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São Paulo em
Guerra pela Liberdade

A Companhia
Telefônica Brasileira foi ponto de uma pequena guerra particular. Trinta e
dois homens estavam lá dentro. Os policiais se dispõem a invadir o prédio.
Quando o conseguem, Nelson Gatto, a quem procuravam, tinha desaparecido.
Antes, porém, houve isolamento da área, pedidos de jornalistas aos
policiais superarmados em favor de Nelson Gatto, que é também jornalista,
e tudo acabou sem que um tiro sequer fosse disparado. A CTB foi
dominada.

Ruas
interditadas protegeram os democratas. O problema dos transportes teve
duas faces, durante a crise em São Paulo. De um lado, várias ruas da
cidade foram interditadas ao trânsito, principalmente aquelas que davam
acesso ou passavam bem próximas a lugares considerados de importância
militar, como o Quartel General do II Exército e a Secretaria de Segurança
Pública. De outro lado, porém, meios mais rápidos de transporte foram
utilizados para a movimentação das tropas, que tinham de atingir pontos
estratégicos com rapidez, a fim de ganhar eficiência na operação de
guerra. Tudo foi cumprido dentro de um plano rígido de segurança e de bom
rendimento tático. São Paulo viveu, assim, horas de guerra, ainda que não
resultassem os movimentos e as medidas em nenhum choque verdadeiramente
sangrento. O que havia de realmente desejado era que o País retornasse aos
caminhos da Democracia e da paz. Isto foi conseguido.

Vitória da
Democracia foi festa de todo o Povo de São Paulo.
As horas de
angustiante expectativa, quando as notícias mais desencontradas eram
ouvidas pelo povo paulista, terminaram em festa, com a notícia muita certa
da vitória das forças democráticas. O Governador Adhemar de Barros, que
se mantivera sem descanso, sorriu satisfeito: a vitória da Democracia era,
de certo modo, um pouco a sua vitória. Ele se pusera, desde o início, na
posição de um batalhador irredutível de sua causa e São Paulo marchou
coeso com ele, atendendo à sua palavra inflamada e patriótica. Nas ruas, à
hora final, o povo esteve presente, comemorando com papéis picados
atirados do alto dos edifícios. De cada janela, pulava um coração
paulistano ao mesmo compasso da alegria de todos os corações brasileiros
que desejavam o retorno do País à ordem.

S. PAULO HORA A
HORA
31 de março –
de manhã – São Paulo amanhece sob a repercussão da manifestação dos
sargentos e do discurso do Presidente Goulart na Guanabara e a notícia de
mobilização em Minas Gerais. No Palácio dos Campos Elísios o clima é de
nervosismo. O Governador Adhemar de Barros nega-se a falar à imprensa e
mantém reunião secreta com o Deputado Ranieri Mazzilli, presidente da
Câmara Federal. De prontidão e com tanques em fila no Ibirapuera, o II
Exército não revela seus objetivos. Muitas notícias continuam a chegar de
Minas Gerais. A 4ª Região Militar teria deslocado suas tropas para a
fronteira com o Estado do Rio. Anuncia-se manifesto do Governador
Magalhães Pinto. De tarde – Comenta-se no Palácio dos Campos Elísios
que o Governador passara a madrugada do dia 31 em Belo Horizonte, com o
Sr. Magalhães Pinto. O Governador de Minas lança manifesto à Nação: "O
Presidente da República subverteu a disciplina e Minas se levanta para
garantir a normalidade constitucional", diz. Correm boatos de que
Minas se proclamaria "território nacional livre" com Constituição própria,
inclusive. O Governador Adhemar de Barros afirma que "não existe mais o
regime federativo no País". Nas ruas há um evidente nervosismo. As
calçadas estão cheias de gente agitada que corre aos bancos, os quais, sem
cobertura do Banco do Brasil, vão pagando cheques enquanto têm dinheiro e
depois fecham suas portas. Com exceção dos bancos mineiros que fecharam as
portas antes e se negaram a pagar. Apurou-se que assim fizeram por
recomendação do Governador Magalhães Pinto. Sabe-se que as tropas do
Exército em Minas estão sublevadas. Chegam notícias dos deslocamentos de
tropas da Guanabara para enfrentá-las. Teme-se o choque. O Governador
paulista continua se recusando a falar. Igualmente o General Kruel,
comandante do II Exército. De noite – Às 19 horas o Governador ainda se
recusava a falar, mas às 20,30 horas gravaria um vídeo-tape com uma
declaração de apoio ao movimento de Minas. Antes, porém, de divulgado o
documento de Adhemar, era Magalhães Pinto quem falava outra vez: "Temos
certeza da ajuda de São Paulo. Com São Paulo ao lado de Minas, a vitória
será rápida". Depois de incidentes com funcionários federais que
queriam impedir a transmissão, a fala do Governador Adhemar de Barros foi,
afinal, ao ar, por uma cadeia de rádio (mais tarde também de TV) às 22,30
horas. Os policiais afirmam que vão invadir o prédio da CTB. Preparam-se,
isolam a área, afugentam os curiosos, começam a entrar por uma porta
lateral, armadíssimos. A rua está escura por causa do racionamento, a
noite é de garoa e há um grande silêncio. Dezenas de jornalistas esperam
em silêncio do lado de fora. Os minutos passam e não há tiros. Os
repórteres intercedem em favor do colega, fazem apelo ao Secretário de
Segurança, o tempo passa, não há tiros, nem solução. Pouco antes da
meia-noite é divulgada a posição do General Amaury Kruel, comandante do II
Exército: apóia o movimento de Minas Gerais, contra o "jugo vermelho".
