PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Romarias e Peregrinações


Em frente à antiga Basílica de Aparecida, o padre João Baptista Seraphim, então Pároco de Piquete,
e a Pia União das Filhas de Maria, com sua presidente vitalícia, Maria de Lourdes Ferreira
(D. Mariquinha), quando de uma romaria ao Santuário Mariano, na década de 1950.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta

A Tradição das Romarias a Aparecida

São raras as famílias católicas brasileiras que não têm em seus guardados uma fotografia tirada por algum lambe-lambe em frente ao Santuário Mariano de Aparecida, quando em romaria à imagem milagrosa da padroeira do Brasil. Esses fotógrafos, cada vez mais raros, mais do que simples profissionais, foram os responsáveis pelo registro desse exercício de fé. A tradição das romarias chegou ao Brasil trazida pelos portugueses durante o período colonial. Também conhecidas como peregrinações, as romarias são jornadas empreendidas por motivos religiosos a um santuário ou a algum lugar sagrado e milagroso, aonde as pessoas vão pedir graças, cumprir promessas e agradecer favores recebidos. Na diversidade dos contextos históricos e geográficos, as romarias sempre apresentam algo em comum: o costume de percorrer grandes distâncias, rumo ao local onde são concedidas, de modo especial, graças e favores espirituais. Com esse motivo, os peregrinos enfrentam o desafio de longas caminhadas, fome, sede, cansaço, às vezes doenças e tantas outras dificuldades. As romarias constituem, sempre, expressões de grande fervor religioso. Uma promessa feita quando, normalmente, já se esgotaram os recursos humanos para se resolver uma situação difícil, representa um ato de fé e confiança. O cumprimento de uma promessa é um agradecimento, de forte conteúdo simbólico, como o portar vela acesa, o oferecimento de um retrato, de uma perna de gesso ou de uma muleta numa sala de ex-votos. A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu no século 18, quando, em outubro de 1717, chegou a Guaratinguetá a notícia de que o conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida e Portugal, governador da capitania de São Paulo e Minas de Ouro, iria se hospedar na povoação, a caminho de Vila Rica, na região das minas gerais. A população alvoroçou-se para receber o ilustre visitante. Encarregados de garantir o almoço da comitiva, três pescadores – Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves – navegavam no rio Paraíba do Sul em busca de peixes. Naquela tarde de 1717, o rio não estava colaborando com os pescadores: as redes voltavam vazias para o barco e os três amigos passaram horas sem conseguir um único peixe. Já estava anoitecendo quando a rede trouxe ao barco um pequeno objeto de aproximadamente 39cm – tratava-se do corpo de uma imagem feita de barro. Novamente atirada à água, a rede trouxe um minúsculo objeto de forma circular, causando espanto aos pescadores – era a cabeça da imagem. Montando a peça, perceberam que era a imagem de uma santa negra, de uma Nossa Senhora da Conceição. Os pescadores a acomodaram na pequena embarcação e continuaram o trabalho. Ao recolherem novamente a rede, outra surpresa: estava cheia de peixes. Eufóricos, os pescadores recolheram diversas vezes a rede, que agora voltava sempre farta de peixes. Este seria o primeiro milagre atribuído à imagem que havia aparecido, a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Durante quinze anos, Felipe Pedroso ficou com a imagem em sua casa, onde recebia várias pessoas para rezas e novenas. A devoção foi crescendo entre o povo da região e muitas graças alcançadas pelos que oravam diante da imagem. A fama dos poderes extraordinários de Nossa Senhora foi se espalhando, levada para a região das minas e de lá para todo o país. Dessa maneira, chegou a Piquete, nos primórdios de sua povoação, ainda no século 18, trazida por tropeiros. A partir de então, cada vez mais romeiros provenientes do Sul de Minas desciam a Mantiqueira rumo à imagem milagrosa. A eles muitas vezes se somavam peregrinos piquetenses. Com o passar dos anos, foram inúmeras as romarias que, partindo de Piquete, se dirigiam ao santuário de Aparecida. Ainda hoje, como há dois séculos, quando os romeiros ou devotos entram na Basílica e o olhar ansioso e perscrutador descobre o precioso nicho iluminado com a miraculosa imagem de Nossa Senhora Aparecida, se sentem tocados por emoção indescritível. Renovados e fortalecidos na fé, retornam para suas cidades de origem.

