PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Conflitos religiosos em Piquete

 


Padre Septímio Ramos Arantes, em 1942

Basta de Fancaria: rebatendo um insulto injurioso
Conflitos religiosos numa comunidade valeparaibana na Era Vargas

Introdução

A Proclamação da República modificou o sistema de poder até então dividido entre Estado e a Igreja. O decreto n° 119-A de 19 de janeiro de 1890 encerrou esse arranjo binário. Ficava, a partir daí, proibida a intervenção da autoridade federal e dos estados em matéria religiosa, concedia plena liberdade de culto e abolia o padroado[3]. Com esse novo regime de governo, o liberalismo, o protestantismo e o positivismo ganharam espaço contrapondo-se à visão de mundo proposta pela Igreja Católica. A falta de padre em todo o país e os poucos seminários concorreram para a proliferação dos chamados “inimigos da Igreja”: as crenças liberais, o Socialismo e o Anarquismo ateus, além de seus “concorrentes na fé”, notadamente protestantes e espíritas. A Igreja Católica empreendeu uma intensa campanha para recuperar os seus antigos privilégios e voltar a ocupar os espaços perdidos. Nesse esforço, mostrou-se muito agressiva contra os protestantes, que passaram a ser considerados inimigos da identidade e da cultura católicas do Brasil, a serviço de interesses estrangeiros, principalmente norte-americanos. No início dos anos 30, aprofundaram-se debates sobre as relações da Igreja com o Estado. Membros do clero católico vislumbravam a possibilidade de uma aliança com o Estado varguista que, se não devolvesse à Igreja o status de religião oficial do país, ao menos garantiria sua supremacia espiritual no Brasil excluindo outras correntes de pensamentos que pudessem representar uma ameaça. Foi no calor dessas discussões ocorridas por todo o país que em Piquete, cidade com pouco mais de dez mil habitantes, em 1939, o Pe. Septímio Ramos Arantes, pároco da igreja Matriz de São Miguel, provocou conflitos com as comunidades metodista e espírita, que acabaram por envolver seus habitantes. 


Piquete em seus primórdios, com destaque ao alto para a Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo .
Foto publicada no álbum Coisas Findas da Fundação Christiano Rosa

O Município de Piquete

O município paulista de Piquete localiza-se a noroeste do Médio Vale do Paraíba. Seu território com 176 Km² está inserido no conjunto paisagístico da Serra da Mantiqueira, uma das poucas regiões do país cujo relevo acidentado, de colinoso a montanhoso, tem elevações superiores a 2.000 metros de altitude. No último dia 15 de junho, Piquete completou 117 anos de emancipação político administrativa. Admite-se que sua origem remonta à segunda metade do século XVIII, quando o Capitão Lázaro Fernandes, morador na antiga freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Guaypacaré, hoje município de Lorena, segundo documento da Vila de Lorena conservado no Arquivo do Estado, abriu uma picada ligando esse povoado às minas de ouro de Itajubá, no alto da Mantiqueira (CHAVES, 1997). Esse caminho partia da paragem do Campinho, na margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, em demanda do arraial serrano de Nossa Senhora da Soledade de Itajubá, atual município de Delfim Moreira-MG, na área de mineração. As terras percorridas pelo citado caminho, povoadas, deram origem a Piquete. Inúmeros ranchos e pousos foram erguidos às margens desse caminho, próximo a um posto de fiscalização (registro[4]) aí instalado. Esse lugarejo, depois denominado Bairro do Piquete, passaria a viver em função do trânsito de tropeiros e viajantes que intercambiavam mercadorias entre o sul de Minas e o Vale do Paraíba. Em 1891, o Bairro do Piquete, já tendo sido declarado Freguesia, foi elevado à categoria de Vila com a denominação de Vila Vieira do Piquete. A nova vila, de economia predominantemente agrária, voltada para a produção de café e incipiente comércio de beira de estrada, adentrou o século XX com suas dificuldades e pobreza. A população foi surpreendida, em 1902, com a notícia de que o Ministério da Guerra instalaria em suas terras uma fábrica de pólvora sem fumaça. A inauguração da Fábrica de Pólvora sem Fumaça ocorreu a 15 de março de 1909. A partir de então, toda a cidade passou a viver em sua função, e mesmo os que nenhum vínculo tinham com ela se beneficiavam indiretamente (CHAVES, 1997). Esse empreendimento provocou um aumento populacional urbano decorrente da chegada de operários de diferentes cidades da região e do país. Por conseqüência, a paisagem urbana dinamizou-se pela construção de casas, vilas operárias e abertura de novas ruas e avenidas. Piquete foi adquirindo nova fisionomia, tornando-se cidade operária, o que a diferenciava das outras cidades do Vale. No final da década de 1930, houve expansão dessa indústria bélica, com a construção da Fábrica de Base Dupla, que atraiu grande número de operários para a cidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Fábrica de Piquete chegou a empregar quase 3.000 operários, ampliando-se a capacidade produtora de suas oficinas, fator de grande significado para a história do desenvolvimento do município.


