LITERATURA DE CORDEL



Tragédia do Caboclo
Álvaro Cerqueira Cavalcanti

Nesse mundo im que vivemos,
Dá-se causo meu patrão,
Qui nois nunca qui sabemos
dizê quá foi a razão.
Não havendo home sabido,
Ninhum douto intindido,
Qui daquele acunticido
Saiba da ixpricação.

Sim sinhô, vou lhe conta
Um cauzo disse qui eu falo,
Qui eu mi arripio im conta-lo,
E voincê im me iscuta-lo
Também vai se arripiá!

Minha terra é Muriciy
Estado das Alagoa.
Foi lá patrão, qui eu nasci,
E só posso acha-la boa,
Cuma diverdade é.
E assim lhe dize eu venho
Qui o cauzo foi lá no ingenho
De um famozo coroné.

Morava lá numa gruta
Num ranchinho isparraiado,
Paricendo uma arapuca,
Só a metade tapado.
Um pobre pai di famia.

Dento do rancho se via
Quato vida vegetando:
O cazá e dois fiinho,
Um sendo ainda novinho,
O outo já cricidinho,
Qui já também briquitando,
Era a ajuda do cabôco.

Qui toupeiro, gegê, e brouco,
Pra famia ali vivia.
Sempe ao “frei-Jorge” agarrado,
Trabaiava noite e dia
Pra dá conta do roçado
E na sua eterna luta,
Continte do seu vive,
O cabôco ali na gruta,
A muito tempo vivendo,
Bispando um dia nascendo,
Vendo um-a tarde morre...

Era a gruta um paraizo,
Ele o cabôco era o Adão,
ela a Eva, meu patrão.
Eu dizê assim percizo.

Vinha a feia noite andando,
Vistindo de luto a gruta.
Entonce a vóis da matuta
Sahia pelo impaiádo
Do ranchinho isparraiado,
Pru dento da iscuridão.
Vois nascida da gaiganta
Da muié mãi, quando canta
Um fio seu aninando.

Meu patrão, vá mi iscutando:
Passou-se a noite, passou-se.
Um dia de ouro nasceu.
Porem um dia mardito,
Qui sendo assim tão bunito,
Esse cauzo aconteceu.

Acunteceu. Cuma foi?
Voincê já vai sabe.
Seis hora pudia sê
Foi pru roçado o cabôco
Fazê distoca nuns toco,
Lá se incontrando cum boi.

Um impestado de um boi

Entonce o cabôco foi
Tirá da roça o marvado.
Correndo prá aqui, prá ali,
Levando tudo di eito,
Mais forem sim havê jeito
Do boi “greguena” sabi...

Dizisperado o cabôco,
De suó todo lavado,
Correndo prá todo lado
Prú riba de péda e touco!

O roçado era incostado,
Bem incostado ao ranchinho.
Já o cabôco afobado,
Gritou chamando o minino.
Qui imbora um tanto franzino,
Mais porem já cricidinho.

Chegou o minino e se trava
A luta, os dois pelejando,
Pedrada e pau atirando,
Mais o boi não acertava
Cum a sahida do roçado.

Tava o minino agaixado
Prú ditrais de uma moiteira,
Pau e peda percurando.
Do pai qui vinha ataiando,
Uma pedrada certeira
Tangida prú braço forte
No boi im toda carreira
Foi cahi lá na moiteira
Levando o minino a morte!!

Uviu-se um grito e mais nada.
Corre o pai lá afrito...
Arrissuou na quebrada,
Muito mais forte outo grito!

Muié... Muié... Eu... matei!!
Eu matei...! Nosso fiinho!!
Cuma foi isso?!Não sei...
Nossa senhora... Me acuda!
Ou muié... Vem cá. Me ajuda
Leva ele pra o ranchinho!!

Tava a muié mamentando
O novinho inda de braço,
Sentada ali no terraço.
Vendo o marido a chamando,
O piqueninho chorando,
Bota no chão e vai vê.

Caicule agora voincê...

Lá chegando a pobezinha,
Ficou de tudinho muda!!
Diz-lhe o marido: Me ajuda,
Leva ela prá o ranchinho!!

A muié tudo iscutou
Tudo vendo sem chorá
Sem dá palavra ficou!
Ajudando a carregá
Prá o rancho o fio difunto!

É triste de mais o assunto!!

Mais porem vou triminá...
Quando no rancho o cazá
Chegaro cum o fio morto
No maió dos disconforto,
O qui incontraro, patrõ?
Tacos de carne de gente,
Do corpinho do inucente,
Num má de sangue afogado,
Qui ali foi isfatiado
Pelos dentes de um barrão!!!

Não foi isso só, patrão...

A pobe mãi da criancinha,
Qui inté ali se mantinha
Sem chora! A dô damnada
De quem dois fio perdeu,
A féis ficá sufocada!!

É qui a mãi disventurada,
Ficou chorando e sirrindo!
E a dô não rizistindo,
A coitada indoidiceu!!

Louca! Correndo prú mode
O qui viu, o qui avistou!
A dizê: Quem me acode?
Quem me mata prú favô?!!
E o cabôco desgraçado
Vendo chão insanguentado,
E os pedaço do inucente!!!
Damnado, rigindo os dente,
Louco di dô pelos fio,
Pelos dois fios quirido,
Viu num armadô di rêde
Qui tinha assim na parede,
Sua pistola. E no uvido
Meteu, pruchando o gatio!!!

Dispois do cauzo, dois dia,
La na mata qui ixistia,
Di tarde tudo silente,
Uviu isso um caçadô:
O fala de um inconciente,
Falando piedozamente,
Quem é qui mais qui Deus pode?
Quem me acode? Quem me acode?
Quem me mata prú favô?!

A doida pouco sofreu,
Prú dipressa morreu!

Nesse mundo im qui vivemos,
Dasse cauzo meu patrão,
Qui nóis nunca qui sabemos
Dizê quá foi a rezão.
Não havendo home sabido,
Ninhum doutô intindido,
Qui daquele acuntecido
Saiba dá ixpricação!

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