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Magalhães, o
Herói da Revolução
Articulador e
iniciador do movimento que culminou com o afastamento do Presidente João
Goulart, o Governador Magalhães Pinto foi aclamado em Minas como o grande
herói da insurreição vitoriosa e calorosamente festejada em todo o Estado.
Contando com a decidida colaboração das tropas do Exército sediadas em
Minas, além dos 18 mil homens da Força Pública do Estado e de total apoio
popular, o Governador Magalhães Pinto iniciou a história arrancada pelas
liberdades democráticas com um vigoroso manifesto, em que afirmou terem
sido inúteis todas as advertências contra a radicalização de posições e
atitudes e contra a diluição do princípio federativo. A eficiente
articulação empreendida, que garantiu a adesão de elementos decisivos, e a
rapidez e ação foram preciosos para a fulminante vitória das forças
democráticas. Durante todo o desenrolar da crise, o Sr. Magalhães Pinto
permaneceu no Palácio da Liberdade, cercado pelo seu "staff" e em
permanente contato com os Generais Carlos Luís Guedes, Comandante da ID-4
(sediada em Belo Horizonte) e Olímpio Mourão Filho, Comandante da 4ª
Região Militar (Juiz de Fora) e fazendo ligações para outros chefes
militares e vários Governadores de Estado.

Somente saiu, no dia 1º, para visitar os quartéis do 12º
RI e da Polícia Militar, o Destacamento de Base Aérea (único núcleo
rebelado da FAB) e o Centro de Recrutamento de Voluntários, acompanhados
do Cel. José Geraldo de Oliveira, comandante da Polícia Militar, Cel. José
Guilherme, chefe do Gabinete Militar (ambos foram peças importantes do
movimento que eclodiu em Minas e se alastrou no País) e dos Senadores
Milton Campos e Afonso Arinos — nomeados secretários sem Pasta do governo
mineiro. A vitória final, vibrantemente festejada pelo povo de Minas, teve
no tranqüilo e decidido Governador Magalhães Pinto o seu grande comandante
e maior alvo das manifestações populares em todo o
País.
Reportagem de Oswaldo Amorim, Luiz Alfredo e José
Nicolau Revista "O Cruzeiro" -10 de abril de 1964 - Edição
extra
MINAS
HORA A HORA Reportagem de Fernando
Richard e José Nicolau
Dia 30 de
março, 20h30m. O General Carlos Luís Guedes, Comandante da IV Infantaria
Divisionária, sediada em Belo Horizonte, reúne todo os seus comandados e
comunica que se rebelara contra o Presidente João Goulart. Reune-se,
depois, com o General João de Faria e o Coronel Emílio Montenegro Filho,
da FAB, além do General José Lopes Bragança, no comando da ID-4. Traçam um
esquema. Dia 31 de março. 3h30m. A reunião continua. O General Bragança
é incumbido de fazer a convocação dos civis para a revolução. O Governador
Magalhães Pinto, no Palácio da Liberdade, declara que apóia e comanda o
movimento. 4 horas. Tem início a mobilização dos civis. 7h30m.
O Comandante da Base Aérea de Belo Horizonte, Coronel Afrânio da Silva
Aguiar, é chamado ao Palácio da Liberdade pelo Governador Magalhães Pinto.
O Chefe do Executivo mineiro expõe ao oficial os seus planos. Fala a
respeito dos motivos que o levaram a tomar a decisão. Após conferência de
uma hora, a portas fechada, o Coronel Afrânio dirige-se para a Base Aérea:
tinha dado total apoio ao Governador. 8h30m. O General Bragança vai ao
comando da ID-4 e comunica ao General Guedes o andamento da mobilização de
civis. No Palácio da Liberdade, o Governador Magalhães Pinto toma todas as
providências com o Coronel José Geraldo de Oliveira, comandante da Polícia
Militar, para que fossem guarnecidos os pontos estratégicos do Estado.