Igreja de Nossa Senhora da Piedade em Lorena, SP
Foto de Lety

A Paróquia de São Miguel

Para cumprir os preceitos religiosos, os antigos moradores do Bairro do Piquete não mediam esforços, e visitavam, pelo menos uma vez ao ano, a igreja da Piedade, em Lorena, ou se organizavam em romarias até Aparecida. Esta religiosidade levou os moradores a se reunirem com uma petição, em 1864, visando à ereção de uma Capela no bairro. Em 20 de dezembro de 1864, Dom Sebastião Pinto do Rego, Bispo de São Paulo, atendendo ao pedido consentiu a construção da capela sob a invocação de São Miguel, conforme consta no livro do Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Lorena (1865). Em 22 de março de 1875, através do Decreto Provincial n° 10, o Bairro do Piquete foi elevado à condição de Freguesia. O papel da Igreja nas questões políticas e na argumentação da criação das Paróquias era muito relevante para as decisões das instalações urbanas, pois a Igreja era a principal fonte de referências para dirimir problemas do público e do privado. Era a Igreja que detinha os registros cíveis e dela emanavam os direitos e a oficialização dos atos sociais (FERREIRA, 1997). Em 7 de outubro de 1888, o Bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, por meio de uma portaria sancionou a criação da Paróquia de Piquete. A população ansiava, cada vez mais, pela chegada de seu primeiro padre. No dia 1° de novembro, com grande festa receberam seu primeiro vigário, padre Francisco Fillippo – natural de San Vincenzo de La Costa, província de Cosenza, Itália. No entanto, esse padre permaneceu por pouco tempo à frente da Paróquia de São Miguel, transferido em 1890 para a Igreja de Santo Antônio, em Machado- MG (MEMÓRIA, 2000) Em maio de 1891, ocorreu, finalmente, a emancipação político-administrativa do Bairro do Piquete, e a 15 de junho do mesmo ano tomaram posse os Intendentes da nova Vila Vieira do Piquete. Quando de sua emancipação, a Vila era muito pequena e pobre, sua população urbana não ia além de 600 pessoas, com pouco mais de 120 casas localizadas próximo à Igreja Matriz (LORENA, 1894). A pobreza do lugar não permitia a vinda de vigário, porque nenhum sacerdote poderia ali viver, por falta de recursos pecuniários que provessem sua subsistência, não obstante ser a população devota e muito religiosa e concorrer particularmente para dar de comer ao vigário. Desde a partida do padre Francisco Fillippo, a Paróquia de São Miguel não teve padre fixo. Durante quatro décadas esteve anexada ora à Estola do Embaú, ora à de Lorena, quando era visitada esporadicamente por religiosos. Apesar da ausência de padre, a Igreja Matriz sempre foi o centro espiritual de Piquete. Por outro lado, o catolicismo popular sustentava-se autonomamente. Sem o apoio doutrinal, o culto dos santos passou a ocupar primazia na vida religiosa do povo (CHAVES, 1996). A construção da Fábrica de Pólvora sem Fumaça atraiu inúmeros operários. Entre eles havia, além de católicos, evangélicos de diferentes denominações. A falta de padre no município concorreu para que muitos moradores passassem a freqüentar os cultos promovidos pelos chamados protestantes.