Jornal "O Estafeta" - Outubro de 2009
Piquete, SP


Pe. Oswaldo de Barros Bindão e paroquianos de Piquete durante romaria a Aparecida.
Foto de 21 de abril de 1936 - Jornal "O Estafeta


Casamento em Aparecida - Família Mota
Arquivo Mª Auxiliadora M. G. Vieira

 

As Peregrinações

Peregrinar é uma das atividades humanas mais marcantes para representar a conquista cultural que coloca os seres frente a si próprios e a uma expressão divina, à qual é atribuída uma função primordial, da criação aos eventos marcadores das trajetórias. É a maneira pela qual os humanos interrogam-se sobre o seu destino, papel, razão de ser, e perguntam-se, entre deslumbrados e inquietos, sobre a grandeza do espaço universal no qual mergulham, e a motivação que conduz o seu protagonismo. Desde os primórdios da vida civilizada os homens e as mulheres, sobre o substrato territorial no qual vivem, migram, movimentam-se à busca da sobrevivência e peregrinam à busca do absoluto, da razão da existência e da divindade à qual atribuem o sentido da existência. Invocam proteção, cultuam e rendem manifestações movidas pela fé. Dos povos chamados primitivos aos evoluídos na escala civilizatória, a religiosidade manifesta-se em cultos a imagens personalizadas como semelhantes aos humanos, incluindo caracteres físicos representativos de etnias, ou a figuras criadas por um imaginário complexo, ou mesmo, às forças da natureza ou componentes naturais dados como vitais: a própria Terra, a água, o sol, e elementos energéticos, entre outros. Sem nos determos especificamente nas etapas pelas quais passam comunidades manifestando suas preferências ideologizadas de fé, lembramo-nos de que, à medida que um grupo domina o outro em conquistas do espaço vital, o dominante impõe sua religiosidade como símbolo civilizatório, conduzido, entretanto, como fórmula de poder. Assim, a catequização dos habitantes naturais das áreas de colonização moderna deu-se pela cristianização imposta pelos conquistadores, muitas vezes à custa do sangue e do sacrifício. A cruz era levantada, com astúcia e força, para impor, definir e comandar, sob aceitação tácita ou revoltada. O uso de métodos educativos e sedutores interpunha-se aos relatos primordiais de origem, atualizando ideários com as bênçãos do batismo, a promessa da vida eterna e o conforto da espiritualidade. Da exploração do meio ambiente em nome do capitalismo gerou-se todo o sistema geopolítico que configura o planeta nos países e áreas de influências. Reduzindo o tema a uma fórmula mais sintética de análise, temos, no Brasil, a retratação desse processo, pelo qual, até hoje, mantemos as idéias de exploração e ocupação debatidas, com os resultados que conhecemos pelos efeitos e pelas manifestações culturais que marcam nossos eventos, perfis, atos públicos ou particulares, códigos de honra e sistemas de comportamento. A busca do divino invocado como primordial de ação e configuração espiritual, e a peregrinação religiosa no Vale do Paraíba marcam-se, desde o período colonial, pela antiguidade da colonização da área, como fundamentadoras e diretrizes. Sem falar das velhas trilhas indígenas, de cujos motivos pouco se sabe, pois constituíam migrações não apenas de caráter utilitário na busca de alimentos, mas de registros colocados na natureza – nas pedras e nos caminhos –, à procura do imponderável, pois os ciclos lunares e solares, em suas manifestações climáticas e sazonais, eram desafios a ser interpretados, e para tal, o mágico se propunha. Os mitos invocavam, desde as origens, o sentido da vida e suas manifestações. Os percursos, originalmente feitos a pé, eram repetidos por séculos. Alterações somente eram provocadas por ações de técnica ou por motivos de força maior. Os roteiros sempre eram patrimônios de gerações em transmissão oral. Registros documentais dão conta de peregrinações muito antigas, na região da Mantiqueira, dos que se instalaram desde o século XVII e XVIII à busca do gentio (o indígena) para ser escravizado, e do ouro que, descoberto, atraiu muita gente e permitiu extensivo povoamento. Nos núcleos com maior adensamento, os centros religiosos se impunham a serviço da própria ordem administrativa. Eram as capelas curadas, isto é, com o vigário (o cura) instalado, que davam autonomia funcional aos aglomerados, inicialmente como freguesias e, posteriormente, como vilas. A busca do ouro, os caminhos abertos, a instalação provisória e depois permanente, eram trabalhosos e perigosos. Invocar imagens em nome da fé, como protetoras, era fundamental. Santos e santas invocados pontuaram esses caminhos e os núcleos habitados e concentrados em torno das capelas. No conjunto, as cidades valeparaibanas têm os seus nomes sempre adstritos ao nome de um santo ou santa, ou à figura divina considerada maior. A exemplo das peregrinações européias de base medieval, registram-se, secularmente, no Vale do Paraíba, as que se fazem hoje pontuadas pelo Caminho da Fé. É importante considerarmos a questão das peregrinações no momento em que se comemora mais uma festa de Nossa Senhora Aparecida, que atrai grande número de peregrinos e devotos da que é considerada a Padroeira do Brasil. Por outro lado, as cidades valeparaibanas estão se integrando como Estâncias Religiosas de Peregrinação no chamado Caminho da Fé, com seus respectivos padroeiros e principais referências no campo da santidade, como é o caso de Guaratinguetá e Santo Antônio de Sant’Ana Galvão.

