PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Fazenda Santa Lídia

 

"A minha xícara de café é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória apagada...
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da estrada...
Na minha memória pousou um pinhé gritando: crapinhé!
E passam uns homens que levam às costas jacás multicores com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo de meu coração, uns olhos negros de cabocla a olhar para mim com seu vestido de alecrim e pés no chão. 
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa... 
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de sol que floriu no portão...
E os fazendeiros, calculando a safra do espigão..."


Cassiano Ricardo, Café Expresso

 



Na Fazenda Santa Lídia um pouco da História do Café


O café foi introduzido no Brasil no final do século XVII. Do Rio de Janeiro galgou a serra e chegou ao Vale do Paraíba. Para seu plantio procedeu-se a derrubada e queima da Mata Atlântica. Fazendas cafeeiras foram sucessivamente formadas, passando a colaborar com pequena percentagem em nossas exportações e fazendo a fortuna de muitos proprietários. Vencido o primeiro quartel do século XIX, a produção cafeeira no Brasil decolou, vindo ocupar, no curto espaço de dez anos (1830-1840), o primeiro lugar em nossas exportações. Inicialmente, o café no Vale do Paraíba Paulista foi plantado na margem direita do Paraíba e só mais tarde atravessou o rio, aproximando-se da Mantiqueira, em terras piquetenses. Uma das poucas fazendas remanescentes desse período é a Santa Lydia, no bairro do Itabaquara, que, graças à iniciativa de João Carlos Marcuschi, seu atual proprietário, vem sendo recuperada. 

Visitar a Santa Lydia é mergulhar a fundo na história do Brasil e voltar ao ciclo do café na região. É descobrir um pedaço da história econômico-social de Piquete e de pessoas que ajudaram a construir, com muito sacrifício, páginas de sofrimento, dor, trabalho, riqueza e ruína. A partir de inventários existentes e diversos arquivos que trazem descrição minuciosa da propriedade, conhecemos seus antigos donos e a mudança de seu nome. Formada nos anos 50 do século XIX, com o nome de "Fazenda do Ribeirão Vermelho", pertenceu a Joaquim Vieira Teixeira Pinto. Mineiro de Itajubá, que em 1868 já residia nessa propriedade com sua mulher Anna Esméria Nogueira de Sá e numerosa escravaria necessária para cuidar dos cafezais. Joaquim Vieira, espírito empreendedor, foi chefe de real prestígio do Partido Conservador do antigo regime. Foi vereador e presidente da Câmara de Lorena, por várias legislaturas, a partir de 1872. Nesse ano, elaborou um "Mappa Geographo do termo da Cidade de Lorena..." com os esboços das cazas e de todos os fasendeiros e negociantes, rezidentes fora da povoação...", dirigido ao Presidente da Província de São Paulo, Dr. Francisco Xavier Pinto Lima. Esse documento se encontra no Arquivo Público da Cidade de São Paulo (Cx. 308 de Lorena, ofícios diversos). No "esboço" de Joaquim Vieira Teixeira Pinto está assinalada a Capela de Piquete que se encontrava em construção, sendo seus zeladores, na época, o próprio Joaquim Vieira e o Tenente José Mariano Ribeiro da Silva (a capela foi elevada à Freguesia pela Lei nº 10 de 22 de março de 1875. O próprio Joaquim Vieira foi responsável pela comissão encarregada de traçar o perímetro da Freguesia). Nesse mapa tomamos ciência das principais propriedades de Piquete e aí está assinalada, na margem direita do alto curso do rio Itabaquara, a fazenda do "Ribeirão Vermelho". Em 1886, a fazenda continha "...tresentos alqueires de terras mais ou menos, dusentos e dezenove mil pés de café formados entre novos e velhos, casa assobradada de taipa para moradia, tulhas, porões, senzalas, moinho, terreiro de pedra, machinismo de beneficiar café, e todas as bemfeitorias...

O casarão, cheio de requinte, de beleza sóbria, era desprovido de luxo. As numerosas janelas dos grandes salões de festas, dos quartos e corredores abrem-se para a paisagem e de cada ângulo um olhar retrospectivo nos leva a viajar pelo plano da memória. Em suas paredes está guardada toda a suntuosidade de uma época, quando o dinheiro fácil, obtido com a mão-de-obra não remunerada, fazia a riqueza e a alegria dos senhores do café: grandes recepções e bailes. Casamentos, batizados, aniversários e saraus atraíam proprietários da região. 

Quando da visita de Pedro II a Lorena, em dezembro de 1886, seu proprietário, atendendo pedido da Câmara Municipal, alforriou "...uma escrava de nome Josepha, matriculada na Collectoria d'esta Cidade em 28 de agosto de 1882, sob o número dusentos e sete da matrícula geral, casada com o escravo Jerônimo...", fazendo, assim, um agrado ao Imperador. Com o 13 de Maio de 1888 e a libertação dos escravos, todo esse império ruiu, a exemplo de outras propriedades da região. Faliram riquezas e famílias, que se viram à mercê de uma nova realidade, sem escravos, sem luxo e sem requinte. Tudo agravado, ainda, pelo esgotamento do solo provocado pelo desmatamento, queimadas e falta de conhecimento técnico de plantio. Em 1891, a fazenda foi vendida a Antônio Mariano da Silva Bittencourt e sua esposa Lydia de Oliveira Bittencourt, passando, a partir de então, a chamar-se Santa Lydia. 

