sopa", como galinhas, patos, cabritos, eram apanhados pela turba e no retorno à casa do folião acabavam mesmo virando sopa. Aos cantos e alegria geral, todo mundo enchia a pança até altas horas da noite. Mais ou menos, era por ai o entrudo. Com o correr dos anos, foram mudando os hábitos. Com a Fábrica funcionando sempre em ritmo crescente e admitindo novos operários, pessoas dos mais diferentes recantos do pais para esta cidade acorriam. E cada um trazia um pouco do carnaval de suas terras. Não houve um embananamento de carnavais, imperou mesmo o estilo carioca. Nosso primeiro bloco, ou "rancho", como os próprios organizadores chamavam, foi o "Flor do Indayá". Seus maiores entusiastas foram o Sargento Quilula, Duílio Damico, Sebastião de Lima e "seu" Eleotério. Fundado em 1925, sua primeira apresentação ao público foi no carnaval de 1926. A fantasia oficial do "rancho" consistia em saias e calças brancas, para mulheres e homens, respectivamente, e blusas azuis para todos. Vejam um trecho da "marcha-enredo", música composta pelos foliões, que foi cantada na primeira apresentação que fizeram:
 
FLOR DE INDAYÁ

A florzinha do lndayá
Eu quero ver
Essas nossas moreninhas
O que vão fazer.
A florzinha do lndayá
Com seu primor
Adeus morena
do jardim em flor.

Para o ano de 1928 o Quilula fez uma convocação aos jovens para participarem do "rancho", do qual transcreveremos um fragmento, para mostrar "que parada" era a vida da cidade, nas palavras de quem vivia aquela época:
 
"O carnaval aproxima-se, portanto necessário se toma despertar essa mocidade para, reunida, possa condignamente render homenagens ao Deus Momo. 0 rancho 'Flor de Indayá' há dois anos quebrando a monotonia desta cidade, sahio entoando as suas canções, num tom festivo, transformando a Alma da Cidade, que em outras épocas, nesses dias consagrados à folia, dava-nos uma idéia de eremitério. 0 meu desejo é fazer o mesmo para o Carnaval de 1928, reunindo a mocidade folgazã, para num fremito de alegria dissipar o amargor da inclausurada vida que levamos aqui"...

Como vêem, era carga pesada a solidão imperante! A letra da marcha para o ano citado, cujo autor nos é desconhecida, tinha por titulo "Olha Sinhá" e assim dizia nos seus versos:

OLHA SINHÁ

Sinhá vem cá
Olha a escuridão
Por que insiste
Na ingratidão
É quem te ama
Quem te venera
Aqui te espera
Dar-te o coração
 
(Refrão)
Não gosto de ouvir
Do amor declaração
 Tudo é falsidade
Só só ingratidão.

Tu és ingrata
Disto bem sei
Vem cá mulata
Que por ti chorei
Assim com raiva
Oh! não quero não
É meu ideal
Dar-te o coração.

( Refrão)

Sinhá não deixa
Teu amor sofrer
Estou no sereno
A padecer
As minhas lágrimas
São tão doloridas
A vida é triste
Não posso viver.

Se não é uma obra prima de letra, pelo menos vale o que de alegria provocou naqueles tempos aos foliões. Após o desfile do "rancho" pelas ruas da cidade, todos iam para casa do Sgt. Quilula, um mini-sobrado existente na rua Cap. José de Brito, onde a coisa transformava-se em baile. Um outro surgiu, também pelos lados de Vila São José, um cordão, denominado "Dá que fazê". O "Piquete Jornal", número 6, de 10 de março de 1929, publica dois artigos com referencias ao tríduo momesco daquele ano. Um, em forma de reportagem da direção, com o título "Carnaval", do qual extraímos este trecho:
 
"Não foram só os grandes centros que prestaram culto ao rei Momo. Piquete, apesar da chuva soube também desempenhar o seu modesto programa. Cine Glória, importante casa de diversões, durante as noites dos dias de carnaval se apresentou com aspecto dos grandes cinemas das capitais. Teve nelle logar, animadas batalhas de confettis, serpentinas, etc. As secções foram finalisadas com concorridos bailes que se prolongaram até as manhãs seguintes... " 