Inauguração da Igreja Metodista em Piquete
Foto enviada por Lety.

A Igreja Metodista em Piquete

Após a inauguração da Fábrica, os evangélicos (presbiterianos, batistas, metodistas...) começaram a se reunir nas casas uns dos outros, informalmente, para oração e leitura da Bíblia. No mês de julho de 1929, eles se reuniram em uma assembléia para definir a denominação a ser seguida pelo grupo. A denominação escolhida foi a de Metodista, porém só no mês de agosto ela foi oficializada, quando da visita do Pastor Antônio Martins, da Paróquia Metodista de Taubaté (CONTRERAS & CALLISAYA, 1989). Formada e oficializada a Congregação Metodista de Piquete, o grupo alugou um salão de dois cômodos situado na Rua Comendador Custódio Vieira, n°6, cujo dono era o Sr. Jorge Marques, para atividades do culto e Escola Dominical (CONTRERAS & CALLISAYA, cit.). Nesse período, triplicou o número de seus membros. Um dos fatores que contribuiu para esse crescimento foi o fato de que a Igreja Católica não tinha, por essa época, padre residente no município. No ano de 1934, tendo como dirigente o Pastor James L. Kennedy, a Congregação foi novamente reorganizada passando a ser denominada Igreja Metodista. No ano seguinte, essa Igreja foi elevada à categoria de Paróquia. A partir dessa data, os metodistas integraram-se ao Distrito Paulistano da Regional do Centro da Igreja Metodista. (CONTRERAS & CALLISAYA, cit.). Nessa época, organizou-se a Sociedade Metodista de Crianças e a Sociedade Metodista de Senhoras. Como o local dos cultos não mais comportava o número de fiéis, a comunidade passou a discutir a construção de um templo. Em 1937, a Paróquia Metodista adquiriu dois lotes do Sr. José Monteiro de Brito Júnior, totalizando uma área de seiscentos metros quadrados, para a concretização desse objetivo. A fotografia abaixo demonstra uma das etapas de construção do templo. As obras tiveram início no dia primeiro de junho de 1938. (CONTRERAS & CALLISAYA, cit.) Próximo à comemoração do décimo primeiro aniversário da organização metodista, no dia 25 de agosto de 1940 foi inaugurado o templo Metodista de Piquete.

