YOLANDA GADELHA THEÓPHILO

 

"Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
deixaram somente a memória e as lágrimas de agora."
Cecília Meireles

 

 

A escritora cearense Yolanda Gadelha Theóphilo Gaspar de Oliveira dedicou sua inteligência e criatividade às letras. Casada por setenta e dois anos com o General Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira - também escritor e historiador - homem afável, distinto, inteligente, destacado pelo cavalheirismo, simpatia e cultura, formavam os dois um casal querido e respeitado por todos que com eles conviviam. Era impossível separá-los, separação apenas causada pelos desígnios de Deus.

 


O casal Yolanda e Tácito em 19/08/2009, na comemoração de seu 70º aniversário de casamento

Saudações das bodas de setenta anos
Yolanda e Tácito Theóphilo

Dizem que os aniversários são prestações que pagamos pela vida. Na data de hoje, Yolanda e Tácito nos presenteiam com o exemplo de uma extraordinária união de setenta anos, rara concretização de um ideal sempre sonhado pelos homens: uma longa existência, harmoniosamente pontilhada de amor e realizações.

Em 1939, em uma noite de sonhos como essa, mas em um mundo bem diferente, a Capela do Pequeno Grande se engalanou, pela primeira vez em sua existência, para a celebração de um casamento. Assim aconteceu a união de Yolanda e o primeiro-tenente Tácito. Ela partiu da primorosa residência de Meton Gadelha, em Jacarecanga; ele, da vetusta mansão dos Theophilos para palmilhar os caminhos incertos do mundo e construir o tempo em amorosa cumplicidade.
A carreira militar e os interesses culturais os fizeram percorrer variados caminhos bem distantes de suas casas paternas, tornando-os cidadãos do mundo, convivendo com nomes que fizeram a História. Construíram em sua volta uma vida ordenada e produtiva, porque só desta maneira poderiam refletir suas índoles. Viveram o poder de maneira desapegada e discreta sem a cobrança da ostentação.

A poesia destacou alguns eternos símbolos para ressaltar a relevância dessa data enriquecida por tantos anos felizes. Para uns, a comemoração seria denominada Bodas de Carvalho; para outros, Bodas de Vinho; ambos os símbolos se prestam a apuradas analogias. O carvalho, árvore venerada de todos os tempos, representa a longevidade, a sabedoria e a força. Sua sombra protetora servia de templo sacerdotal para os antigos druidas e sua altura descomunal simbolizava a riqueza espiritual, os valores materiais e morais do homem. O vinho, sangue da videira, foi associado pela simbologia ao amor, à alegria, ao conhecimento e à imortalidade. A alma experimenta em sua companhia, o milagre da vida: a transformação do que é terrestre em espírito livre de todos os laços. O sensato Omar Khayyam aconselhava não abandonar nunca o mágico que essa bebida tem. Ela alça o espírito através da palavra e em seu afã de livrar-se das amarras do mundo, vive o sonho de transcender o tempo. Tácito assemelha-se ao frondoso carvalho aprumado em terreno firme e fecundo. Com disciplina e pragmatismo realista superou os embates da vida. Vestindo por amor e ideal a farda militar, galgou alturas significativas no cenário nacional. Yolanda, a moça do sorriso bonito, apoiada em seu inquebrantável esposo, tal como o vinho, permitiu ao seu espírito beber da fonte de encantamento da vida, para cunhar pérolas literárias.

Queridos tios Yolanda e Tácito, a esses eternos símbolos eu juntaria o nosso regozijo, meu e destes seus selecionados amigos, participantes desses festejos. Assim como o carvalho e o vinho, os amigos são mais preciosos à medida que vão se tornando mais duradouros. Na vida existe um instante de ver, um tempo de compreender e de construir e, por fim, um momento de viver o significado pleno da existência. E esta plenitude que vocês agora alcançaram, conseqüência do contentamento de uma trajetória longa e cultivada com zelo e amor, acompanha-se de valores sagrados. Nada há a dizer com palavras sobre o que o tempo já demonstrou com tanto vigor. O silêncio torna-se virtuoso diante da evidência dos fatos. Uma vida perfeita se faz para quem mais vive na grandeza dos momentos serenos, livres das aflições incertas de um tempo vindouro.
Como lembrou o celebrante das Bodas de Brilhantes desse casal, há dez anos passados, na mesma Capela do Pequeno Grande onde se casaram há 70 anos, estes eternos noivos já fazem parte da história. Deixemos, pois, que ela, a testemunha dos tempos se encarregue de contar sobre suas venturosas vidas.