Um outro artigo, assinado por "X", fala do carnaval na "Sociedade Recreativa Piquetense" (predecessora do atual Grêmio General Carneiro). Vejam a reportagem:

"Não foi pequena a alegria que reinou neste centro de diversões, pois nos dias consagrados aos festejos ao Deus Morno, a sua Diretoria organizou três animados bailes a fantazia os quaes se prolongaram até alta madrugada. Nos renhidos combates de lança perfume e confeti os foliões expressaram o seu contentamento; momentos houve de alegria que por vezes ficou ao delyrio. Aos primeiros écos do clarim annunciando Carnaval, senti no despertar d'aquella gente numa eclosão de alegria, reinando sempre em todo o ambiente uma harmonia digna de nota. O 'Choro' composto de alegres rapazes não parou um só instante, concorrendo grandemente para maior brilho; assim terminaram os animados bailes, que deixaram uma saudade e ao mesmo tempo uma esperança de venturosos dias.";

Não temos referências sobre o local onde funcionava a Sociedade Recreativa Piquetense, pelos idos de 29. De uma certa forma, temos uma ligeira visão do reinado de Momo nas ruas e clubes, pela década de 20. A posterior seguiu o mesmo ritmo inicialmente, animando-se evolutivamente até seu final. Crescia a cidade, em razão da afluência de novas famílias que se deslocavam para cá em busca de serviço na Fábrica, que se expandia. Outrossim, uma nova e penetrante força viria nacionalizar e harmonizar o carnaval brasileiro: o rádio, que estava entrando com tudo. E a partir dos meados de 30, apenas para darmos um parâmetro, até o final dos anos 50, o rádio foi a causa dos grandes carnavais. Explica-se isso. Pelo mês de outubro, às vezes até antes, as emissoras começavam a divulgar as músicas que seriam cantadas durante o reinado da alegria, no ano seguinte. Os programas radiofônicos iam intensificando cada vez mais suas programações carnavalescas ao ponto de, quando chegava fevereiro, respirava-se carnaval. O espírito de Morno realmente tomava conta de todos. Gente de todas as idades, o que é mais importante. O jornal "O Labor", editado pela Fábrica, em 15 de fevereiro de 1947, reporta o seguinte:

"CARNAVAL EM PIQUETE
Mobilizam-se galhardamente os foliões piquetenses para enfrentarem sob as mais ruidosas manifestações de alegria, S.M. Rei Momo I e Único, que restaurará o seu Império, pelo menos durante os três dias clássicos da próxima semana. Na lufa-lufa dos preparativos, os clubes locais se multiplicam em planos e programas, decorando os seus salões, projetando mirabolantes festejos, com bailes à fantasia, cordões e blocos de 'abafar'... No super democrático Círculo de Operários e Praças, esperamos no sábado gordo, um grande baile a fantasia, com a proclamação e coroação de S.S.M.M. Rei Momo e Rainha Moma. No domingo, das 14 as 17 hs uma animada matine dançante infantil, com distribuição de balas, bombons e prêmios à petizada, com desfile, à noite, do Cordão Oficial. Durante o tríduo carnavalesco, das 20 hs em diante, terão lugar, na sede própria, os bailes à fantasia. Também o Círculo de Sargentos e Funcionários (Grêmio General Carneiro), fará realizar, a seu turno, um carnaval festivo com bailes infantis nos dias 16 e 18 e farta distribuição de doces às crianças e prêmios às fantasias mais originais. No baile de domingo, dois maravilhosos prêmios serão oferecidos às moças que se apresentarem com as mais curiosas fantasias. Assim, de 15 a 18 do corrente, Piquete vibrará sob o clangor das fanfarras, ao ronco das cuícas, ao ritmo dos tamborins e aos cânticos da mocidade boemia e folgazã, amante da folia". 