 Pe. Septímio x Igreja Metodista

No dia 3 de fevereiro de 1934, o vigário João Marcondes Guimarães tomou posse da Paróquia de São Miguel. Por mais de quarenta anos o município ficou sem padre residente. Com sua chegada, aos poucos foi crescendo a espiritualidade do povo e começaram a florescer as associações religiosas: Congregação Mariana, Pia União das Filhas de Maria, Apostolado da Oração, Associação de São José e Cruzada Eucarística Infantil, além do grande incremento às obras assistenciais e de caridade. Cresceu a catequese na Igreja Matriz, nas capelas urbanas e nos bairros rurais. Seu substituto, padre Oswaldo de Barros Bindão (1935 a1938), continuou o belo trabalho de seu antecessor. Fez com que a seara, já cultivada,produzisse colheitas cada vez mais abundantes, com maior presença e participação dos fiéis nos trabalhos comunitários. Na sua gestão foi construída a capela dos Marins e composta uma comissão de pessoas para trabalhar e zelar pelas capelas das Posses, Tabuleta, Itabaquara e São José, e fundado o jornal A Ordem “dedicado aos interesses sociais e religiosos de Piquete”. Mas o foco deste trabalho é a gestão do Padre Septímio Ramos Arantes, transferido para Piquete em 31 de novembro de 1938. Após minuciosa análise dos documentos da época, é possível afirmar que antes dele não houve religioso que tenha passado por terras piquetenses e deixado consignadas histórias que tanto geraram polêmicas e conflitos. O padre Septímio era jovem, impetuoso, audaz, intransigente e irascível. Uma das suas características mais marcantes era a forma como defendia o seu rebanho espiritual. Ao menor sinal de que um ou outro paroquiano pensasse em praticar qualquer crença que não fosse a católica, lá estava o incansável guia a orientá-lo e recolhê-lo ao seio de sua paróquia. Não se contentava em aumentar o número de fiéis e fortalecer a Paróquia de São Miguel; contestava tudo o que poderia interferir nos valores católicos em Piquete. O “alto” ou “baixo” espiritismo, a macumba, o candomblé, o cangerê e os “crentes” eram impiedosamente combatidos pelo vigário em suas prédicas. O jornal “A Ordem”, fundado pelo padre Oswaldo Bindão, em 1936, no ano de 1939, sob a direção do Pe. Septímio, transformou-se no veículo de provocações e ataques aos chamados “corruptores” dos espíritos católicos de Piquete. Tomando posse da Paróquia de São Miguel, o Pe. Septímio, apesar dos instrumentos de evangelização criados pelos seus predecessores, constatou que a Igreja Metodista possuía inúmeros instrumentos e organizações internas voltados para a evangelização, com melhor resultado. Multiplicava-se o número de evangélicos. No início desse mesmo ano, a Igreja Metodista pôs em prática uma poderosa ferramenta que acirrou a “disputa” religiosa no município: enquanto a Igreja Católica fazia suas pregações nas ruas, por meio de procissões, somente em dias de festividades, a Igreja Metodista realizava, com maior freqüência, em vários pontos da cidade, reuniões e sermões, cânticos e leitura de passagens bíblicas, numa clara convocação aos citadinos para a verdade de suas palavras. Essa situação irritava o Pe. Septímio que, através do jornal “A Ordem”, passou a publicar artigos ofensivos à Igreja Evangélica. No mês de março, as publicações dos artigos “A verdadeira cruz” e “Tapeações protestantes” culminaram numa resposta do pastor da Paróquia Metodista de Piquete que, através de um boletim distribuído pela cidade desafiou o Pe. Septímio para uma discussão em praça pública, sobre a veracidade dos artigos publicados. Dizia ainda que o padre deveria provar que os protestantes falsificavam a Bíblia, a fé, o sacerdócio; que sua ausência ao debate seria a declaração patente de sua