Diante de nós, prezados amigos, está um casal no qual se consolidaram os mais essenciais valores para a felicidade humana. Sentimentos de bondade, probidade e ética, sempre presentes em seus percursos triunfantes. Parafraseando o inspirado Fernando Pessoa, podemos dizer de Yolanda e Tácito, porque eles são do tamanho do que vejo - e o que vejo são sonhos realizados. Nada mais real o que eu vejo, meus queridos tios: vocês são sonhos realizados; modelos a serem admirados e seguidos! 

Vanius Meton Gadelha Vieira
Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Seção Ceará.
Discurso publicado na Revista do Instituto do Ceará - 2009

Texto de Apresentação do último livro de Yolanda Gadelha Theóphilo
- "Para não esquecer" - lançado em 31 de março de 2011

Caros familiares e amigos

Dona Yolanda, impedida de fazê-lo sem que a emoção a embargue, solicitou-nos que agradecesse a presença e o carinho de todos vocês. Infelizmente, o General Tácito, obedecendo a recomendações médicas, permanecerá em seus aposentos, não podendo desta vez, como sempre acontece, estar aqui conosco, comemorando o aniversário de sua esposa Yolanda.

Qualquer pessoa ligada às artes e em especial à literatura consideraria uma grande honra apresentar um livro de escritora tão consagrada como Yolanda Gadelha Theóphilo. Destaca-se mais a importância do fato por tratar-se de um lançamento no aniversário de 92 anos da autora. Poucas personalidades no mundo das letras atingiram produtivas essa idade provecta. Yolanda Gadelha Theóphilo com brilho e lucidez, mais uma vez nos brinda com os respingos da sua inteligência privilegiada. Sobrevivente de uma grave cirurgia cardíaca, agravada pelos problemas próprios da longevidade, resistindo a uma aparente fragilidade e fortalecida pela sua não conformação com a mediocridade cotidiana, dona Yolanda retornou a sua máquina de escrever para nos contar uma bela história. Sempre afirmou que esse livro seria seu maior presente para o marido, daí ter escolhido a data de seu próprio aniversário, para homenageá-lo. Entendemos essa escolha, pois como ela mesma colocou em versos:

“Tuas vitórias foram as minhas recompensas;
Teus embates meu contínuo despertar.”

Durante a elaboração desse livro ela nos dizia que registrava, para as gerações mais jovens, a brilhante trajetória de seu esposo Tácito Theóphilo nas Forças Armadas, sua vida e carreira marcadas pela honradez e dedicação ao seu país. Considerava que a participação dele, nos momentos mais difíceis vividos por essa nação, não poderiam ser esquecidos. Pensávamos tratar-se apenas da transcrição das “anotações” e “alterações” como o Exército chama esses registros. Já seria esse um feito louvável, de homenagem e amor ao seu companheiro. Deparamo-nos, contudo, com um texto brilhante. Os registros transcritos servem de moldura para a descrição da autora, não apenas da vida do General Tácito. Ela se insere nesse contexto, relatando também suas experiências paralelas e suas emoções. Yolanda Gadelha Theóphilo retorna a sua adolescência, aos seus anos de mocinha no Sacré-Coeur, onde desde os 14 anos já cultivava o amor e a certeza de quem seria o homem de sua vida. Graciosamente ela nos conta:

“Já me coubera o honroso ‘ruban bleu’. O que as minhas mestras não sabiam, é que a aluna premiada guardava detrás da gravura de Nossa Senhora, o retrato de seu amado Cadete em uniforme de gala...”

E continua:

“Se houve tempo em que me atemorizava o futuro (vivíamos sob proteção tal e qual dentro de uma redoma de vidro), despedi-me do Sacré-Coeur, confiante e segura que me casaria com ‘ele’ - algum dia.”

Descreve apaixonada, o baile de réveillon do Ideal Clube onde esse namoro se formalizou:

“Foi aí, então. Um ano a findar-se, outro ano a renascer. Ano Novo a anunciar-se. Já passava da meia-noite, a orquestra tocava o Hino Nacional, costume que era de praxe. O baile retomado, alguém me tocou no braço e gentilmente me convidou para dançar. Tudo assim fácil. A emoção recalcada.
Não sei de que falamos. Sei que sorri, afinal diziam que eu tinha um belo sorriso. Demais, tempos passados, indagado o que em mim o atraíra, ‘ele’ de inopino confessou: - O sorriso.
‘Dele’ o que dizer? Amei-o, amo-o, e... chega!...”