Durante os dias de carnaval toda a cidade vivia sob esse clima de euforia histriônica. Carros passavam cheios de foliões cantando e jogando serpentinas e confetes (muitos ainda lembrar-se-ão do velho "Packard" do Lili D'Alessio lotado de alegres garotas pelas ruas). Conforme certas músicas, cidadãos mascaravam-se de acordo com o personagem da letra e brincavam pela cidade. Blocos organizavam-se, em certos bairros; o velho "bumba meu boi" sempre presente; o clarim do Machado tocando pelos ares sons característicos... Nos salões, além dos adereços de papel, confetes e serpentinas, o lança-perfume era livre. Havia um vidro, mais forte e menos perfumado, chamado "Colombina" e um outro de metal, mais caro, lembrando um símbolo fálico, chamado "Rodouro". Espirrava-se nas costas das gatinhas que se arrepiavam ao contato do liquido gelado. Era uma arma de paquera. Quando caia nos olhos, era um Deus nos acuda! Como queimava! Infelizmente não ficava apenas nessa de atirar jatinhos perfumados pra lá e pra cá. Passou a ser mais utilizado para deixar "nego numa boa", aspirando o éter, que empapava nos lenços. Terminou por ser proibido em todo o pais. Surgiram a Associação Comercial de Piquete e a dos Ex-Alunos; época em que os piquetenses tinham quatro opções a escolher em matéria de clubes, o que, realmente era um exagero. Havia ainda o Cassino dos Oficiais, que patrocinava bailes juntamente com um clube de Guaratinguetá, com dois bailes cá e dois lá. O melhor desses carnavais de Piquete era a presença de foliões de todas as idades e camadas sociais. Ninguém conseguia resistir ao fascínio da aura alegre que imperava e os mais recatados ou envergonhados, matronas ou matrões, saiam em grupos de "sujos", de cara encoberta. Os salões estouravam de gente! E a turma chiava se a orquestra tocava alguma música de carnavais passados. Não era considerada como boa. O carnaval de rua sempre existiu com blocos e cordões isolados, sem nenhum planejamento ou estruturação. 


Bloco de Carnaval em Piquete - 1961. Da esquerda para a direita: Neuza Borges,
Tereza e Maria Correia. As demais não foram identificadas.
Foto enviada por Lety

no início da década de 60, o General Adhemar Pinto, então Diretor da Fábrica, promoveu dois carnavais de rua que ficaram na história. Com passarela no primeiro e arquibancadas no segundo, armadas na Praça Duque de Caxias adredemente engalanada para o acontecimento, havia o desfile de escolas de samba de várias cidades do Vale do Paraíba paulista e fluminense. Procedia-se com antecedência a eleição da rainha e princesa do carnaval; havia prêmios às melhores escolas, passistas, baterias, e tudo o mais. Um carnaval de rua digno de registro pela majestosidade, apuro e riqueza, que bem poucas cidades do interior poderiam se dar ao luxo de promover. Na gestão do Prefeito José Armando de Castro Ferreira, este estava levantando a fama dos grandes carnavais piquetenses, com brilhantismo e, diga-se, sacrifício. Dos antigos carnavais, sem qualquer tipo de saudosismo, podemos dizer que eles se constituíam em dois turnos distintos: seis meses sendo preparados psicologicamente os foliões para os quatro dias e os outros seis para curtirem a maior das saudades do dito passado. Cremos que a televisão haja sido uma das maiores causas da falência do carnaval de hoje. Poucas, pouquíssimas mesmo, são as músicas compostas especialmente em homenagem ao rei da alegria. Já não se prepara o espírito do povo para isso. Virou brincadeira obrigatória! Apenas os jovens, hoje em dia, vão aos clubes. Pulam e dançam "marchinhas em inglês" e continuam atualizados, interpretando "A Jardineira", "Cidade Maravilhosa", "As pastorinhas", "Mamãe eu Quero", músicas de tantas décadas atrás. E os coroas vão para a frente da TV ver desfiles do Rio, São Paulo, Bahia, ou então enlatados USA. Aqui nesta crônica carnavalesca, o confete não é o "pedacinho colorido de saudade"; a saudade é da presença dos jovens dos dois sexos, da casa dos trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta anos nos salões. Isso é de real importância , principalmente para eles. É fácil a explicação. Se participarem com a juventude de sua exultação e dinamismo, são contagiados, já que mocidade e alegria são doenças facilmente transmissíveis se com elas convivermos.