derrota; que a discussão seria presidida pelo Juiz de Paz Modesto Gonçalves Pereira e a ordem mantida pelo Delegado de Polícia; e contariam com a presença honrada do Prefeito Municipal. Revoltado com a repercussão do boletim, o Pe. Septímio dirigiu-se ao Delegado de Polícia local, José Edmundo Cidade Pfeil, nomeado que fora para o cargo a 3 de janeiro de 1939, pelo Secretário de Segurança Pública, o Sr. Dalyszio Menna Barreto, para se queixar contra a prática evangélica em vias e praças públicas. O Delegado recebeu o padre em sua casa de negócios, na antiga residência do Coronel Luiz Relvas, e não na cadeia. A autoridade eclesiástica exigia que o mesmo proibisse aqueles atos públicos dos “protestantes”. Prometeu o policial verificar, de acordo com as Leis, o que poderia ser feito. Buscando na Constituição de 10 de novembro o que não podia e o que podia, o Delegado nada encontrou que o apoiasse no cumprimento da pretensão sacerdotal. Assim, indo à Casa Paroquial, mostrou ao padre Septímio que nada poderia fazer em nome da Lei para impedir tais cultos, já que os mesmos não provocavam qualquer ato de perturbação à ordem pública. O Pe. Septímio discordou, reclamou, lançou ameaças. Mas a autoridade policial afirmou que os protestantes tinham direitos análogos aos dos católicos, e que ele teria assim que proibir procissão com cânticos e orações pelas ruas da cidade. Isto foi uma afronta ao Pe. Septímio e o estopim para o conflito. Saindo o Delegado, o Vigário pegou de sua máquina de escrever e fez pesadas denúncias do mesmo ao Bispo Auxiliar de São Paulo. O Bispo, por sua vez, analisou a denúncia e remeteu-a ao Interventor do Estado, Dr. Adhemar de Barros, que encaminhou a reclamação ao Secretário de Estado dos Negócios da Segurança Pública. Continuando viagem, chegou o processo ao Delegado Regional de Polícia de Guaratinguetá, Dr. Mello Leitão, que mandou abrir inquérito contra a autoridade policial de Piquete. O Delegado Regional Dr. Leitão, convocou o Sr. Cidade Pfeil para comparecer a Guaratinguetá, onde lhe deu ciência da gravidade da situação em que se envolvera. Iniciou-se, então, a apuração das denúncias contra o Delegado de Piquete. A primeira pessoa a ser ouvida foi o então Diretor da Fábrica, o Coronel José Gomes Carneiro, que teceu elogios à atuação do Sr. José Edmundo pelos brilhantes feitos em prol da segurança dos citadinos. Continuaram as inquirições ao Prefeito e pessoas gradas da cidade, terminando o Delegado Regional por regressar à sua sede e dar o despacho ao processo, no qual constava nada haver que desabonasse a pessoa e a conduta funcional do Delegado de Piquete. O Pe. Septímio não era pessoa de se abater por uma “derrota”. Providenciou nova denúncia ao Bispo de São Paulo, este a encaminhou ao Interventor, e, seguindo o mesmo trajeto anterior, o processo foi parar em Guaratinguetá, agora, todavia, não com um novo inquérito, mas com uma ordem do Secretário de Segurança exigindo a proibição das pregações públicas dos “protestantes”. Chamado àquela cidade, para lá se deslocou novamente o Sr. Pfeil, e recebeu do Regional ordens para cumprir os despachos superiores. O Delegado de Piquete não aceitou a imposição e disse somente cumprir tal ordem se a mesma fosse subscritada pelo Dr. Carlos Ribas de Mello Leitão e por ele assinada. E assim aconteceu. A ordem do Delegado Regional - de se proibir os sermões públicos dos metodistas -,foi a estes transmitida pelo Delegado de Piquete. Este momento era o mais apropriado para o final da história. O padre Septímio ganhou o que desejava. O Delegado curvou-se apenas para cumprimento de ordens superiores. A partida da “disputa” religiosa estava empatada. Porém, essa história não acabara.