Tropas da PM se deslocam para as fronteiras. 9h30m. O General Olímpio
Mourão Filho, comandante da Quarta Região Militar, sediada em Juiz de
Fora, telefona ao General Guedes. Conversam reservadamente. Nessa hora, o
movimento revolucionário já é do conhecimento do povo. Uma violenta
proclamação do General Guedes é lida em todas as rádios da capital mineira
e de algumas cidades do Interior. Acusa Jango. 10 horas. O General
Guedes comunica-se com o Governador Adhemar de Barros pelo telefone. É a
primeira vez, desde a deflagração do movimento, que o General conversa com
o Governador paulista. No QG da ID-4, estão sendo montadas as instalações
telefônicas que iriam ligar, diretamente, o Palácio da Liberdade, o
comando do 12.º Regimento de Infantaria, a Polícia Militar, o Destacamento
da Base Aérea, o CPOR e outras unidades militares. 13 horas. No Palácio
da Liberdade, o movimento é intenso. O Governador, até o momento, não
havia aparecido de público. Chegam o Senador Milton Campos, o ex-Chanceler
Afonso Arinos, assessores do governo e o secretário da Fazenda, Deputado
José Maria Alkmim. Trazem a notícia de que o Marechal Odílio Dennys se
encontrava em Juiz de Fora articulando o movimento com o General Olímpio
Mourão Filho. No Departamento de Instrução da Polícia Militar, mais de 500
jovens já se haviam alistado no chamado Exército Civil. 13h30m. O
Coronel Emílio Montenegro Filho, da FAB, é mandado a Barbacena, de avião,
para entrar em contato com o brigadeiro comandante da Escola Preparatória
de Cadetes do Ar. Em sua companhia, segue o Jornalista Aloísio Cunha, que
leva a gravação da proclamação do General Guedes. 14 horas. Os dois
enviados chegam a Barbacena. Conversam com o comandante da escola. Um
filho do Deputado José Bonifácio prende o juiz de direito de Barbacena. Em
Belo Horizonte, o movimento de automóveis aumenta nos postos de gasolina.
O combustível fora requisitado pelo governo. 14h30m. Chega a Belo
Horizonte o Deputado José Bonifácio, primeiro secretário da Câmara de
Deputados. Anuncia a disposição do Congresso de instalar-se na Capital
mineira. E diz que todos os deputados por Minas Gerais já haviam sido
chamados. 15 horas. Na Assembléia Legislativa, o deputado comunista
Gomes Pimenta pede uma comissão para entender-se com as autoridades a fim
de ser posto em liberdade o Deputado Sinval Bambirra, preso na madrugada.
A comissão foi formada, mas Bambirra não foi solto. 16 horas.
Aproximam-se de Juiz de Fora as tropas do 11º Regimento de Infantaria, de
São João del Rey, que começara a deslocar-se para aquela cidade aos
primeiros minutos da madrugada. O General Guedes retorna ao QG da ID-4
após conferenciar, mais uma vez, com o Governador Magalhães Pinto. Outra
reunião contou com a presença dos dois chefes mineiros da revolução e do
Coronel José Geraldo de Oliveira, secretários de Estado Oswaldo Pierucetti
(Interior), Roberto Resende (Agricultura) e José Maria Alkmim (Fazenda) e
o Srs. Milton Campos e Afonso Arinos. 17 horas. A Polícia Militar
começa a ocupar a capital mineira. A Companhia Telefônica, o DCT, empresas
de comunicações e redações de jornais e rádios foram tomadas pela
PM. 19 horas. Aumenta o número de adesões de civis ao movimento
revolucionário. As inscrições são feitas no Grupo Escolar Pandiá
Calógeras. Todos usam no braço direito uma braçadeira verde-amarela com um
triângulo no centro. É o símbolo mineiro do levante
revolucionário. 19h30m. O General Guedes solicita a cooperação de
companhias construtoras para que enviem carretas pesadas: transporte de
material até Juiz de Fora. Quinze carretas são colocadas à disposição do
comandante da ID-4. 20 horas. O Governador Magalhães Pinto fez seu
pronunciamento à Nação. Estava formada a Cadeia da Liberdade, que levou a
todo o Brasil a palavra do líder mineiro. Governadores de outros Estados,
como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Guanabara, Goiás,
Mato Grosso e Bahia, apenas esperavam a palavra do governador de Minas,
para dar início ao movimento nas áreas de sua responsabilidade. 20 h 30
m. Chega ao comando da ID-4, o Coronel Paulo Hildebrando de Campos Góes,
comandante do 4.º Regimento de Obuses, sediado em Pouso Alegre. Procedia
do Rio de Janeiro. Após rápido contato com o General Guedes, põe-se à
disposição do comandante da ID-4. 21 horas. Engenheiros se apresentam
ao comando da ID-4 para as emergências que surgirem com o decorrer da
crise militar. São especialistas em restauração de pontes e construções.
Médicos dão conhecimento ao comando revolucionário de vários postos em
Belo Horizonte. 22 horas. Com exclusividade, a reportagem de “O
Cruzeiro” consegue entrar na Base Aérea de Belo Horizonte e fotografa os
praças e oficiais revoltosos. O comandante da guarnição só havia dado
conhecimento da revolução aos oficiais. Mais tarde falaria ao resto do
contingente. Indagado a qual comando estava subordinado, disse o Coronel
Afrânio Aguiar que “seu único comandante era o Governador Magalhães
Pinto”. Os oficiais mantinham-se calmos e aguardavam o desenrolar dos
acontecimentos. 22 h 30 m. Pelo telefone, o General Guedes é informado
de que o Presidente João Goulart deseja um entendimento com o Governador
Magalhães Pinto e os chefes militares de Minas Gerais. Afirma-se que o Sr.
