A
Vingança do Berimbau Miguezim de Princesa Poeta popular
paraibano |
Superado pelo
tempo, Ensinando muito mal, Fabricando mil diplomas Para entupir
hospital, O doutor da faculdade Botou, com toda maldade, A culpa
no berimbau. Disse o doutor Natalino Que o baiano é um
mocó, Sem coragem e inteligência, Preguiçoso de dar dó, Só liga
pra carnaval E só toca berimbau Porque tem uma corda
só. O sujeito ignorante Não conhece o berimbau, Que
atravessou o mundo Com toda a força ancestral. Na fronteira da
emoção, Traz da África a percussão Da diáspora
cultural. Nem Baden Powel resistiu À percussão
milenar, Uma corda a encantar seis Na tristeza camará De Salvador
da Bahia. Quem toca e canta poesia Na dança sabe
lutar. O doutor, se estudou, Na certa não aprendeu
nada: Diz que o som do Olodum Não passa de uma zoada E a cultura
baiana É uma penca de bananas, Primitiva e
atrasada. Jimmy Cliffi, Michael Jackson, Paul Simon e o
escambau Se renderam ao Olodum Com seu toque genial, Que nasceu
no Pelourinho E hoje abre caminho No cenário mundial.
O baiano é
primitivo? Veja só o resultado: Ruy foi o Águia de Haia; Castro
Alves, verso-alado De poeta condoreiro, E gente do mundo
inteiro Se curvou a Jorge Amado. Bethânia, Caetano e
Gil, Armandinho, Dodô e Osmar, Gal Costa, Morais
Moreira, Batatinha a encantar Caimy, João, Bossa Nova, Novos
Baianos são prova Da grandeza do lugar. Glauber, no Cinema
Novo; Gregório, velha poesia; Gordurinha, no rojão; Milton, na
Geografia; Anísio, na Educação; Dias Gomes, na encenação; João
Ubaldo e Adonias. Menestrel da cantoria Temos o mestre
Elomar, Xangai, Wilson Aragão, Bule-Bule a improvisar, Roberto
Mendes viola A chula–samba de Angola, Nosso samba de
além-mar. Se eu fosse citar todos Que merecem
citação, Faria um livro de nomes Tão grande é a
relação. Desculpe, Afrânio Peixoto, Esse doutor é um
roto Procurando promoção! Com vergonha do que
fez: Insultar toda a Nação, O tal doutor Natalino Pediu
exoneração E não encontra ninguém, Nem um nazista do além, Para
tomar a lição. O baiano é pirracento, Mas paga com bem o
mal: Dá uma chance a Natalino Lá no Mercado Central De ganhar
alguns trocados Segurando o pau dobrado Da corda do
berimbau. |