Centro Espírita "Deus e Caridade"
Foto de Lety

Pe. Septímio x Espiritismo

Em 23 de julho de 1939, um novo jornal foi fundado na cidade: “O Monitor”. Primeiramente, de propriedade do Sr. Antônio de Assis e sob a direção do Sr. Francisco Veloso; posteriormente, apenas deste último. Esse semanário veio tirar o sono do Pe. Septímio, já que o Sr. Veloso era espírita declarado e convicto, e apoiava os trabalhos executados pelos metodistas. O jornal “O Monitor”, logo nos seus primeiros números, conclamou operários da Fábrica de Pólvoras, associações religiosas, membros da comunidade evangélica, autoridades e a população piquetense a se engajarem num ambicioso projeto que visava à construção de uma obra de grande impacto social no município. Tratava-se de um albergue noturno que o Sr. Veloso pretendia construir na cidade em função do grande número de viajantes e pessoas pobres que perambulavam pelas ruas sem ter onde pernoitar. Esta idéia, logo de início encontrou resistência no lado católico. Inicialmente, a luta dos prós e contras estava restrita a artigos publicados nos dois jornais (“O Monitor” e “A Ordem”), porém esquentou mais com uma reunião convocada pelo Sr. Francisco Veloso em sua residência, que transcorreu em estado de guerra fria. Houve a “invasão” do local pelo padre Septímio acompanhado de fiéis e membros de associações religiosas. Tendo-se o reverendo negado a tomar parte na mesa dos trabalhos, permaneceu no ambiente entre o pacifismo e o desafio. Para ele, Francisco Veloso, por ser espírita, “era um figadal inimigo da Igreja” (CÚRIA DE LORENA, 1939). Após perturbar o ambiente da reunião, o padre retirou-se e o Sr. Venino Vieira Soares, presidente do Conselho Particular Vicentino, de maneira ponderada expôs a proposta da construção da Vila Vicentina. Após debates, houve consenso entre os participantes da reunião de que deveriam somar esforços para a edificação dessa Vila. Dias depois, o vigário nomeou uma comissão composta por Antonio José de Almeida, Horácio Pereira Leite, Godofredo Guedes, Otávio Cândido Ribeiro e Lindolfo da Costa Manso para angariarem donativos em prol da construção da Vila Vicentina. O Jornal “A Ordem”, de forma provocativa, publicou matéria escarnecendo da reunião, e recebeu em troca outra do Sr. Veloso com o título de “Basta de Fancaria” e sub-título “Rebatendo um insulto injurioso”. Temos, a partir daí, idéia do estado de ânimos existente entre católicos e espíritas, naqueles tempos. O que impedia os católicos de aceitar a construção do citado albergue noturno era que os vicentinos cogitavam construir a “Vila dos Pobres”, cuja concretização exigia uma somatória de forças e não retalhação de recursos. O conflito entre os católicos e espíritas serviu para acelerar o início das obras, de maneira que, no dia 17 de dezembro, com a presença do Bispo Diocesano, ocorreu a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Vila para os Pobres.

Considerações Finais

Um conflito aparentemente banal entre o vigário de uma pequena cidade valeparaibana e as comunidades metodista e espírita extrapolou os limites da Paróquia e chegou à Capital do Estado. Havia espaço para todos, porém a intransigência do vigário, que queria distantes do perímetro da Paróquia quaisquer idéias vindas dos chamados “inimigos da Igreja”, agitou a vida da pacata cidade. Fé e poder estavam em jogo. A imprensa escrita foi o veículo usado para a batalha de idéias e para conquista de corações e mentes. Esse conflito ganhou as ruas e quase chegou a vias, de fato. Impetuoso, o representante da Igreja Católica sempre provocava, mesmo quando os ânimos já haviam serenado. Muitos antigos moradores de Piquete ainda hoje se recordam de como o padre Septímio era provocador. Durante procissões, quando passava em frente à Igreja Metodista, ele, insuflando o peito, gritava: - “Abaixo o protestantismo! Viva a Igreja Católica Apostólica Romana!... e o povo respondia a todo pulmão Viva!...”, ou em frente à casa do Sr. Francisco Veloso gritava: “Morte ao espiritismo! Viva a Igreja Católica Apostólica Romana!...” Não podendo se manifestar através de pregações pelas ruas, os protestantes inovaram com um serviço de alto-falante instalado na torre da Igreja Metodista, de onde passaram a pregar e a fazer leituras do evangelho. O Padre Septímio não se intimidou, instalou numa das torres da Matriz de São Miguel aparelho similar. Iniciou-se uma polêmica pregação no mais alto tom: de um lado, católicos; de outro, metodistas, através dos alto-falantes. Pobres ouvidos! Apesar dos contratempos, após quatro anos à frente da Paróquia de São Miguel, houve um saldo positivo: o padre Septímio, indiretamente, fortaleceu espiritualmente toda a comunidade piquetense, independentemente da fé professada. O católico ficou mais católico, o evangélico, mais crente e o espírita, mais caridoso. O resultado concreto desse episódio foi a construção da Vila Vicentina, que contou com mobilização de toda a comunidade piquetense. Essa história, no entanto, não acabou com a partida do Pe. Septímio...

