PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
TRADIÇÕES E FOLCLORE

 
Semana Santa em Piquete, na atualidade
Foto de Idelmo Reis

 

 

 Quaresma e Semana Santa no Piquete de Ontem

Metade da noite de terça-feira do Carnaval para quarta-feira de cinzas. A folia carnavalesca encerra-se nessa hora. Nem um minuto a mais, pois nesse momento, terminado o entrudo (termo usado para designar o Carnaval antigo), começava o período de penitência. Nada de festa, de músicas alegres, de bailes, de caçadas e ruídos excessivos. O gramofone e, mais tarde, a vitrola de corda, eram recobertos por um pano preto, assim como nas igrejas as imagens eram veladas por um pano roxo. Quarenta dias mudos. As espingardas, depois de devidamente azeitadas, eram dependuradas de boca para baixo, no fumeiro, com rolhas de palha de milho tapando-lhes os canos, para evitar entrada de marimbondos. Que gaviões acabassem com os pintos no terreiro! Era a quaresma, tempo de respeito, de abstinência, de luto e de dor, e qualquer coisa que transgredisse essa ordem era tida como pecado mortal. Nessa quarta-feira de cinzas, à noite, depois da Via Sacra, havia a cerimônia da imposição das cinzas. O sacerdote, ao fazer uma cruz de cinza na testa dos fiéis, e que era o produto queimado das palmas do Domingo de Ramos do ano anterior, dizia: "Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris", ou seja: "Lembra- te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar". Daí em diante, todas as quartas, sextas e domingos, havia Via Sacra na Matriz, concorridíssimas... Às quartas e sextas, jejum e abstinência, penitências necessárias em preparação às comemorações da Semana Santa. Domingo de Ramos, dia em que se comemora a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém. A igreja repleta de fiéis, pela manhã. O oficiante ordena que todos se retirem para que se possa organizar a procissão de Ramos. O coro canta os hinos próprios: "Glória, laus, et honor, tíbi sit Rex Chríste Redemptor": "Glória e honra ao Cristo Rei". O povo, portando folhas de palmeiras, responde: "Rei bom, Rei Clemente. Glória a Ti, filho de Davi". À tarde, em nossa terra, havia a procissão do Encontro. Em outros lugares, essa procissão é realizada na terça-feira. Aqui, não se sabe por quê, ela é no Domingo de Ramos. Lá da igreja da Vila de São José sai a imagem de Nossa Senhora das Dores; da Matriz sai a imagem do Senhor dos Passos carregando a cruz. Encontram-se na Praça da Cadeia. O orador sacro, de um púlpito, fala sobre o significado da cerimônia. O povo contrito acompanha as palavras com respeito e devoção. Segunda, terça e quarta-feira, Via Sacra com o templo repleto: "A morrer crucificado, teu Jesus é condenado, por teus crimes, pecador". O povo ajoelha-se e levanta-se, a cada estação. Quinta-feira santa. Pela manhã, missa festiva pela instituição da Santa Eucaristia. O coro só pode cantar em latim. Comunhão geral em comemoração à Páscoa do Senhor. À noite, a tocante cerimônia do Lava-pés: doze meninos vestidos de apóstolos, descalços, deixam que o ministro, representando o Cristo, lhes lave os pés, após o que recebem uma pequena garrafa de vinho e um pão simbolizando o sangue e o corpo do Salvador, enquanto o coro canta o diálogo de Cristo com Pedro: "Senhor, tu me lavas os pés?" "Si non lavero tíbi pedes, non habebis partem mecum", isto é: "Se não deixares lavar teus pés, não terás parte comigo". O coro continua: "Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei". Após essa cerimônia, a procissão interna do Santíssimo, que, depois, era encerrado numa urna fora do adro principal da igreja e adorado toda a noite pelos fiéis, que faziam escala de hora em hora. Terminava a vigília pela manhã de sexta-feira, com a missa dos pré-santificados. Às quinze horas, Via Sacra solene, a cerimônia da descida da cruz e o início do beijamento. Por essa hora, a cidade estava de luto completo. As fábricas paralisadas. As locomotivas com os apitos amarrados e o povo com ar solene, cabisbaixo, não ousando levantar a voz. As barraquinhas do "seu" João Roque e de d. Laura Amorim só vendiam bolinhos de bacalhau e pastéis de palmito. O mata-bicho estava proibido. Numa só refeição obrigada pelo jejum, a abstinência de carne era rigorosamente observada. Só animais de sangue frio: peixe ou camarão. Também eram servidos paçoca de amendoim e pinhão cozido, preparados na véspera, já que as famílias mais ortodoxas apagavam seus fogões pelo meio dia de quinta-feira, quando se encerrava qualquer atividade de trabalho. A procissão do Senhor Morto era o máximo em espetáculo de fé e respeito. A música, a mais apropriada possível: só marchas fúnebres, nas quais a banda procurava esmerar-se. Sobressaíam as matracas de madeira. Encerrada a procissão, em que eram representadas as principais figuras da tragédia do Gólgota, continuava o beijamento. A par dessas solenidades oficiais da Igreja havia as romarias ao Santo Cruzeiro. Durante o dia e a noite de sexta-feira, famílias inteiras subiam o morro, cada uma carregando, por penitência, pedras apanhadas na rua. Os fazedores do Judas já se empenhavam na confecção do "Traidor", cada qual procurando imitar uma pessoa ou autoridade, numa critica muda mas sobremaneira autêntica, que terminava ao meio-dia de sábado, quando, após a leitura do testamento do morto, era o mesmo malhado, rasgado aos pedaços e queimado pela turba de moleques. A leitura do testamento constituía a parte engraçada do ato, pois um "advogado", geralmente o responsável pelo Judas, trepando numa barrica ou caixão, arengava: "Meus senhores, em pleno uso da razão e pela minha livre vontade, quero que todo o mundo saiba que vou repartir meus bens da seguinte forma: ao meu amigo fulano de tal deixo o pé direito do sapato que comprei no Anacleto Turco. Ao beltrano deixo meu paletó de brim riscado, porque o dele já está parecendo estopa desfiada. Ao meu vizinho sicrano" (e aqui ficava estabelecida a identidade do Judas, pois o objeto citado era por demais conhecido) "deixo meu cavalo vermelho, mordedor de gente, ferrado dos quatro pés e das mãos também. Ao meu vizinho do lado de cima deixo uma escova de dentes quase nova e com pouco uso". E assim por diante... Pela manhã do Sábado de Aleluia, na igreja havia várias cerimônias. De início era a bênção do Fogo Novo. Apagadas todas as lâmpadas do templo, o oficiante iria acender, à porta da igreja, com fogo natural, isto é, com um pouco de brasa assoprada até fazer uma pequena chama, um círio de cera pura, e com essa pequena vela seriam acesas todas as velas do templo, numa cerimônia tocante. Em seguida, vinha a bênção da água, e a Ladainha de todos os Santos, e a Semana Santa terminava com a missa da Aleluia, ao meio-dia.

