PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
TRADIÇÕES E FOLCLORE

 

MÚSICAS E DANÇAS


Carnaval 2005 - Piquete, SP
Foto de Lety

Na vida de nossa pequena cidade de Piquete, de cinqüenta anos atrás, havia de tudo, menos o clube social organizado. Mas em qualquer casa de família e sobre qualquer pretexto, às vezes sem pretexto algum, reuniam-se moças e rapazes, e ali estava formado um baile. E dançava-se de tudo: samba, xote, mazurca, marcha, charleston. Tocavam-se e dançavam-se também a valsa, o tango, a polca, e quando das festas populares, outros tipos de músicas se faziam presentes.

 
Grupo folclórico de Lorena, SP apresentando uma congada.
Piquete, SP - Foto de Lety

A primeira música que gravei na memória, a não ser, é claro, as canções de ninar ouvidas nos braços maternos, foi a cantada e dançada numa congada, isso lá pelos idos de 1922. Estávamos brincando em frente de nossa casa, quando surgiu das bandas do Poço Fundo, um grupo de pessoas formando duas filas. Todos pretos, mas vestidos de branco: homens, mulheres e crianças. Era uma congada que festejava o dia da libertação dos escravos. Passos cadenciados ao ritmo de violas, caixas e reco-recos, numa melodia simples, de compasso binário, mais triste que alegre. Bem à frente de nossa casa fizeram evoluções, sempre cantando num dueto de sexta. Essa dança, conforme diz o nome, procede do Congo e foi trazida ao Brasil pelos escravos. Ainda hoje se dança a congada, só que atualmente é permitida a presença de brancos e usam guizos nas ombreiras, marcando cadência, voluteando pequenos pedaços de pau roliços. A letra, também triste, relembrava a condição de escravos e era mais ou menos assim:

Em simples casinha
livre nasci,
mas preso e vendido,
cativo me vi.

Os brancos eram livres,
não sofriam o rigor.
Mas eu, por ser negro,
até tinha um senhor.

A princesa Isabel
foi quem nos libertou.
A ela devemos
esse grande favor.


Outra dança com música apropriada era a Cana Verde. De origem portuguesa, dançava-se em círculos, tantas pessoas que quisessem, cantando desafios humorísticos. A cadência era marcada, às vezes, com um bate-pé e outras com palmas, ao som de violas, machetes e cavaquinhos. Só homens, sendo o chefe um dos violeiros que tinha como ajudante o mestre do sapateado ou o mestre das palmas. Tanto as palmas como o sapateado podiam ser simples ou repicados, dependendo da ocasião e da cadência exigida. Ritmo binário um pouco ligeiro. Eis duas quadras do desafio:

- O senhor que é tão sabido
me "arresolva" esta conta:
vinte e cinco guardanapos
dois vinténs em cada ponta?

- Eu já resolverei
como bem me parecer,
vinte e cinco vezes oito
vinte mil réis vem a ser.

Quando não era o desafio, improvisavam versos humorísticos, assim:

- As moças do Poço Fundo
namoram Deus e todo o mundo.

- As meninas do Itabaquara
passam papel carmim na cara.

- As outras da Tabuleta
Só sabem andar de muleta.

- As moças da Boa Vista
já estão na minha lista.

Às vezes, após um sinal dado ao violeiro, era acrescentado mais um verso na estrofe, assim:

As zinhas da rua de baixo
só não namoram o sapo
por não saberem qual o macho.

Ou assim:

Eu me chamo João Teixeira
e já estou de boca ardendo
de beijar moça solteira.


Folia de Reis em Piquete, SP
Foto de Lety

A Folia de Reis só era realizada no período compreendido entre o Natal e o dia 6 de janeiro. Visava a homenagear os Santos Reis Magos, mas os ensaios começavam nos meados de novembro e era comum ouvir-se durante esse tempo o bater seco dos tambus e a voz estridente dos cantadores. Não se dançava, a não ser uns requebros simples para ajudar a cadência do canto. Saíam de casa em casa, esmolando em versos apropriados e a renda dessas esmolas era para um "ajantarado", dia 6 de janeiro, com a participação de todos os que formavam o grupo. Contava-se que enquanto o grupo principal entretinha os donos da casa, na porta principal ou na sala da frente, outro grupo, adrede preparado, visitava o galinheiro para garantir a presença de "penosas" no referido ágape. Contava-se ainda que, às vezes, num requinte de ironia, convidavam-se as pessoas reconhecidas como "pão duro" e de quem foram surrupiadas as galinhas, para participarem dos comes e bebes. Chegando à porta da casa, limpavam a garganta e cantavam:

Senhor dono da casa
vamos entrar no seu salão
pra festejá os Reis Magos,
pra fazer a saudação.

E daí, em versos, era contada toda a história do nascimento de Jesus, dos Três Magos e da estrela que os guiou. Nos intervalos da cantoria, conforme a casa, eram-lhes servidas rodadas de aguardente e salgadinhos, além da esmola propriamente dita.