Carnaval em Piquete na década de 60.
Francisca Maria de braços abertos para a folia.
Foto enviada por Lety

Decreto de S. M. Rei Momo Primeiro e Único:
Coroas, gatos e gatas sex(agenários), ao salão! 

José Palmyro Masiero
"Piquete de Meus Amores" 


Rei Momo, sua Rainha e Princesas, no Carnaval de 1987
Foto enviada por Lety


Carnaval em Piquete.
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"

 

Do entrudo aos primórdios do Carnaval em Piquete...

O Carnaval é considerado uma das festas populares mais animadas e representativas do mundo. Ao contrário do que se imagina, a origem do Carnaval brasileiro é totalmente européia. Sua chegada ao Brasil data do início da colonização, sendo uma herança do entrudo português e das mascaradas italianas. Foi, portanto, graças a Portugal que o entrudo chegou ao Brasil. Somente muitos anos mais tarde, no século XX, é que ao Carnaval foram acrescidos elementos africanos, que contribuíram de forma definitiva para o seu desenvolvimento e originalidade. O termo entrudo é derivado do latim “introitus”, que significava “entrada”, “começo”, nome com o qual a Igreja denominava o começo das solenidades da Quaresma. No Brasil colonial o Carnaval era uma brincadeira de rua, muitas vezes violenta, quando se encontrava todo tipo de abusos e licenciosidade. Era comum os escravos se molharem uns aos outros usando ovos, farinha de trigo, polvilho, cal, goma, laranja podre, restos de comida, enquanto as famílias brancas se divertiam em suas casas derramando baldes de água suja em passantes desavisados, “num clima de quebra consentida da extrema rigidez da família patriarcal”. Com o passar do tempo e devido a insistentes protestos, o entrudo civilizou-se, adquiriu maior graça e leveza, substituindo as substâncias nitidamente grosseiras por outras menos comprometedoras como os limões de cheiro (pequenas esferas de cera cheia de água perfumada) ou os frascos de borracha ou bisnagas cheias de vinho, vinagre ou groselha. Estas últimas foram as precursoras do lança-perfume, introduzido em 1885. Devido ao seu espírito perturbador da ordem, ao longo dos anos o entrudo sempre foi alvo de proibições. No entanto, as medidas proibitivas em muitos lugares eram inoperantes, pois o entrudo continuava soberano como divertimento popular. Visando a modernizar o país e acabar com os excessos do entrudo, uma campanha no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, buscava mudar a maneira de brincar o Carnaval. A campanha visava a banir definitivamente o entrudo. Introduziu-se na Corte um protótipo do Carnaval aos moldes de Veneza e Paris, criaram-se os bailes de máscara em salão. Esse Carnaval, no entanto, era restrito às elites. O povo continuava a brincar o entrudo de maneira espontânea. Adotaram-se, então, pelas câmaras municipais, leis para regulamentar essas brincadeiras. Na Vila Vieira do Piquete não foi diferente de outros lugares. Revendo a Lei nº 3, que estabelece o Código Municipal da Vila, promulgada em 16 de janeiro de 1893, pelo Intendente Municipal, Carlos Augusto Taques Bittencourt, ficamos sabendo que o Carnaval já era brincado nestes ermos perdidos no sopé da Mantiqueira. Em seu Capítulo X, que trata de divertimentos públicos, no artigo 67 aponta que “sem licença da Câmara não poderá ter lugar qualquer espetáculo ou divertimento público, de qualquer natureza desde que deles se aufiram lucros, sob pena de 30$ de multa. Excetua-se o Carnaval, nos três dias para ele destinados”. No artigo 68 dessa mesma Lei consta, ainda: “a não ser nestes três dias, ninguém poderá andar mascarado pelas ruas e praças da Villa, salvo nas noites de bailes de máscaras, para as quais se tiver obtido licença”. Apesar do controle das posturas municipais, os jovens piquetenses brincavam o entrudo pelas ruas poeirentas da Vila, atirando uns nos outros água, café, trigo etc. Era uma espécie de trote, quando um grupo se divertia pregando peças nos outros. Era uma grande algazarra. Libertinagem total em que, nos três dias dedicados a Momo, era quebrada a monotonia do lugar. No início do século XX, com as obras militares no município e com grande afluxo de trabalhadores de diversas regiões do país para trabalhar na Fábrica de Pólvora sem Fumaça, o Carnaval sofreu outras influências. O número de foliões crescia ano a ano. Isso levou o prefeito José Dias da Silva a promulgar em 5 de novembro de 1914 um novo Código Municipal, que no seu artigo 54 registra: "É proibido o jogo de entrudo com água choca, tintas e outras substâncias, e bem assim a venda de limões de cheiro sob multa de 20$000 e destruição imediata dos objetos a isso destinados”. Mais uma vez as proibições municipais não surtiram efeito – o Carnaval estava entranhado na vida dos piquetenses. A influência do Carnaval carioca predominou. Em 1925 um grupo de foliões organizou o Rancho “Flor do Indaiá”, que contou com a adesão de muitos moradores. Esse Rancho percorreu pela primeira vez as ruas da cidade, para surpresa e admiração da população, no Carnaval de 1926. A partir de então outros grupos surgiram. Com o aparecimento do rádio e o surgimento das marchinhas, o Carnaval ganha os salões, para alegria dos foliões. São três dias de folia e brincadeira...