João Goulart chegou a propor uma mediação “para resolver o impasse
surgido entre a administração federal e o governo mineiro”. O General
Guedes se recusa a manter conversação com o Chefe da Nação. Idêntica é a
atitude do Governador Magalhães Pinto. 23 horas. Todo o dispositivo
revolucionário se encontra em ação. O secretário da Agricultura de Minas,
Sr. Roberto Resende, toma as providências necessárias a que não houvesse
falta de gêneros nos dias seguintes. “Minas poderá resistir cem
dias” - afirmou. Foi determinado o levantamento de todo o estoque de
carne no Estado. 24 horas. As poucas pessoas que se mantinham próximas
ao Palácio da Liberdade se mostravam apreensivas com as notícias de que
tropas do I Exército estavam marchando contra Minas Gerais. Entretanto,
neste momento o Coronel José Guilherme anuncia que o Governador Magalhães
Pinto havia recebido um comunicado do General Amaury Kruel, dizendo que
estava à frente do II Exército marchando contra o Estado da Guanabara. A
alegria foi geral. Dia 1º de abril. 1 h 15m. O Comandante da Base Aérea
de Belo Horizonte fala, pelo telefone, com o Brigadeiro Francisco
Teixeira, comandante da 3ª Zona Aérea, e comunica a sua condição de
rebelado. É imediatamente exonerado, juntamente com o subcomandante, Major
Nelson Santiago. Não acata a decisão. Reúne a tropa, dá ciência de sua
condição e liberdade de ação para os que não quiserem aderir. Toda a tropa
se mantém com o comandante destituído. O Coronel Afrânio Aguiar, então,
toma medidas de segurança. 8 horas. No QG da ID-4, a satisfação é
geral. O General Guedes recebe dez pilotos civis que se colocam à
disposição para qualquer eventualidade. Várias companhias de aviação põem
suas aeronaves a serviço do Governador Magalhães Pinto. 8 h 30 m. Pela
primeira vez, desde o início do movimento, o Governador Magalhães Pinto
deixa o Palácio da Liberdade. Visita várias unidades rebeladas. Vai ao
Centro de Recrutamento, onde é recebido entusiasticamente. Depois,
dirige-se ao Departamento de Instrução da Polícia Militar e ao 12º
Regimento de Infantaria. Por último, visita a Base Aérea de Belo
Horizonte. 12 h 30 m. Num contato com os repórteres de “O Cruzeiro”, o
Governador Magalhães Pinto declara que “foi diminuído o prazo que se
esperava para a vitória final”. O prazo inicial era de dez dias. 14
horas. No Palácio da Liberdade, o Governador Magalhães Pinto continua
reunido com o seu secretariado. O Secretário do Interior, Oswaldo
Pierucetti, articulador civil da revolução, faz vários contatos com São
Paulo, Guanabara e outros pontos do País. As notícias continuam a chegar,
sempre animadoras. Os chefes revolucionários aumentam a sua euforia. O
prazo, de que falou o Governador Magalhães Pinto, encurta ainda mais. Para
todos, a coisa mais certa é que as forças democráticas consigam dominar o
País dentro de mais algumas horas. Os chefes militares conferenciam. De
repente, as ligações telefônicas com Brasília são cortadas. Não se fala
mais com a Capital do País. Há uma notícia, logo desmentida, que preocupa
o chefe do Executivo mineiro: é a de que o Palácio Guanabara está cercado
e de que havia sido cometido um atentado contra o Governador Carlos
Lacerda. 15 horas. O Governador de Minas Gerais deixa o Palácio da
Liberdade para passar em revista as tropas da Polícia Militar que, em oito
ônibus, deixam Belo Horizonte com destino a Juiz de Fora e várias outras
cidades do interior do Estado. É aclamado pela multidão que se reúne em
frente à sede do Executivo mineiro. 15 h 15 m. Quando regressava ao
Palácio, as rádios comunicam a adesão do I Exército. Aos gritos de
“Terminou a revolução!” e “Vitória!” a multidão carrega em
delírio o Governador Magalhães Pinto. Nas ruas centrais da cidade, a
população lança papéis picados do alto dos edifícios. É a comemoração da
vitória. Milhares de pessoas subiam a Avenida João Pinheiro com destino ao
Palácio da Liberdade cantando “Minas Gerais” e o Hino Nacional. O
Governador Magalhães Pinto, entretanto, preocupava ainda com as notícias
de que havia resistência no Rio Grande do Sul, embora estivesse certo de
que a sua luta pela democracia tinha sido coroada de êxito e,
praticamente, chegara ao fim. 20 horas. Através de uma cadeia de rádio
e televisão, o Governador Magalhães Pinto, no Palácio da Liberdade, faz
sua primeira proclamação como chefe da revolução de 72 horas que abalou o
Brasil. |