Jongueiros em Piquete, SP
Foto de Lety

O Jongo é outra espécie de dança que desapareceu de nossa terra. Música e dança típicas da África, parecia ser a válvula de escape de um povo que trazia na lembrança as senzalas, o tronco e a chibata do feitor. Posteriormente, passou a ser simples dança de diversão, embora respeitasse os mesmos princípios de origem. Os versos consistiam de charadas desafiantes da argúcia dos participantes. Um jongueiro lançava o desafio, cantando um "ponto" e cabia aos demais "desatá-lo", isto é, matar a charada. As vezes, levava mais de uma hora para que alguém o conseguisse e só então era permitido a esse alguém o lançamento de outro ponto. Somente instrumentos de percussão como o tambu, o quinzengue e outras caixas menores, todos "temperados" ao calor da fogueira.
Exemplo dos pontos:

Passei na porta da igreja
(r) rato tava (r) roendo pé de santo.
Caruru nasceu na pedra
também quero aproveitá.

Depois de lançado o ponto, os outros participantes cantavam o segundo verso todas as vezes que o jongueiro repetia o primeiro:

Jongueiro: - Caruru nasceu na pedra...
Todos: - Também quero aproveitá.

E ai ficavam, dançando aos pares, sem se tocar, com requebros de corpo e ameaças de rasteiras. Outra particularidade dessa dança era a umbigada que obrigatoriamente era dada, embora, às vezes, simuladamente. Dizem que isso era porque, na sua origem, essa dança fazia parte do ritual da procriação e que a umbigada representava o ato genésico. Com a nossa curiosidade de rapazola perguntávamos o que queria dizer tal ou tal ponto e os jongueiros mais condescendentes nos respondiam, por exemplo:

Tanta madeira no mato
embaúva é coroné.

queria dizer o seguinte: entre outros competentes, o mandão, o prefeito ou o delegado não passavam de joões-ninguém, incapacitados para dirigir ou governar. (Embaúva é uma das piores madeiras de nossas matas). No caso de:

O pescoço do burro é pequeno
pra tanto cincerro.

correspondia ao seguinte: um cidadão que ocupa muitos cargos e que não funciona em nenhum por ser inoperante ou apenas inepto. Para ilustrar melhor, vamos contar uma piada de Cornélio Pires, um dos maiores folcloristas brasileiros:

"Uma senhora estava contando vantagem de seu marido:
Pois é, comadre. O Juquinha foi eleito ontem presidente do Arranca Toco Futebol Clube. Olhe que ele já é tesoureiro do Asilo dos Orfãos, provedor da Santa Casa, presidente da Maçonaria, secretário da Cooperativa dos Plantadores de Batata Inglesa, presidente da Irmandade, Juiz de Paz, Diretor da Banda de Música e Conselheiro da Sociedade Protetora dos Animais. O que é que a comadre acha disso?
A comadre, que conhecia bem as limitações do compadre e sabia que a única coisa de útil que fazia nas reuniões dessas entidades era, às vezes, dar número, responde: é... eu acho que o pescoço do burro é pequeno pra tanto cincerro..."

Não podemos omitir aqui os nomes de Benedito Jacó, Amaro Salgado, suas filhas e sua irmã D. Brasilina, Sebastião Mendes Leal, João Miguel e Benedito Miguel, afamados jongueiros daqueles tempos.

O Cateretê, agora em completo desuso entre nós, teve sua época, que me lembre, pelas décadas de 1920 a 1950. Tivemos a oportunidade de apreciá-lo muitas vezes e algumas delas na residência do Sr. Antônio Ramiro, já falecido. É uma dança também conhecida pelos nomes de Bate-pé, Chiba e Catira. Existia ainda o Cateretê mineiro, que difere do nosso, dançado só por homens. Sua melodia, de ritmo binário, é simples e, às vezes, apressado. Dançava-se em círculos e seu movimento é ao contrário do ponteiro do relógio. A letra é variada, podendo ser um desafio ou a narração humorística de um fato, quando os participantes dão sua nota de repentistas.

E havia os bailes comuns. No Carnaval a nossa banda de música se desdobrava em quatro partes, quer dizer, formava quatro grupos. Um ia para o Cassino dos Oficiais da Estrela, outro para os bailes no prédio da Prefeitura, outro para o hotel de D. Maricas Eufrásia e o último para o cinema, a fim de musicar os filmes mudos de então. Fora do Carnaval, como dissemos antes, dançava-se em qualquer casa de família. Bastava a reunião de três pares de moços e já mandavam chamar o Cocó e Pedro Coelho com seus clarinetes, o João Ângelo com seu violão e o Zé Caxixa com o reco-reco, e estava formado o baile. Em outras casas eram o Henrique Masiero, Antenor Ramos, José Palma e outros músicos. E tinha também os forrós de sábado, animados à sanfona, lá pelas bandas da Vargem Grande, Itabaquara, Tabuleta, etc. Terminada a função, já madrugada, ouvia-se ainda alguém mais animado, em demanda de sua casa:

Na Pavuna, dum, dum, dum,
Na Pavuna, dum, dum, dum,
tem um samba
que só dá gente reúna,

Dondoca, Dondoca,
levanta a saia
quero ver sua pernoca.


Carlos Vieira Soares
Folclore de Piquete
(Pequena Contribuição)

 

voltar

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.