Prosseguindo seu relato, Dona Yolanda nos fala de um momento difícil para o país e para o mundo, envolvido na Segunda Guerra Mundial, evento desastroso provocado pelas loucuras de ditadores como Hitler e Mussolini. O Brasil, participando do conflito, envia à Itália os seus filhos. Na despedida da Força Expedicionária Brasileira, Getúlio Vargas dirige-se aos pracinhas e suas famílias, num discurso inesquecível. A autora detalha seus sentimentos, nesse momento de adeus:

“(...) dirigiu às mães, mulheres, noivas, quem mais fosse, palavras que a mim pelo menos tocaram tanto, tanto, a ponto - digo - teria me entristecido não estivesse eu entre aquelas mulheres que de seu poderiam dar: marido e filhos.
Senti-me heroína, também, orgulhosa, quase feliz, consciente da cooperação prestada à grandeza do Brasil.”

Após o retorno da Itália, a vida continuou, com lutas e conquistas. Promoções, comandos, vitórias, sempre acompanhadas de muito esforço, disciplina e dedicação.
Dona Yolanda nos mostra momentos importantes da história nacional, como a fundação de Brasília e suas participações como pioneiros na Novacap, uma cidade ainda sem infra-estrutura e conforto, mas simbolizando o progresso e o desenvolvimento, com imensa confiança no futuro do país. Depois, a renúncia de Janio Quadros desencadeando um quadro caótico e inseguro, conduzindo à necessidade de uma intervenção militar. Ela, mais uma vez, de forma preciosa, registra fatos que a mídia não destaca e que se não relatados permanecerão esquecidos.
Às vésperas de 31 de março de 1964, Yolanda e Tácito dirigem-se ao Rio de Janeiro em busca de noticias atualizadas, sobre a situação do país. Após tomar conhecimento do movimento prestes a eclodir tentam retornar ao Ceará. E ela conta:

“Todas as agencias aéreas fechadas. Nem vivalma. A não ser todos os assentos ocupados por uma inflamada ‘pelegada’. Perdemos o dia e mais o dia seguinte.
O Cel. Tácito, meu marido, viajou fardado (uma temeridade) e sempre fardado, sozinho, adentrou o seu quartel - sem requerer segurança.”

Comandante do 23º BC o Cel. Tácito protagonizou então um momento histórico, também revivido no texto:

“No 23º BC estavam presos políticos importantes da terra, já encontrados pelo meu marido ao reassumir o comando. Encontrou-os como presos verdadeiramente criminosos, sem camas e menos ainda sem cobertas, deficiente a parte de higiene, alimentação, que sei!... Isto foi imediatamente providenciado e escolhido um porta-voz para entender-se, sempre que necessário, com o Comandante.”

E prossegue a descrição desses momentos difíceis e conturbados:

“A esta altura, já o General Castelo fora alçado às funções de Presidente. Mas, como Presidente e por telefone, ordenava que soltassem os presos políticos. Todavia, o Comandante da Região temia o levante das forças ali aquarteladas e calava a ordem que o Presidente exigia fosse cumprida. O tempo a esgotar-se, mandou chamar o Comandante do 23º BC, o qual se apresentou tranquilamente, ouviu o relato do chefe, o quase grito do General Castelo, respondeu sem alternativas, a voz incisiva: ‘Dê a ordem que eu cumpro’. Disse e cumpriu.”

