PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

 

 


A pracinha decorada para o Natal.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

Os Natais de Sonho de Piquete

Dezembro é um mês mágico. Todos aguardam ansiosos sua chegada e, conseqüentemente, o Natal. As semanas que antecedem essa data são cheias de preparativos, Há alegria no ar. Tanto as crianças quanto os adultos vivem uma expectativa contagiante para as comemorações da data máxima da cristandade. Natal é festa religiosa. É época de reunir a família, de estreitar laços de amizade, de confraternização e de bons propósitos. Apesar do consumismo cada vez maior de nossa sociedade, o espírito de Natal tem sobrevivido há dois mil anos - é dotado de grandes resistências, fazendo-se presente no coração dos homens. É impossível ficar alheio às festas natalinas e às mensagens do Menino da manjedoura. Quem pensa que o Natal é comemorado da mesma maneira, em todo o mundo, se engana. Influenciado pelos costumes, clima e tradições religiosas, cada país tem um jeito próprio de celebrar essa data. A origem de muitas tradições, como os presépios, sinos, árvores enfeitadas, estrela-guia, guirlandas, troca de presentes e luzes perde-se no tempo. O Natal é rico em sons, cores e aromas. Há uma culinária típica em cada região. A figura do Papai Noel, que se popularizou a partir da década de 40, é presença marcante nos natais de hoje, quando ruas, parques e avenidas ganham cores e luzes diferenciadas e tornam-se atrações. Com novas tecnologias, as decorações natalinas ficaram mais bonitas e sofisticadas, de maneira que muitas cidades tornam-se atrativo para turistas. Nas décadas de 60 e 70, Piquete inovou a decoração natalina de áreas públicas. Não havia na região cidade que se igualasse ao bom gosto dos enfeites que ornamentavam a Praça Duque de Caxias e suas adjacências. Até os anos 40, o Natal dos piquetenses era comemorado apenas nas casas e igrejas. Na Matriz de São Miguel, além do tradicional presépio, acontecia a Missa do Galo e a encenação de cenas da Natividade. No dia de Natal, havia distribuição de brinquedos às crianças do Catecismo e corte de tecidos e alimentos aos assistidos pelos vicentinos. Nas casas, a decoração era discreta - um pinheiro com poucos enfeites e presépios, que eram visitados por Folias-de-Reis. A Fábrica Presidente Vargas distribuía presentes para os filhos dos operários. Nos anos 60, a distribuição passou a ser feita no Jardim de Infância, que era todo ornamentado para a ocasião. Isso levava as crianças a passar o ano sonhando com esse dia. Em 1965, por iniciativa do General Adhemar Pinto, então diretor da FPV, foi organizada, na Praça Duque de Caxias, uma grande festa, que se tornou referência. Foram construídas barracas para a distribuição de sanduíches e refrigerantes e instalado grande parque de diversão, atrás do Cine Estrela, onde aconteciam sessões corridas de desenhos animados. Um trenzinho construído pela FPV circulava, repleto de crianças, pelas ruas da cidade badalando seu sino para chamar a atenção dos moradores. Além disso tudo, não podia faltar o Papai Noel, que participava de toda a festa distribuindo balas e posando para foto. Com o sucesso dessa experiência, os natais seguintes passaram a seguir o modelo de 1965, sempre com o apoio da administração da FPV. Os natais piquetenses atraíam pessoas de diversas cidades da região. De Lorena chegavam, pelo "Piquetense", vagões lotados de operários e familiares que vinham para a festa. O bom gosto do enfeites e o trabalho incansável de desenhistas, marceneiros, pintores e vários outros profissionais tornavam os natais piquetenses verdadeiros lugares de sonho.