Tendo-se o Exército mostrado aliado e não havendo nenhum outro incidente
em todo o Estado, o Governador Adhemar de Barros tem agora um só ponto de
resistência em seu território: 32 homens fechados dentro do prédio da CTB.
As ordens de prisão a qualquer preço são renovadas. A adesão do Exército
alivia evidentemente as expressões dos policiais. Como há elementos do
Exército dentro do prédio, a Secretaria de Segurança pede ajuda ao
Exército para resolver a questão. Um tenente-coronel não identificado
pelos repórteres chega ao prédio logo depois. Entra e não volta mais.
"Foi preso como refém", dizem os policiais. Um pelotão de soldados
do Exército chega logo depois. Os soldados estão muito nervosos. De
madrugada – O tempo passa e a única notícia que se tem é de que o
tenente-coronel não voltou mais ao andar térreo (o resto está tomado pelos
que resistem). Anuncia-se a censura das estações de rádio, jornais e
televisão. Baixada portaria a respeito, pelo Governo. Eram 1,40 horas
da madrugada quando a voz do Governador voltou ao ar. Informava que havia
seis Estados sublevados para derrubar o Sr. João Goulart, a quem o
Governador chama de "ex-Presidente". Os Estados sublevados são Minas, São
Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Anuncia a união do
governo de São Paulo como II Exército. Notícias de Santos – mais tarde
confirmadas pelo próprio Governador – davam conta, pela madrugada, de que
vários líderes sindicais haviam sido presos, o Fórum Sindical de Debates
invadido e posto fora de ação pela Polícia Estadual. Enquanto isso,
mantinha-se o impasse na Telefônica. As luzes do prédio agora estão todas
acesas, há boato de que os sitiados fugiram. O tenente coronel ainda não
voltou, ninguém sabe onde estará. Às 3,30 horas o jornal "Última Hora" é
cercado pela Polícia Estadual e, posteriormente, invadido sem resistência.
Sua edição é impedida de circular e o jornal passa a ficar sob controle do
Governo do Estado. Às 5 horas – quase claro – o tenente coronel desce e
informa: "Nelson Gatto e seus homens fugiram. Presumo que fugiram pelo
telhado. Não fui preso por eles. Perdi todo este tempo procurando-os pelo
prédio sem os achar". O que os jornalistas concluíram, porém, é que o
choque, que seria violento, foi contornado por conversações e dada a Gatto
a oportunidade de evadir-se. A madrugada termina com a Polícia correndo
para um prédio próximo, supondo que Gatto para lá tivesse passado e
pretendendo ali cercá-lo novamente. Foram vãos seus esforços. Manhã de
1º de abril – A chuva tantas vezes anunciada pelo Sr. Adhemar de Barros
chegou de duas formas: uma, natural, garoa fininha, bem paulista, molhando
o asfalto das ruas; outra – aquela a que se referia o Governador –
simbolizada pelos carros de tropas que se movimentavam em todas as
direções e pelas metralhadoras e fuzis embalados. Foi sob as duas chuvas
que o povo saiu às ruas, como todos os dias, para as fábricas, para os
escritórios, para as lojas. Nisto São Paulo não se alterou. Apesar da
tensão, da expectativa e da apreensão estampadas em todos os rostos, o
povo foi trabalhar. A primeira alteração notada na fisionomia da cidade
foi congestionamento maior do tráfego nas imediações de quartéis, saídas
para as rodovias, estações ferroviárias e outros pontos estratégicos,
todos ocupados por soldados do Exército e da Força Pública. Quarteirões
inteiros estavam isolados e, em alguns pontos, armadas barricadas com
sacos de areia e arame farpado. O Palácio dos Campos Elísios estava
isolado e protegido por um cinturão de segurança que abarcava quatro
quarteirões em torno. O movimento de tropas do II Exército, iniciado às
primeiras horas da madrugada, continuava. Pela manhã eram embarcados na
Estação Roosevelt (Central do Brasil) duas dezenas de carros-tanques com
destino ao Vale do Paraíba, já então sob o controle do II Exército. Apesar
dessa intensa movimentação de tropas, a situação era de calma em todo o
Estado. O Palácio dos Campos Elísios distribuiu comunicado do Governador
Adhemar de Barros concitando o povo a manter-se em calma e, logo mais, por
ordem do governo, eram requisitados todos os estoques de combustíveis.