Jornal "O Estafeta", fevereiro de 2011


Em 1925 um grupo de foliões organizou o Rancho “Flor do Indaiá”, que contou com a adesão de muitos moradores.
Esse Rancho percorreu pela primeira vez as ruas da cidade, para surpresa e admiração da população, no Carnaval de 1926.
Foto na Estação Ferroviária Rodrigues Alves, escaneada do Jornal "O Estafeta"

 

O Carnaval daqueles tempos...


Carnaval em Piquete.
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"

Quem assiste, ao carnaval de Piquete nos dias de hoje, não consegue imaginar como ele era tempos atrás, nos primeiros anos do século XX, antes da inauguração da Fábrica de Pólvoras sem Fumaça. Naqueles tempos, o Carnaval era conhecido como entrudo, e consistia mais em brincadeira e trotes, muitas vezes de mau gosto, que as pessoas aplicavam umas nas outras. Nas ruas, os poucos moradores que se propunham a sair se organizavam em grupos para pregar peças. Atiravam sobre os transeuntes baldes de água, esguichos de bisnagas e limão de cheiro - feitos de cera -, vinagre, groselha, vinho e até outros líquidos que estragavam, sujavam ou tornavam mal cheirosas as roupas dos foliões. Jogavam, também,uns nos outros, trigo, alvaiade e pó de café. Durante o reinado de Momo, muitas pessoas evitavam sair. Amedrontadas, assistiam das janelas os irreverentes foliões que, de maneira caricata, se transvestiam de mulher ou de alguma personalidade da época, seguidos por um grupo barulhento de moleques. Não havia clube em Piquete, de maneira que bailes só aconteciam esporadicamente em alguma casa de família ou no Hotel das Palmeiras, centro social da cidade, propriedade do Coronel José Mariano. No período de Carnaval ele contratava músicos para animar bailes para seus hóspedes, a maioria do Rio de Janeiro e São Paulo, e para convidados de Lorena, do Embaú e de Guaratinguetá; a maioria aparentada dele. 