Thiago Batista dos Santos[1]
Dóli de Castro Ferreira[2]


Paroquianos de Piquete com Pe. Septimio

Bibliografia

 
A ORDEM, Jornal. 15 de junho de 1941. Ano V, n° 75. CHAVES, A.C.M. Nossa Homenagem à Fabrica. O ESTAFETA, Piquete-SP, março de 1997. In Arquivo Fundação Christiano Rosa.
CHAVES, A.C.M. 15 de junho. O ESTAFETA, Piquete-SP, junho de 1997. In Arquivo Fundação Christiano Rosa.
CONTRERAS , A.G.C, CALLISAYA, A.A.S., IGREJA METODISTA DE PIQUETE: 1929-1989. In Arquivo Fundação Christiano Rosa.
CÚRIA DE LORENA, Livro do Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, de 1747 a 1883, ano 1865, pág. 93.
CÚRIA DE LORENA, Livro do Tombo da Paróquia de São Miguel do Piquete, de 1888 a 1939, n°1. Ano de 1888.
CÚRIA DE LORENA, Livro do Tombo da Paróquia de São Miguel do Piquete, 1939 a...,n° 2. Ano de 1939.
CÂMARA MUNICIPAL DE LORENA. Ata da 3º Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Lorena. Livro de Atas da Câmara de Lorena. Ano de 1894.
CHAVES, A.C.M. EVANGELIZAÇÃO ATRAVÉS DA NOSSA CULTURA. Piquete: SP, 1996. Palestra proferida na Novena de São Miguel Arcanjo, na Matriz de São Miguel de Piquete-SP, em setembro de 1996. In Arquivo Fundação Christiano Rosa.
FREIRE, Messias. DESAFIO. Panfleto distribuído no município de Piquete, em abril de 1939.
FERREIRA, Dóli de Castro. A origem da cidade de Piquete: uma contribuição para a
História Documental de Piquete. O ESTAFETA, Piquete-SP, maio de 1997. In Arquivo
Fundação Christiano Rosa.
MEMÓRIA, Imagem. Modelo dos Sacerdotes. In O ESTAFETA. Dezembro de 2000.
MASIEIRO, J.P. Freguesia e paróquia. In documento do Arquivo Fundação Christiano Rosa
O MONITOR, Coleção do. De junho de 1939 a julho de 1942. In Arquivo Fundação Christiano Rosa.
VELLOSO, Francisco. Basta de Fancaria: Rebatendo um insulto injurioso. Boletim distribuído no município de Piquete, 20 de novembro de 1939.
 
[1]Centro Universitário Salesiano de São Paulo
[2] Mestra em História Social - Universidade de São Paulo/USP
[3] Padroado: compromisso entre a Igreja Católica e o Governo de Portugal, que assegurava o exercício pleno do domínio político e religioso dos reis sobre a Colônia. Na prática, significava que o direito do padroado foi cedido pelo papa ao rei, que deveria promover a organização da Igreja nas terras descobertas. Através do padroado, foi financiada a expansão do Catolicismo no Brasil.
[4] O Registro do Itajubá foi instalado na vertente paulista da Serra da Mantiqueira pelo Governador da Capitania das Minas Gerais, Luiz Diogo Logo da Silva, em 1764, para coibir o escape de ouro da região das minas. Próximo a esse Registro surgiu o Bairro do Registro Velho que, mais tarde, passou a se denominar Bairro do Piquete.
 

 

 

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