PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

 

 

Memorialística de Piquete
Irmandade do Apostolado da Oração

Pertencer à Irmandade do Sagrado Coração de Jesus requeria requisitos especiais. Senhoras mães-de-famílias austeras. Conscientes de seu papel na sociedade, como formadoras de caráter. Consta das referências históricas ter sido a Irmandade dedicada ao Culto do Coração de Jesus fundada em Piquete a 5 de agosto de 1937. Entretanto, no registro de memória, admite-se a possibilidade de que um ano antes dessa data as senhoras participantes já se arregimentavam e definiam seus propósitos. Afinal, a igreja-matriz de São Miguel. como local privilegiado de culto, era o centro social do encontro. Para muitas mulheres, o único fora do lar para discutir idéias, fixar raízes e direcionar posições. Uma irmandade desempenha um bom papel nesse sentido. O estabelecimento de normas e regras combinava bem com uma sociedade regulamentada por organização hierárquica, na qual ser disciplinado e cumpridor de deveres mantidos por tradição era o esperado. Guardiãs dessas normas, os estatutos faziam dessas mulheres respeitáveis valores simbólicos. Vestidas de preto, as cabeças cobertas por véus de filó negro com arremates delicados, ou para as mais abastadas, mantilhas rendadas, essas senhoras tornavam-se distinguíveis nas missas solenes e, principalmente, nas procissões, em ordem de fileiras, a presidente a designar-lhes lugares. As fitas vermelhas de cetim, de trabalho elaborado na confecção, as medalhas douradas anexadas com as insígnias da confraria, um contraste de efeito. A solenidade da imposição das fitas a exigir juramento, presidida pelo padre e abençoada pela imagem do Coração de Jesus, representava a prova testemunhal de que as regras da Irmandade eram reconhecidas e assimiladas pelos praticantes. Carlina Barbosa era uma das devotadas zeladoras do Coração de Jesus, expressão usual entre as senhoras-membros do sodalício. Mas muitas outras, como Maria José das Dores Soares (dona Cota), matriarca da família referencial do nome, Dona Abília de Almeida e Dona Genoveva Seraphim, que era turca ou se admitia que fosse - costumava-se chamar de turcos a todos os provenientes da Ásia Menor ou do Oriente Médio, mesmo que fossem sírios - mas aclimatou-se tão bem no Brasil, que chegou a esquecer a língua-mãe. E tantas mais, que seria difícil lembrar todos os nomes. A professora Carlina Barbosa, simbolicamente aqui citada, era daquelas mestras austeras, severas no trato, firme nas decisões... e portadora de um coração de manteiga. Nas procissões de Piquete eram tantas as irmandades com suas fitas, estandartes e símbolos que coloriam uma paisagem humana cheia de compostura, obediência, aceitação e, pelo menos aparente, fervor. Rezando e cantando. Em contraponto aos dobrados da Banda da Fábrica (antes a Euterpe Piquetense), cujo ímpeto marcial redobrava nos rostos a certeza de que estavam todos na melhor posição que lhes era garantida na terra pelo ser supremo, a quem rendiam graças e louvores. Vê-las cobertas das fitas vermelhas ao pescoço sobre as vestes negras, vestidos talhados em geral pelos mesmos modelos, distinguiam-nas. Olhadas como simbólicas, o estatuto de guardiãs da honra parecia-lhes reservado. Vestais do templo. Como as austeras mulheres de Atenas, que faziam de seus companheiros e filhos comandantes de batalhas, ainda que essas não fossem, exclusivamente, das guerras declaradas. Apenas do viver comum, porém, não sem poucas lutas. Penélopes, dispostas a esperar seus Ulisses, a vida toda, dedicadas, tecendo, fiando, cozinhando, bordando, criando filhos e exemplificando. Penélope foi na tradição grega a mulher que se manteve fiel ao marido ausente por 20 anos, envolvido na guerra de Tróia. Aguardando sua volta, tecia um tapete que jamais se concluía, enquanto criava o filho Telêmaco. Cumpre lembrar que essas senhoras zeladoras dedicavam-se, como fazem as de hoje, às boas obras, à difusão da fé e da religião e à propagação dos bons costumes. Dedicar-se a confeccionar roupas para os pobres em caprichados tecidos de crochê, corno fazia Carlina Barbosa. Costurar na Oficina Santa Rita sempre o fez Abília de Almeida Alves. Exemplos multiplicados em tantas outras laboriosas damas e jovens rendadas, como se requeria para serem convidadas a agremiar-se, abrigadas no coração de Jesus. E louvá-lo, especialmente nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Com missas e orações votivas, além de um hino sacro que se inicia pelos versos: Coração tanto, tu reinarás. O nosso encanto sempre serás! Nos meados do século passado, sob o Estado Novo, o modelo ideal da sociedade era arregimentar pessoas sob controle disciplinado, em nome de uma ordem nacionalista cujas bases encontravam na família e no trabalho os valores maiores. Arregimentavam-se hierarquicamente os setores sociais simbolizados nos desfiles cívico-militares e nas procissões. Estes mobilizam o povo até hoje, calcados na memória e reforçados tradicionalmente. Da Irmandade do Apostolado da Oração, inspirada, como tantas outras, nas Ordens Militares da Idade Média, entre elas a Ordem de Cristo, ficaram as ressonâncias de um hino épico-militar de convocação à luta, como soldados de Cristo, com o broquel (escudo antigo) do cristão que é convicto.

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - Novembro de 2004


Mª de Lourdes Beraldo Leite

Irmandade do Sagrado Coração de Jesus

Minha avó Maria de Lourdes Beraldo Leite pertencia a essa Irmandade. Eu me recordo da mantilha negra e da fita vermelha. Desde a infância, essas cores unidas me fascinaram, pelo contraste forte e maravilhosamente estético produzido. Neta mais velha, eu acompanhava minha avó nessas reuniões, que na minha infância aconteciam, não na Matriz de São Miguel, mas na Igreja de São José. Enquanto as mulheres oravam e cantavam eu me fascinava com os magníficos vitrais da Igreja. Para quem morava na Rua Major Carlos Ribeiro, ir a pé até a Igreja de São José era um agradável passeio, principalmente quando acompanhado das histórias maravilhosas e ternas de minha querida avó. Vezes sem conta, acompanhei também as procissões, ao lado da Irmandade, companheira constante de Dona Lourdes, carregando velas que derretiam e caiam sobre os meus dedos. O contato da parafina morna até hoje se destaca em minhas lembranças, juntamente com o preto e vermelho das mulheres da Irmandade. Saudades dessa infância descontraída. Saudades de minha avó e do tudo que ela significou em minha formação.

Mª Auxiliadora M. G. Vieira


Vitrais da Igreja de São José
Fotos de Idelmo Reis

 

 

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