Dona Yolanda revela mais adiante uma nova participação de seu marido, em área de conflito, na República Dominicana, compondo a Força Interamericana de Paz.
Descreve a seguir as novas promoções, as honrarias, o desempenho brilhante nos cargos ocupados, a Superintendência da SUDENE, o comando da 10ª Região Militar, uma carreira destacada encerrada como Ministro Chefe do Estado Maior das Forças Armadas.
O cadete, antes escondido das freiras do Sacré-Coeur atrás da gravura de Nossa Senhora, ostentava agora públicamente o brilho de suas medalhas e conquistas. E ao seu lado ela sempre se postava feliz e orgulhosa do companheiro de décadas.
Mas Dona Yolanda não foi uma figura apagada. Sua graciosidade, inteligência e elegância não ficaram escondidas. Manteve uma trajetória paralela, obteve também suas próprias conquistas. Todas as oportunidades que lhe foram permitidas, ela aproveitou. Nos Estados Unidos da América, foi "Gray-Lady" da American Red Cross, voluntária lotada no Hospital dos Veteranos de Guerra e "sponsor" da Igreja católica local, o que lhe permitiu um maior contato com a comunidade americana. Em Brasília, junto com D. Carmela Salgado, foi fundadora e primeira secretária da Casa do Candango, obra assistencial que persiste até os dias de hoje. No Rio Grande do Sul idealizou e administrou o "Clubinho", destinado ao apoio das esposas dos oficiais para ali transferidos.

Lançou seus romances e um encantador livro de poemas. Laureada escritora, destacada por críticos literários de renome, manteve sempre sua simplicidade e ternura.
“Escrevo para que me amem”, destaca sempre em seus livros, como se precisasse solicitar amor e atenção. Não percebe talvez que sua sensibilidade e brilho bastam para conquistar a todos que com ela convivem.

Remontando ao início da década de 70, recordamo-nos de seu pai Meton de Alencar Gadelha. Certa manhã, indo visitá-lo, nós o encontramos sentado frente ao retrato de sua esposa Guiomar, que não tivemos o prazer de conhecer. Contou-nos sobre sua beleza, seu charme, sua elegância. “Ela sabia entrar e sair de um baile...”, afirmou ele, acrescentando a seguir: “Você conhece a Yolanda. Veja o seu momento de maior pompa e multiplique por dez. Essa era a Marzinha. E Yolanda é a filha que mais a ela se assemelha”. Junto à saudade da companheira desaparecida percebemos, nitidamente, em Meton Gadelha, o orgulho e a vaidade de sua filha mais velha.

Ainda na década de 70, um casal de acadêmicos de medicina, em início de namoro, numa madrugada fria de plantão no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, conversava. Ele disse: “Tenho uma tia escritora, Yolanda, casada com um militar, Tácito Theóphilo. Um casal muito unido, feliz; de família tradicional os dois, elegantes, distintos, um casal como todos deviam ser, o exemplo de uma união perfeita”.
A jovem percebeu naquele momento o que o namorado desejava para a própria vida.
Através dos anos, buscamos nós então seguir o exemplo desse casal incomparável.

Seu amor inconteste encanta a todos que os conhecem. Descrevê-los seria uma tarefa inatingível para um cidadão comum. Em nossas incursões pelo mundo da poesia, encontramos um poema de Castro Alves, denominado “As Duas Flores”. Para nós, Yolanda e Tácito representam a personificação desses versos e com eles sempre desejamos homenageá-los. O momento é oportuno. Tornamos então nossas, as palavras do vate baiano:

São duas flores unidas.
São duas rosas nascidas,
talvez do mesmo arrebol.
Vivendo no mesmo galho,
da mesma gota de orvalho,
do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
de duas asas pequenas,
de um passarinho ao léu.
Como um casal de rolinhas,
como a tribo de andorinhas,
da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como o pranto
que, em parelha, desce tanto
das profundezas do olhar.
Como o suspiro e o desgosto,
como as covinhas do rosto,
como as estrelas do mar.

Unidas, ai! quem pudera,
numa eterna primavera,
viver qual vive esta flor!
Juntar as rosas da vida
na rama verde e florida,
na verde rama do amor!

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira
Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Seção Ceará.

 Apresento a vocês alguns poemas de Yolanda Gadelha Theóphilo.

Porque te Amei

Porque te amei,
fiz da tua vida a minha vida.
Teu olhar imerso nos meus olhos
foi rastro de luz, etéreo,
a clarear as pupilas negras
dos meus negros olhos!

Tuas vitórias foram as minhas recompensas;
teus embates meu contínuo despertar .

Só não fiz das tuas lágrimas
as minhas lágrimas,
porque nunca choraste,
mas fiz das minhas lágrimas
as tuas lágrimas...

Asas

Deus me deu duas asas para voar.
Uma inteirinha:
destinada às grandes alturas.
Outra partida:
para aumentar a minha angústia
de querer e não poder!...

Eu Choro

Eu choro
por aquela nuvem perdida na amplidão do céu.

Eu choro
porque o sol fez o céu mais azul.