 
Semana Santa em Piquete, na atualidade
Foto de Idelmo Reis

Nessa hora, era descerrado o pano que encobria o altar os sinos repicavam e os foguetes estouravam, enquanto o coro entoava o solene "Glória a Deus nas alturas". Lá fora, as máquinas apitavam e a molecada procurava o Judas, cada grupo tendo em vista, de antemão, qual lhe deveria caber para
a malhação de praxe. Após a leitura do testamento, a malhação e o estouro das bombas colocadas em suas vísceras de palha, pano e capim, os meninos saíam aos magotes, tirando a aleluia. Iam em grupos de venda em venda, gritando: "Aleluia, aleluia, peixe no prato e farinha na cuia", pedindo balas, pinhões e dinheiro. Quando um negociante mais liberal jogava um punhado de moedas formava-se um bolo de moleques, cada qual procurando apanhar o maior número de níqueis e quase sempre havia escoriações de caráter grave. Outras vezes quando se encontravam grupos antipatizados por rixas antigas ou por bairrismo sobravam sopapos e pontapés. Terminada a Aleluia de rua, os comentários: "Lá no seu Joaquim Serafim eu peguei seiscentos réis, que vão dar pra ir ao cinema duas vezes". Outro: "Eu só peguei pinhão e bala, além de uma topada que me escalavrou o dedão". Às 19hs na Matriz, a cerimônia da Coroação de Nossa Senhora por um grupo de meninas vestidas de anjos, enquanto o coro entoava o "Regina Coeli". Depois, a Bênção do Santíssimo e os cumprimentos pela Páscoa e Ressurreição do Senhor. E as festas iam até a madrugada do Domingo da Ressurreição, quando, às 5 horas, saía a Procissão do Ressuscitado. A Banda de música, já então executando marchas e dobrados alegres, e o povo, como que ressurgido para uma nova fase de vida, mostrando-se feliz e com ares festivos.

Carlos Vieira Soares
"Rememorando..."


Semana Santa em Piquete, na atualidade
Foto de Idelmo Reis

 

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