Carnaval em Piquete.
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"

Com as obras de construção da Fábrica e a chegada de operários e militares, o Carnaval de Piquete passou a sofrer influências de outros lugares, principalmente da capital federal. O "boi de carnaval", ainda hoje presente na cidade, chegou provavelmente por essa época, trazido por algum operário. Também o primeiro grupo carnavalesco a desfilar pelas ruas da cidade, o "Rancho Flor do lndayá", foi criado na vila São José por operários. Idealizado em 1925 pelo Sargento Quilula, esse rancho era composto, em sua grande maioria, por funcionários da Fábrica de Pólvoras e familiares. Desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1926. Quilula morava em um sobrado na vila São José, na rua Capitão José de Brito, hoje Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, e foi de lá que os carnavalescos do Rancho saíram desfilando pelas poeirentas ruas de Piquete, acompanhados por um grupo de músicos, para surpresa dos moradores. A cidade, tradicionalmente religiosa, vivia oprimida, de maneira que os foliões fantasiados, cantando e dançando pelas ruas eram vistos com curiosidade e espanto. A monotonia de Piquete foi quebrada quando o Rancho desfilou na tarde daquele domingo de Carnaval de 1926. Desfilando, os foliões se exibiram em frente à casa da viúva do Coronel Luiz Relvas, no Hotel das Palmeiras e no Cine Glória, de onde partiram para a Estação Rodrigues Alves; embarcando para a Vila da Estrela. Exibiram- se para o Diretor da Fábrica, Eduardo Pfeil, no antigo Cassino dos Oficiais, e no início da noite retormaram à casa do Sargento Quilula, onde um animado baile se estendeu até a madrugada. O Rancho Flor do lndayá deu o pontapé inicial para que outros eventos carnavalescos o sucedessem. Não foi fácil. As pessoas, naqueles tempos, se guardavam. Havia certa timidez que foi sendo rompida com o passar dos anos. O "Piquete Jornal" de 1928 trazia uma convocação do Sargento Quilula para que os jovens se somassem ao "Rancho". O citado jornal nos dá uma  mostra do que era Piquete nesses dias de folia. 

"O Carnaval aproxima-se, portanto, necessário se torna despertar essa mocidade para que, reunida, possa condignamente render homenagens ao deus-momo. 0 rancho 'Flor do Indayá' há dois anos vem quebrando a monotonia desta cidade, saiu entoando as suas canções, num tom festivo, transformando a alma da cidade que, em outras épocas, nesses dias consagrados à folia, dava-nos uma idéia de cemitério. 0 meu desejo é fazer o mesmo para o Carnaval de 1928, reunindo a mocidade folgazã para num frêmito de alegria dissipar o amargor da enclausurada vida que levamos aqui..."

Aos poucos, a população foi se soltando e participando do Carnaval. Com a chegada do rádio e a divulgação de músicas, e também com a criação de clubes sociais pela Fábrica, o Carnaval foi se modificando, passando a fazer parte, a exemplo de todo o país, do calendário festivo dos piquetenses.

Jornal "O Estafeta", fevereiro de 2009


No Clube dos Ex-Alunos, no carnaval de 1948, o Grupo Boa Vontade, em que podem ser vistos os músicos Carlos Vieira, NI, Durval Silva,
Benedito Prado, João Divino, Benedito Dentista, Vitor J. da Silva, NI, José Faustino e João Ferrão. O menino é Zezinho, filho de Carlos Vieira.
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"


Músicos no Itabaquara - 1948. Identifica-se da esquerda para a direita: Carlos Vieira Soares,
Antonio Motta Silvia, Durval Silva, os demais não foram identificados.
Foto escaneada da "Agenda 99" da FCR

 

No Carnaval, as boas e velhas marchinhas...

