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História



A Festa do Quilombo


A Igreja de N. S. da Guia, no Quilombo
Foto de Laurentino Jr.

A FESTA DO QUILOMBO
As honras devidas a N. S. da Guia

Nos bairros rurais, as festas religiosas, particularmente as dos padroeiros e padroeiras, são mantidas tradicionalmente. E assim se repetem ano a ano e atraem a população residente, adjacente e os antigos moradores, cultivando as raízes. O bairro do Quilombo é muito antigo, segundo pesquisa de Paulo Pereira dos Reis. Este bairro, integrante da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade, contava, em 1767, com vinte fogos (locais de moradia familiar), com 92 moradores e rendia em haveres 1.300$000, sendo que o todo da freguesia contava com 327 fogos e entre os moradores, 687 "homens pequenos e grandes", e 722 "mulheres pequenas e grandes". A instalação desse bairro deveu-se à expansiva ocupação do povoamento da margem esquerda do Paraíba do Sul até o bairro do Embaú, com acesso à Mantiqueira e às Minas Gerais. Foi assim que surgiram os bairros do Meira (porto de controle administrativo do Caminho Velho no Paraíba), do Limoeiro e do Quilombo.

Diz-nos ainda o pesquisador citado que "do alto curso do Limoeiro, podia-se prosseguir em direção do rio Piquete, em cuja proximidade espontou o bairro do Quilombo com seus vinte fogos e noventa e dois moradores". Nas origens do tricentenário bairro do Quilombo encontramos a citação de que entre os possuidores de sesmarias (propriedades de terra) estavam Manuel Francisco dos Santos, Manuel de Oliveira Campos, João Ferreira da Encarnação, Antônio José da Silva Braga e o posseiro Manuel Dutra. Na história desse bairro, Antônio Lopes de Lavra, morador da freguesia da Piedade (Lorena), obteve, a 8 de abril de 1775, a patente do posto de Capitão de Ordenanças da povoação denominada Embaú-acima (Quilombo). Ao Capitão Lavra foi concedida uma sesmaria de "seiscentas braças de terra de testada" e com "uma légua de sertão", a que depois foi anexada a posse de uma légua de terras na paragem chamada Embaú-Mirim, da qual, por sua vez, foi suplicante (solicitador) o mesmo Capitão Lavra, pois estas estavam devolutas, isto é, sem possuidor declarado, podendo, portanto, ser atribuídas pela administração colonial. Dessa forma, preenchidos os trâmites legais, a posse dessas terras dos credores de Manuel Dutra foi entregue ao Capitão Lavra. Tudo como consta do Livro de Sesmarias n° 22, folha 102, em consulta de Paulo Pereira dos Reis, no Arquivo do Estado de São Paulo. O Capitão qualificado foi investido no posto de Sargento-Mor da Vila de Lorena em 6 de dezembro de 1788, já que esta vila foi emancipada a 14 de novembro do mesmo ano, e esse posto referia-se à administração da mesma. Pois bem. A disposição desse povoamento associado ao caminho do Embaú, de acesso à Mantiqueira, distava, segundo documento legal da criação da freguesia da Piedade, cerca de três léguas da principal, referência local a Capela de Invocação a Nossa Senhora da Piedade, no caso, a Matriz. As capelas eram os principais referenciais para dar autonomia a um local de povoamento e, segundo as regras da Corte portuguesa, no período colonial, as que, tendo seu território definido e as posições de distância a partir da dita Matriz, além da presença do Cura, garantiriam a designação de freguesia e a formação do município, após o que, a emancipação como Vila. Ora, o bairro do Quilombo, parte da freguesia da Piedade na direção do Caminho do Embaú, bairro do qual distava uma légua e meia ou duas, possuía também sua Capela sob a invocação de Nossa Senhora da Guia, a que tem sua data comemorativa a 8 de setembro.