Eu choro
e não sei porque choro
neste esplendor de dia
com que o Senhor me contemplou!

Eu não Queria

Não.
Eu não queria morrer.
Bastava-me
esta pouca vida,
gratuita vida
metade tristeza, metade alegria
que sem pedir, ganhei
- de graça.

Ah! meus sapatos usados!
Meu vestido caseiro
ao que o velho corpo
se adaptou.
Meus livros imersos
em sabedoria alheia.
Minha cadeira
onde já não me sinto
o todo que eu fui...

Mas da terra vim
e à terra voltarei.
Não me cruzem
as mãos sobre o peito.
Roxas e crescidas mãos,
presença maior da morte
na imensa presença do morto.

Uma rosa pousada
de leve
entre dedos graciosamente dispostos.
Nem me cubram o corpo de flores.
Ponham-me um vestido de festa,
 fluido,
como as vestes dos anjos.

Irei,
hirta e surda,
aos apelos da vida.
Sem adeuses
e sem choro;
na tarde turva
chegarei aos esplendores
da eternidade!...

A Chuva Cai

A chuva cai,
pingo a pingo,
e vai retinindo
dentro de mim
a revolver queixumes
e tristezas
dos quardados da vida.

Mas, amanhã,
quando o sol balançar os danos de hoje,
varrendo as nuvens escuras
e trazendo de volta
as cores da benquerença
ao céu e à terra,
banhar-me-ei na luz
esplendorosa
do mundo redescoberto.

Vestido de Noiva

Fui buscá-lo agora
cinqüenta anos depois...
Teve seu dia de glória
o vestido de noiva.
Pérolas,
rendas,
que os anos não pouparam...

Quebraram-se as pérolas,
amarelaram-se rendas e tule.
O véu é um amarfanhado
de sonhos e de esperanças
que a vida fugaz
a todos dispersou...

Anseios e Indagações

II

Vivi tão fora da vida
que quando quis entrar na vida
a vida não me quis...

VIII

Entrei na vida para logo sair
sem nem ao menos reparar
que aquilo era vida...

IX

Deus me deu um belo sorriso
para sorrir a vida inteira.
Mas de lágrimas vieram
dois sulcos profundos
que deviam ser de risos somente!...

XII

Choro de saudade.
Mas é uma saudade tão grande
e tão profunda,
que chega a ser
saudade de mim mesma!

XV

Tristeza maior não há:
Ter a vida nas mãos
tão cheinhas de vida
e não saber
o que fazer da vida.

"Deixo-te a minha saudade, a melhor parte de mim."
Cecília Meireles

Yolanda Gadelha Theóphilo nasceu em Fortaleza-CE, em 31 de março de 1919, filha de Meton de Alencar Gadelha e de Maria Guiomar Tavares Borges Gadelha, descendendo de ramos ilustres.
Pelo lado paterno pertencia à estirpe dos Alencar, sendo bisneta de Meton da Franca Alencar, médico destacado, cirurgião da Guerra do Paraguai, onde foi pioneiro na transfusão de sangue na América do Sul. Dr. Meton de Alencar, o primeiro do nome, era sobrinho neto da revolucionária Bárbara de Alencar e primo legítimo do escritor José de Alencar.
Pelo lado materno, Yolanda descendia do primeiro Borges que aportou em Fortaleza, em 1829 - Martinho de Oliveira Borges - seu trisavô e abastado comerciante. Seu avô - Joaquim de Oliveira Borges, embora cearense, - lançou raízes em Pernambuco, como senhor de engenho, no município de Gameleira.

Yolanda fez os primeiros estudos em Fortaleza com a professora e escritora Margarida Sabóia de Carvalho. Os estudos secundários aconteceram no Rio de Janeiro, no Colégio "Sacré Coeur de Jésus", na Tijuca, onde diplomou-se em 12 de dezembro de 1936. Esse colégio equiparava-se ao Liceu da França e era dirigido por religiosas francesas.

Em 1939, contraiu matrimônio com o então Tenente do Exército Tácito Theóphilo, tendo oportunidade de residir em diversos estados da Federação, absorvendo diversas culturas e costumes. Morou por dois anos nos EE.UU., onde graduou-se como "Gray Lady" (assistente social hospitalar) pela The American National Red Cross. Fundadora da Casa do Candango, em Brasília (1960), exerceu o cargo de Primeira Secretária, alicerçando os fundamentos da novel instituição - hoje de renome internacional.