Todos os anos, os brasileiros se preparam para o Carnaval, a mais esperada festa popular do país, que acontece, normalmente, no mês de fevereiro. Considerado o maior espetáculo da Terra, o Carnaval sofreu modificações ao longo do tempo e chegou aos nossos dias como sinônimo de alegria, descontração, irreverência e grande licenciosidade. Piquete, antigos foliões se recordam dos bons e velhos bailes de Carnaval que aconteceram na cidade, entre as décadas de 40 e 60. Naquela época, o ritmo predominante era o das marchinhas, tocadas em salões decorados com criatividade e bom gosto. Havia bailes no Grêmio General Carneiro e no Elefante Branco, na Praça Duque de Caxias, na sede da Associação Comercial e no Clube dos Ex-Alunos, na Praça da Bandeira, e também no famoso Cassino dos Oficiais, na Vila da Estrela. Todos ficavam lotados... O Carnaval piquetense era famoso. Atraía foliões de lugares distantes, que aqui vinham se divertir. A animação dos bailes era garantida pela excelência dos músicos, provenientes, a maioria, das bandas da FPV ou da Euterpe Piquetense. Em janeiro, os clubes os contratavam. Os músicos dividiam-se em pequenos grupos e passavam a ensaiar antigas e novas composições. Chegado o Carnaval, cabia a esses músicos o sucesso ou não dos bailes. Tocavam em todas as noites do reinado de Momo e em duas "matinés". Nos salões predominavam as marchinhas -criação brasileira em que alegria, ritmo, humor e irreverência eram os principais ingredientes. As músicas eram curtas e objetivas. Com poucos versos e melodias simples e diretas, fáceis de aprender e feitas não para se ouvir, mas para cantar e dançar nas ruas e nos salões. Com a popularização do rádio, no final dos anos 30, e, principalmente, no pós-guerra, houve crescimento do número desses aparelhos nas residências. Isso impulsionou a divulgação das marchinhas pelos programas radiofônicos, que passou a acontecer meses antes do Carnaval. Os ouvintes logo aprendiam a letra, memorizavam a melodia e passavam a cantar e assoviar a nova música que, consagrada pelo povo, estourava no Carnaval. Ao longo de décadas, as marchinhas foram um vibrante veiculo democrático de expressão popular, criticando, debochando e castigando os moralistas e poderosos com o riso das multidões. Muitos compositores tornaram-se gênios populares como Lamartine Babo, Ari Barroso, Assis Valente, Noel Rosa, Braguinha e outros, que criaram obras-primas da irreverência, do duplo sentido e da malícia, driblando censores e professores e produzindo um repertório extraordinário, hoje clássico, que comentava com humor novidades do momento e criticava personagens e acontecimentos da nossa história. Mas o tempo e a moda atropelaram a marchinha - o samba enredo e os ritmos baianos dominam o Carnaval. No entanto, ainda hoje, em qulquer baile de Carnaval, basta tocar uma das antigas marchinhas e os foliões, em rimo frenético, cantam trechos de muitas delas. Quem não conhece "Linda Morena" (1932), de Lamartine Babo, ou "Linda Lorinha", (1933), de Braguinha; "Cidade Maravilhosa" (1934), de André Filho; "Mamãe, eu Quero" (1936), de Jararaca; "Balancê" (1936), de Braguinha; "A Jardineira" (1938), de Benedito Lacerda; "Cabeleira do Zezé" (1963) de João Roberto Kelly; "Bandeira Branca" (1969), de Max Nunes... Todas essas marchinhas ganhavam sabor especial quando executadas pelos músicos Luiz de Barros, Viana, Joaquim Augusto, Henrique Maziero, Zé Maria, Moreno, Bambu, Sílvia Mota, Valentim, Marcelo, Haroldo, Rapinha, Sebastião Sapateiro, Cinqüenta, Vovô entre outros...

Jornal "O Estafeta", fevereiro de 2006


Rei Momo no Carnaval de 1966
Foto escaneada da "Agenda 99" da FCR

 
Bloco dos Sujos

Uma manifestação – até há alguns anos comum no Carnaval de Piquete – era o Bloco dos Sujos. Neles predominavam o improviso e a desorganização. Um grupo de foliões com fantasias improvisadas com sacos de estopa, máscaras confeccionadas com fronhas nas cabeças e meias nas mãos ou mesmo com roupas comuns se reunia e saía pelas ruas da cidade e nos clubes, cantando e sambando marchinhas carnavalescas e sambas-enredo. Alguns blocos de sujo satirizavam personagens da política nacional e municipal, com faixas e cartazes. Sempre em tom de ironia e deboche, com a marca do humor brasileiro. Esta era uma maneira inocente de brincar o Carnaval. Bons tempos aqueles...

Jornal "O Estafeta", fevereiro de 2011


Aurélio Campos e grupo de Sujos em frente ao “Hotel Brasil”,
 na rua Comendador Custódio, na década de 50.
Foto escaneada do jornal "O Estafeta".

 

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