PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Nova Matriz de São Miguel

 


Nova Matriz de São Miguel - década de 70

Lançamento de Pedra Fundamental da Nova Matriz de São Miguel

Construída na segunda metade do século XIX, a antiga Matriz de São Miguel sofreu no seu interior, ao longo dos tempos, algumas intervenções e reformas. Com o crescimento da população de Piquete, principalmente a partir de 1940, ela tornou-se acanhada para abrigar um número cada vez maior de fiéis. Nas cerimônias solenes muita gente acabava ficando do lado de fora. A expansão da cidade e o surgimento de novos bairros tornaram-na distante para muitos moradores. Cogitou-se, então, construir um novo templo, maior, mais arejado e de localização central. Após a procura por um terreno adequado, entrou-se num acordo com o Sr. Antônio Pinho, proprietário de uma chácara na Rua Coronel Luís Relvas. O padre Gabriel Hiran, pároco de Piquete, com autorização da Cúria diocesana, comprou, pelo valor de CR$350.000, o terreno para a construção da Nova Matriz, num local elevado, de maneira a ser vista de toda a cidade. Marcou-se para o dia 29 de setembro de 1960, quando da festa de São Miguel, o lançamento da pedra fundamental, que seria feito pelo Bispo diocesano, D. José Melhado Campos, recém-empossado em Lorena. Havia por parte da comunidade católica piquetense uma expectativa para esse evento que fazia parte da programação da festa. No entanto, isso não aconteceu, para frustração de todos. O tempo que vinha excelente havia dias, amanheceu, naquele 29 de setembro, chuvoso, e assim continuou por todo o dia. A programação elaborada pelos festeiros foi cumprida à risca, menos o lançamento da pedra fundamental, que ficou marcado então para a semana seguinte, quando D. Melhado Campos retornaria a Piquete para visita pastoral. Para essa visita foi elaborada extensa programação, da qual constou, além da crisma e ofícios religiosos, uma visita à parte social da FPV e às obras da Santa Casa, Sessão Solene na Câmara Municipal e o lançamento da pedra fundamental da Nova Matriz de São Miguel. À Sessão Solene realizada pela edilidade compareceram autoridades civis, militares e eclesiásticas. No edifício em que funcionavam a Prefeitura e a Câmara instalou-se a Sessão. O presidente, vereador Alony O. Soares, abriu os trabalhos passando a palavra para o vereador José Armando de C. Ferreira que, com um bem elaborado discurso saudou o homenageado. Franqueada a palavra, falou o Prefeito Luís Vieira Soares. Discursou também o professor José Carlos Ribeiro da Silva. D. José Melhado Campos proferiu um discurso concitando todos a trabalhar de mãos dadas para o engrandecimento de Piquete e da religião, lutando pelo bem-estar do povo. Encerrada a Sessão, à saída do edifício, o vereador Gabriel Benfica Nunes falou ao Bispo do desejo e disposição de todos para erguerem a Nova Matriz. D. Melhado Campos demonstrou compreensão e desejo de aquiescer ante a vontade e o bom senso.


O bispo D. Melhado de Campos, acompanhado pelo Pe. Hiran, assenta a pedra fundamental da nova
Matriz de São Miguel, em 09/10/1960. Na foto vemos o vereador Alony O. Soares, o prefeito Luiz Vieira Soares,
Dr. José Amoroso, Prof. José de Souza Leite, o Diretor da FPV General Martins e outras autoridades.
Foto do Jornal "O Estafeta"

O lançamento da pedra fundamental, que havia sido suspenso, acabou acontecendo no domingo, dia 9 de outubro, às 11 horas, com a presença de todos que estavam naquela reunião, mais um grande número de paroquianos. Após a cerimônia do lançamento, as autoridades se dirigiram para o Salão da Banda, onde foi servido um almoço. O assunto foi a construção da Nova Matriz. A partir da pedra fundamental, houve um grande movimento por parte dos paroquianos para a ereção do novo templo. O casal José e Carmem Amoroso abraçou a causa. Constituiu-se, de imediato, uma comissão de senhoras, tendo à frente como tesoureira D. Carmem, e D. Maria José Soares presidente de honra, que elaboraram um Livro de Ouro e em pouco tempo prestaram conta para o padre Hiran da quantia de CR$ 157.000. Os congregados marianos passaram a contribuir mensalmente com pequenas quantias, doação que se estendeu a inúmeras famílias da comunidade. Cada um contribuiria com o que pudesse, desde que não afetasse o orçamento doméstico. Em contato com o arquiteto Prometheu da Silveira, o Dr. José Amoroso dele conseguiu um projeto para a construção da Nova Matriz, o que foi feito em pouco tempo, após ele receber no Rio de Janeiro uma planta do terreno, com a localização da pedra fundamental, elaborada pelo Sr. Dogmar da Costa Ribeiro. Em março de 1965, o padre Hiran afastou-se da Paróquia de São Miguel, por problemas de saúde, sendo substituído pelo padre Joaquim Passos, que continuou a obra. A Matriz de São Miguel foi inaugurada em 27 de janeiro de 1970, tendo como pároco o padre Pedro Verdumen.