Quem passa pela estrada do Itabaquara em direção à serra só vê vegetação rasteira e pastos, sem nenhuma plantação. Não consegue imaginar que no século passado, parte daqueles morros arredondados era coberta por extensos cafezais. A Fazenda Santa Lydia é um legado arquitetônico, artístico e documental que vale a pena conhecer.

Antônio Carlos Monteiro Chaves
Texto publicado no jornal "O Estafeta" - fevereiro de 2000

Fazenda Santa Lídia



Conhecer um lugar construído no século XIX é como viajar por um túnel do tempo. O cheiro de casa antiga é a primeira sensação que se tem ao cruzar as enormes portas do casarão da Fazenda Santa Lídia no Bairro do Itabaquara na cidade de Piquete. Quadros e antigos objetos, a maioria do período de ouro do café, decoram o ambiente da Casa Grande. Na sala principal, sofás, cristaleiras, mesas e cadeiras de época compõem o cenário de antigos saraus. 

Nas paredes de taipa, muitos quadros, dentre eles um de Dom Pedro II e outro de uma baronesa. Num dos cantos da grande sala é possível conhecer os detalhes de uma curiosa  escrivaninha do período imperial. Em outro, encontramos uma capela com imagens de santos.

 Nos quartos, as camas de madeira espessa, com cerca de um metro de altura, revelam as características dos móveis de época. Entre as peças expostas na propriedade encontramos também, carros de boi, móveis rústicos e obras do artista plástico Luciano de Almeida da cidade de Lorena. Aberta ao público há quatro meses, a fazenda revela uma atmosfera onde presente e passado se encontram. 

Há treze anos o atual proprietário, Sr. João Carlos Marcuschi, adquiriu a propriedade e vem investindo na recuperação das instalações dos prédios da antiga Fazenda do Ribeirão Vermelho, seu primeiro nome. Segundo o proprietário, a estrutura da Casa Grande estava abalada e havia muitas infiltrações. A senzala também encontrava-se em situação precária e exigia reformas. Para a restauração buscaram materiais originais, em fábricas e prédios da mesma época, que iriam ser demolidos, a fim de preservar as características do local. 

Retalhos da História

Após a aquisição da propriedade, o Sr. João Carlos Marcuschi pesquisou a história do lugar e quando chegam visitantes vão revelando o passado através de cada cômodo e suas peças. Eles contam que a fazenda começou a ser construída em 1927 e sua fundação data de 1932. Já no final do século XIX, pertenceu a Baronesa de Santa Eulália no período de ouro do Café no Vale do Paraíba. Nessa época, a mão-de-obra escrava era utilizada também na construção. Dados obtidos pela FCR - Fundação Christiano Rosa, de Piquete - mostram que cerca de cem escravos trabalhavam naquela propriedade e que pela mão destes ergueu-se a antiga Matriz de São Miguel em Piquete - localizada à margem da BR-459. Segundo a FCR os primeiros registros oficiais sobre a Fazenda são do ano de 1864. Na fazenda, revelando os traços e recursos de construção utilizados na época do império, estão os prédios da Casa Grande e da Senzala, muros e a canalização de um riacho, todos erguidos pelos escravos. De acordo com Marcuschi, a colheita de café era armazenada no porão da Casa Grande para que os donos pudessem vigiá-la. Hoje esse espaço foi restaurado e serve de hospedaria para grupos de visitantes. O aposento dos escravos, transformado em um museu, também está recheado de peças antigas, algumas do século XIX e outras mais recentes. Entre estas se destacam uma mesa de madeira feita sem pregos, apenas com a moldagem e encaixe conseguidos com força escrava. Atrás da senzala um tronco que era usado para castigar os rebeldes guarda as marcas dos chicotes. Nas paredes, açoites, armas, correntes, grilhões, luminárias e lampiões, compõem esse acervo que, segundo Marcuschi, tem valor inestimável. Depois do declínio do café, por volta da década de 20, a propriedade foi vendida e transformada em fazenda de gado leiteiro e assim permaneceu até recentemente. Todas as gerações devem ter a oportunidade de conhecer mais de perto o passado, pois, nos livros a narrativa parece distante. A Fazenda Santa Lídia é um retalho da história que resistiu ao tempo.

 Simone Colombo
Texto publicado no site

www.fazendasantalidia.com.br

Obs. As belas fotos desta página, retratando detalhes da Fazenda Santa Lydia são de Lety.
A divulgação dessas imagens e textos não tem conotação comercial
.

 

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