Dada a leitura desde a meninice, com o passar dos anos mais se aprofundou no conhecimento dos grandes escritores nacionais e estrangeiros. Iniciou-se, ainda jovem, como escritora, muito embora só em 1963 tenha editado o seu primeiro livro - "Eu e o Tio Sam" - trazendo a público suas experiências nos EE.UU.

Em fevereiro de 1966, incentivada pela escritora cearense Alba Frota, concorreu com o romance "Longa Tarde sem Manhã" ao Prêmio Moinho Fortaleza, instituído pela Academia Cearense de Letras. Obteve a láurea máxima em abril do mesmo ano, sendo seu livro publicado, a seguir, pela Editora "O Cruzeiro", do Rio de Janeiro.

Seguiu sua trajetória brilhante, brindando a literatura brasileira com novas pérolas como: "As Acácias estão florindo" em 1977 (relançado com alterações em março de 2008), "Instante dentro do Tempo", "Maré Alta", "Os Náufragos", "À Sombra das Distâncias", "Sargaços", "Tempo de Mar", "Vidas de Minha Vida", "Para não esquecer" (com lançamento em 2011, no dia de seu aniversário de 92 anos). Fugindo de sua linha de produção literária, em 1989 publicara "Momentos de Vida e Emoção" com poemas e crônicas rabiscados ao longo de sua vida e nunca divulgados antes:

"Achei que era hora de esvaziar as gavetas, rasgar papéis, aliviar a bagagem que a gente vai deixando para trás", esclareceu a autora.

Suas obras receberam honrosas apreciações de escritores e críticos prestigiados. Um dos elogios que mais a emocionava veio de Josué Montello:

"Faça de contas que me levantei para lhe bater palmas, ao fim da leitura de À Sombra das Distâncias."

Também teve destaque em algumas enciclopédias literárias como "Dicionário de Mulheres" de Hilda Agnes Hübner Flores e "Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras" de Nelly Novaes Coelho.

Sobre seu talento e inspiração ela citou um dia:

"Não sei dizer de onde vem a inspiração. É algo muito profundo, da sensibilidade que leva o escritor a perceber os meandros da vida despercebidos pelas pessoas comuns."
"Sou muito introspectiva. Daí a introspecção marcar parte da minha obra literária."
"Não faço poesia. Para o romance, posso dizer, há momentos dolorosos que me fazem chegar às lágrimas."
"Decerto que as experiências ao longo da vida (e falo aqui também das experiências observadas) são os alicerces da obra literária, buriladas pela imaginação."
"A sensibilidade às vezes prejudica as reações face ao cotidiano. Aliás, meu marido gosta de dizer que 'a imaginação' me atrapalha a vida. Espero sempre mais do que me é dado ver ou sentir."
"Não tenho ídolos. Gostaria de aproximar-me de uma Clarice Lispector."
"Sempre li muito, desde os 'Contos da Carochinha', 'Tesouro da Juventude', etc. Acho que isso já significa bom início do meu interesse pela produção literária. Acredito também que os clássicos franceses tiveram grande influência na minha formação literária, pelos anos de estudos no Sacré Coeur."

Yolanda Gadelha Theóphilo partiu legando-nos a saudade...
Deixou-nos em 15/03/2015 aos 96 anos de idade.
Uma lacuna difícil de preencher em nossas vidas.


Casamento de Sérgio Gadelha Pinheiro

Tia Yolanda

Em sua vida longa e criadora
exerceu sua vocação de escritora.
Burilando sua alma introspectiva
desenvolveu bela trajetória literária.

Irmã dedicada e muito presente
mantinha contato permanente
com todos os seus irmãos.

Memoráveis eram suas cartas
a todos brindando
pela caprichosa caligrafia
e pela beleza do texto.

Zelava pelo Tio Tácito
com respeito, amor e carinho.
Na falta dos filhos
dedicaram-se aos seus sobrinhos
com atenção e generosidade.

Agora, firme na sua fé católica
reencontra–se com seu querido Tácito,
seus irmãos e irmãs queridas
a recebem com muitas risadas.

Vovô Meton e vovó Guiomar
exultam: - Veja Delfina:
de novo estamos todos juntos!

Sérgio Gadelha Pinheiro

Veja: Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

http://www.mauxhomepage.net/geraldomota/homenagens20.htm

 

Voltar

 

 

 

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.