As festas para a Santa Protetora dos caminhos, dos percursos e seus perigos sempre foram arregimentadoras do povo da vizinhança. E, com distribuição de doces, e mais o almoço para as pessoas gradas - fazendeiros, sitiantes e proprietários -, pois, afinal, a hierarquização está sempre presente. Até hoje, segundo pude constatar na mais recente dessas festas a que compareci, a 8 de setembro de 2008. Lá estavam a banda de música, o povo da procissão, o andor engalanado, os "anjinhos" e as meninas vestidas como a Senhora da Guia, o coral vibrante - este ano, o de São Mateus, de Piquete -, e mais a missa solene, os fogos de artifício, as barracas da quermesse, o leilão de gado, o forró e o bingo (não mais o velho e proibido "buzo" de muito antigamente).

 Já tudo influenciado pela modernidade, mas presente a pressentida hierarquia. Na circunscrição territorial do Quilombo, parte pertence a Piquete e parte a Cachoeira Paulista. A marca da divisa encontra-se localizada próxima a uma nova Capela - a de Nossa Senhora das Graças. Mas o Quilombo está com feição nova - casas modernas; e uma delas, alta, no largo principal, com terraço e garagem, a emitir sinais de poderio. O centro do bairro está bem cuidado, calçado, iluminado e ajardinado. Nos mais velhos, as memórias subjacentes.

 O povo da festa só querendo alegria, movimentando-se ao longo da rua principal. Cogita-se da razão do nome do bairro.. Por que Quilombo? Várias suspeitas podem ser levantadas. E essas são a motivação dos historiadores.

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - Novembro de 2008

A Festa do Quilombo em minhas lembranças

A Festa do Quilombo era o coroamento do Sete de Setembro. Eu me lembro de lá ter comparecido das mais diversas formas. Muito menina ainda, íamos em caminhões, parecidos com aqueles usados pelos romeiros e retirantes, cheios de bancos, descobertos em sua carroceria. Morando no Ceará, anos mais tarde, soube que essas conduções eram chamadas "pau de arara". Em outras idas ao Quilombo, papai nos levava em uma velha "fubica", sempre acompanhados de meu tio José Sílvio, o "Martelo". A ele competia uma séria tarefa, que desempenhava com prazer e eficiência: a velha caminhoneta resolvia empacar nos morros do Quilombo e alguém precisava empurrá-la para que o motor "pegasse"... E acabava sendo tudo uma festa! Assim como a lembrança da velha "fubica", da alegria do papai, da nossa ingênua felicidade, permaneceram as recordações dos morros e dos sabores do Quilombo... As lingüiças deliciosas e cheirosas; as Maçãs do Amor, vermelhinhas e inexplicavelmente geladas; os lançamentos dos picolés da Kibon como o Eskibon em caixinha e tantos, tantos outros sabores e aromas. Como é bom lembrar do algodão doce branquinho! Porque hoje em dia o algodão doce é vendido cor de rosa, já pronto em saquinhos plástico? O bom era ve-lo surgir na máquina prateada, aos poucos, sendo desprendido com maestria pelo vendedor, na nossa frente. Muito mais gostoso... Havia algumas arruaças também. Lembro-me de certa feita, tendo ido com minha avó Lourdes à festa, no retorno soubemos que um rapaz da sociedade antiga da cidade, filho caçula de gente boa e respeitável, verdadeira "ovelha negra", estava aprontando por lá, após ter se embriagado. Minha avó me disse: "Se a comadre (...) e o compadre (...) fossem vivos, que desgosto teriam." Anos mais tarde, já fora de Piquete, soube que esse rapaz havia se candidatado a vereador e com o slogan "(...) na Prefeitura, Pinga com Fartura", fora o campeão de votos! Nunca mais voltei ao Quilombo! O artigo acima me suscitou agradáveis lembranças, vontade de retornar no tempo, desejo de ser menina de novo e subir aqueles morros. Saudades!

 


Os doces do Quilombo

As belas e recentes fotos na festa do Quilombo são de Laurentino Júnior

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