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - Outubro de 2009



Carlos Alves Beraldo em Aparecida, na década de 50
Arquivo Mª Auxiliadora M. G. Vieira


Alunos do Grupo Escolar de Piquete e do catecismo paroquial, em romaria organizada pela Profª Silveirinha,
com a ajuda de Maura Mineiro e Arlindo de Moura.
Foto de 1938, frente à antiga Basílica Nacional de Aparecida, publicada no Jornal "O Estafeta".

Peregrinação ao Santuário Mariano de Aparecida

Não há quem não tenha guardado em casa uma fotografia tirada em Aparecida. Ir a esse Santuário Mariano faz parte dos sonhos da maioria dos católicos do centro-sul do país que, pelo menos, uma vez na vida o visitam. Ao longo dos anos, gerações de romeiros deixaram registrados essas peregrinações através de retratos lambe-lambe tirados por dezenas de fotógrafos postados no largo da Velha Basílica. São fotos de casais, de famílias, grupos de estudantes, trabalhadores, moradores de diferentes paróquias que, por intermédio dessas imagens, deram testemunho de fé posando diante da igreja de duas torres, santuário da imagem milagrosa da padroeira do Brasil. A devoção e culto à Imaculada Conceição Aparecida fazem parte da cultura religiosa do piquetense. Nasceu com os primeiros povoadores que aqui se estabeleceram e fortaleceu-se com a chegada do padre João Marcondes Guimarães a Piquete, em 1934, quando passou a administrar a Paróquia de São Miguel. Até aquele ano, por mais de quatro décadas, Piquete esteve sem padre residente. Seu primeiro vigário, o italiano Francisco Filippo, que ficara pouco mais de um ano, foi embora em 1890. Então, a Paróquia de São Miguel ficou sob a administração de padres de Lorena e do Embaú. Nesse longo período, esporadicamente a comunidade recebia a visita de missionários redentoristas, que pregavam os prodígios de Nossa Senhora Aparecida. O Padre João Guimarães, que cultivava e propagava a devoção à Virgem Imaculada, fortaleceu a fé e a devoção a Nossa Senhora. Recém-ordenado e residindo no município, trouxe novo ânimo aos paroquianos. Não media esforços para conquistar novos fiéis. Percorria os quatro cantos do município sempre levando a Boa Nova do Evangelho. Para ele, anunciar a Palavra de Deus era tão importante quanto ensinar o catecismo; trouxe para os paroquianos um novo estilo de pregação. Com ele cresceu a espiritualidade do piquetense, floresceram as associações religiosas e obras assistenciais e de caridade. Seu zelo para com a paróquia era grande. Ia além do cumprimento das suas tarefas, vivendo com piedade e retidão o seu ministério presbiteral. Seu exemplo contagiava a todos, de maneira que desabrochou a catequese na matriz, nas capelas urbanas e dos bairros rurais. A devoção mariana do padre João Guimarães estimulou os fiéis à prática da peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora. A partir de sua chegada, todos os anos a Paróquia de São Miguel organizava romarias para Aparecida. Umas, com grande números de romeiros; outras, nem tanto. Havia romaria de congregados marianos, da  Pia União das Filhas de Maria, da Cruzada Eucarística, do Catecismo Paroquial, dos operários da Fábrica, e outras. Anos mais tarde, foi criada a romaria ciclística Padre Juca. Sempre romeiros piquetenses dirigiram-se a Aparecida, a pé ou a cavalo. Por muitos anos, o trenzinho piqueteiro foi o transporte usado pelos peregrinos para chegarem até a Imagem Milagrosa e agradecer-lhe as graças recebidas. Após participar da missa, visita à sala dos milagres e ao porto de Itaguaçu, lugar onde apareceu milagrosamente a Imagem da Imaculada, em outubro de 1717, posavam para fotografias. No fim do dia, os peregrinos retomavam a Piquete, renovados na fé, cheios de esperança e fortalecidos para o embate do dia-a-dia.

Jornal "O Estafeta" - Abril de 2007

 


Casamento na antiga Basílica de Aparecida: Neuza Lima e Geraldo Castilho
Arquivo Mª Auxiliadora M. G. Vieira


Mariinha e Geraldo Mota em Aparecida - 1947
Arquivo Mª Auxiliadora M. G. Vieira

 

 

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