Publicado no Jornal "O Estafeta"
Janeiro de 2008 - Piquete, SP


A Matriz de São Miguel na paisagem de Piquete


Matriz de São Miguel

As imagens e seus conceitos

A atual matriz de São Miguel Arcanjo em  sua forma moderna foi modelada por Prometheu da Silveira, arquiteto que opôs uma forma contrastante à da antiga sede paroquial. A concepção arquitetônica deu-se integrada a uma idéia na qual se harmonizavam piso, teto, colunas de sustentação, cúpula em cúspide piramidal, vidros das janelas de entrada de ar e luz, altar-mor no presbitério bem amplo, disposto entre a nave e as capelas, mais a saída da sacristia. Um tetraedro é a figura geométrica na qual esses elementos se conjugam. A pintura das paredes internas e externas combinava-se ao conceito básico criado na prancheta de Prometheu, com empenho nos detalhes, na força, na leveza e nas retas revolucionárias em equilíbrio, para sintonizar-se com a paisagem do entorno, tendo ao fundo os picos elevados da Mantiqueira antecipados por um mar de morros. Ângulos agudos para facilitar o escoamento das muitas águas das chuvas. Nos verdes de tonalidade musgo dos vidros dos janelões, o contraponto das matas de altas árvores e densidade dos conjuntos florestados. Para a decoração foram escolhidas as imagens do artista plástico Antônio Cesar Dória, colocadas nas laterais do presbitério indicando a nova concepção anunciada na forma geral. São Miguel, Nossa Senhora e São José, em gesso branco ascético, a provocar uma revolucionária contraposição à idéia tradicional de representação européia de imagens a que o povo estava acostumado. No espaço sagrado, o anúncio de um modelo totalmente novo para ser assimilado. Provocante, sem perder a razão de ser – invocar o transcendente. A forma geral das imagens representa-se como uma amêndoa, ou seja, ao que no mundo artístico da imageria é designado como uma mandoria (da palavra amende, do francês, para significar amêndoa). Símbolo da transcendência e também da vitória sobre a morte. Forma usada para esculpir em pedra as imagens sacras. Pois bem. Motivações alegadas pelo padre Severino Cícero Ferreira, quando pároco em São Miguel, levaram a modificações sintomáticas no templo. Os móveis do Altar-Mor e capela do Santíssimo foram substituídos pelos confeccionados em madeira maciça lavrada e esculpida por artesão mineiro. Um conceito barroco associou-se ao modernista ali instalado. 


Imagem original de São Miguel Arcanjo
Foto de Lety

A imagem central de São Miguel, esculpida seguindo a representação barroca, substituindo a anterior, foi encerrada em um nicho sobreposto à mesa sacrificial. Por sua vez, a imagem moderna do padroeiro, simbolizada por Dória, foi levada para a parede externa, frontal. Nas entradas, os dois portais também foram modificados tornando-se mais pesados do que os originais. Ornados de cruzes, alteraram a forma pela qual os anteriores eram vistos. Os vidros das janelas foram substituídos por vitrais decorativos com temática narrativa da intervenção dos anjos na aventura humana, segundo os relatos bíblicos. As cores mais claras do que as dos vidros originais pretendem colocar mais luzes no templo. Iluminados pelos raios solares ou pelas luzes dispostas no interior, nos lustres e luminárias refletem as composições: durante o dia, internamente, e à noite, externamente. São vitrais em sintonia com uma plasticidade diferente daquela que é simbolizada nas ogivas medievais. Procuro aqui demonstrar o que é possível notar pelo simples ato de observação. As cores das pinturas estão modificadas, assim como o piso – condições que alteram o conceito original, tornado tudo mais eclético, isto é, com mistura de conceitos visuais adversos que o povo inicialmente estranha e depois assimila. Além disso, o neon exibe a mensagem principal evocativa da vitória do Arcanjo em luta com os anjos dissidentes do Paraíso, “Quem como Deus”. Mensagem localizada sobre uma cruz acima do Altar-Mor e repetida nos ladrilhos do piso do corredor central da nave. O neon também é usado no contorno interno do nicho central de São Miguel e junto à representação de sua imagem na parede externa, convocando os fiéis à proteção do Arcanjo. O jardim interno é convite à meditação – o padre Severino Cícero Ferreira transformou-o e deixou-o bem cuidado. A conservação continua sob ordens do Monsenhor João Bosco de Carvalho. Conceitualmente, o templo resguarda em sua forma a transmissão de uma idéia de cultura religiosa, na qual um arquiteto (Prometheu da Silveira), provocado pelos monumentos modernizantes dos meados do século XX, soube criar para diferenciar a paisagem urbana piquetense no contexto conservador valeparaibano. E com a moldura estetizante dos picos das montanhas mantiqueiras engalanadas pelas muitas águas e matas.

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - Setembro de 2009.

 


Matriz de São Miguel com outras cores, após a reforma.
Foto de Lety

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