Jornal "O Estafeta" - Dezembro de 2005


A pracinha decorada para o Natal.
Foto publicada na Agenda 99 da FCR

Natal na Pracinha

Dar voltas na pracinha: costume trivial. Os moços ficavam parados e as moças rodavam. Cortejar, flertar, paquerar nas noites de sábado e domingo era comovente. Quando se aproximava o Natal, a pracinha alterava-se sobejamente. Em lugar das voltinhas, um mundo mágico abria-se às vistas da população. A Praça Duque de Caxias transformava-se numa maravilhosa e acolhedora cidade natalina, para onde todos convergiam. Papai Noel, trenzinho, Sítio do Pica-Pau Amarelo, árvore enorme de natal e a troca de sorrisos entre as pessoas explodia noite adentro. A pracinha era envolvida por manifestações típicas, as canções ao Menino Jesus acompanhadas por instrumentos tradicionais enraizavam-se em nossos corações. O espetáculo pirotécnico ficava para a noite de Natal. Chuva de prata, morteiros, cachoeiras misturavam-se com os clarões dos astros. Os fogos e luzes são símbolos de ternura e vida longa. As crianças, principal objetivo dos organizadores, traziam os semblantes felizes. O presente delas era estar na pracinha, participando, ganhando balas do Papai Noel, abraços e beijos da Emília. Naquele tempo havia paz nas pessoas, no ar, nas coisas que nos rodeavam. As festas transcorriam desejosas, alegres e tranqüilas. O presépio era num dos canteiros da pracinha, o Menino Jesus deitado na manjedoura e os Reis Magos lhe oferendando. Se pudesse, escreveria um bilhete ao Papai Noel pedindo um presente... Ah, se ele me desse de volta as festas natalinas na pracinha!

Edival da Silva Castro
Jornal "O Estafeta" - Dezembro de 2004

 


A pracinha decorada para o Natal.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

O Sonho transformado em meu Primeiro Pesadelo

Como todas as crianças e adolescentes de Piquete, recordo-me de seus belos Natais. Morando perto da "pracinha", as festas maravilhosas eram integradas a minha paisagem. O parque de diversões era o que, já adolescente, mais me encantava. Eu adorava a roda gigante e o chapéu mexicano, num fascínio incontido pelas alturas. Da roda gigante me destaca na memória as traquinagens de meu irmão Miguel, assustando-nos, ao balançar o banco quando a roda se encontrava parada e a gente lá no topo dela. Moleque, ficava rindo de nossos temores. O tempo passou, sai de Piquete para o Rio de Janeiro, onde cursava Medicina. Nas férias, freqüentava o Hospital da FPV. Na década de 70, na virada de 71/72, eu me encontrava de plantão no Hospital da FPV. O então Diretor da FPV era o General Martins, que lá se encontrava acompanhando o internamento de sua esposa. Homem extremamente gentil, culto e educado, o general procurava se inteirar de tudo, conversando e tratando com delicadeza a todos que o rodeavam. Passamos parte do meu plantão conversando sobre medicina, vocação, os nossos encontros com a dor e a morte. Eu concluíra o quarto ano de medicina e apenas dois anos me restavam de faculdade. No entanto, não presenciara ainda o falecimento de nenhum paciente. Em certa altura da noite, uma senhora entrou com um bebezinho de aproximadamente um mês, muito desidratado, com vômitos e diarréia. Telefonei para o Dr. Wanderley, pediatra responsável pelo plantão. Como acadêmica de medicina eu só poderia tomar decisões com o seu aval. O saudoso e querido médico imediatamente chegou ao hospital, medicou a criança em estado gravíssimo e destacou para a mãe a possibilidade de não conseguir salvar sua vida. Perguntou-lhe há quantos dias a criança se encontrava naquela situação. "Desde a véspera do natal", ela respondeu. O médico indagou-lhe porque não trouxera o filho para ser medicado a tempo e ela respondeu: "E eu ia perder a festa de natal?" Essa frieza me assustou e horrorizou. Dr. Wanderley deixou a criança aos meus cuidados e voltou para casa, continuando de sobreaviso para qualquer emergência. Fiquei ao lado do bebê que agonizava. Em certo momento, a mãe me abordou e disse: "Ele vai morrer mesmo e eu estou muito cansada. Vou para casa e amanhã venho buscar o corpo para enterrar". Disse que morava no Santo Cruzeiro, deu o endereço para a enfermeira e foi embora. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Como podia uma mãe abandonar assim o seu bebê? Passei a madrugada ao lado da criança que somente faleceu às cinco horas da manhã. Acompanhando sua agonia, em silêncio, eu e o General Martins... Quando o bebê faleceu, ele me disse: "Agora vá dormir. Você merece um descanso". Bem cedinho, quando acordei, o general já havia mandado a ambulância, com o motorista Geraldo Pé de Sapo, buscar a família do bebê morto. Somente a mãe compareceu, muito mal humorada, reclamando do cansaço. O general entrevistou pessoalmente a mãe e ela lhe contou que aquele bebê não iria fazer muita falta, pois era o décimo primeiro filho, de uma "ninhada" difícil de ser sustentada. Ele insistiu no porque dela não ter trazido, a tempo, o bebê para consulta. A mãe novamente respondeu que não perderia por nada, a festa de natal da Fábrica Presidente Vargas...

Maria Auxiliadora M. G. Vieira


General Martins, Diretor da FPV, em festividade na
Escola Normal "Duque de Caxias"
Arquivo Silvia Mª Leite Mota

 

 

 

Voltar

 

 

 

 

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.