Enquanto isso o QG do II Exército distribuía comunicado dizendo
"considerar muito boa a evolução dos acontecimentos, particularmente
pelo número de adesões de Estados da Federação, com seus governos e tropas
militares neles sediadas". O Governo do Estado e o II Exército
dominavam inteiramente a situação. Além do episódio da noite anterior,
quando o Gen. Puertas e o Jornalista Nelson Gatto tomaram o prédio da
Companhia Telefônica, não se verificou nenhum outro movimento de
resistência ostensiva. Em Santos, porém, amanheceu paralisado o porto. A
COSIPA, as indústrias petroquímicas de Cubatão e a Estrada de Ferro
Santos-Jundiaí foram igualmente paralisadas pelo movimento grevista em
solidariedade ao Sr. João Goulart. Grandes contingentes do DOPS e da Força
Pública ocupavam toda a Baixada Santista e, por volta das 9 horas, choques
da Polícia Marítima invadiram a sede do Sindicato dos Estivadores. Foram
efetuadas detenções de vários elementos ligados aos sindicatos. Durante
todo o dia seriam detidos mais de duzentos comunistas. Alguns dos mais
ativos líderes sindicais desapareceram. A Alfândega e demais repartições
federais foram ocupadas pela Polícia. Ainda na parte da manhã foi aberto o
voluntariado. Um no Ginásio do Departamento de Educação Física e Esportes,
por um ex-comandante da Revolução de 32, Cel. Homero Silveira, e outro no
local onde funcionava o escritório regional da SUPRA. Antes de ser
transformado em posto para alistamento de voluntários, o escritório da
SUPRA foi vistoriado por elementos do DOPS, que ali aprenderam material de
propaganda da Reforma Agrária. No fim do dia, só no primeiro posto
haviam-se apresentado mais de quatro mil voluntários. A tarde começou com
uma proclamação do Governador Adhemar de Barros. “Como um só corpo.
Como uma só alma, ergue-se a gente paulista”, dizia o Governador, em
sua oração transmitida pelo rádio, logo depois do meio-dia. O povo
paulista, acrescentava, “ergue-se mais uma vez na defesa dos ideais
democráticos, na salvaguarda do valores supremos de nossa civilização
cristã”. E mais adiante: “Com o Exército, a Marinha, a Aeronáutica
e a Força Pública, com o apoio de todas as suas classes sociais, ressurge
o São Paulo eterno para a eternidade do Brasil”. As constantes
notícias difundidas pela “Rede da Democracia”, que transmitia da
Secretaria de Segurança Pública, informavam sobre as adesões recebidas em
vários pontos do País pelas forças contrárias ao Governo do Sr. João
Goulart. O noticiário do Rio, ainda confuso, sem determinar exatamente a
posição do I Exército, ainda causava alguma apreensão, principalmente o
cerco do Palácio Guanabara por Fuzileiros Navais. À medida que o tempo
corria, porém, o otimismo aumentava entre as autoridades e transbordava
para as ruas. O General Aldévio, em rápido encontro com a Imprensa, disse
que “movimento dessa natureza estava previsto nos planos Alvorada,
Eclipse e Boreal”, referindo-se à crise político-militar. Tais planos
foram elaborados por uma equipe de técnicos estrategistas quando o general
assumiu, em 63, a Pasta da Segurança. Sua confiança em que as autoridades
paulistas e o Exército dominavam inteiramente a situação foi demonstrada
pelo fato de serem retirados os carros blindados da Força Pública, que
haviam tomado posição em pontos estratégicos da cidade, pois a calma era
“absoluta”. Outro fato que justificava otimismo: a solicitação de
conferência feita pelo General Morais Âncora ao General Kruel. Este já se
dirigia a Resende, onde se realizaria o encontro para parlamentação. Às 17
horas, havia intensa expectativa nas ruas. Logo, um boato lançado pela
emissora que encabeçava a “Rede da Democracia”, sobre a “renúncia” do Sr.
João Goulart, provocou uma explosão de contentamento, com a reunião
imediata de várias autoridades no Palácio dos Campos Elísios, para
“festejar o acontecimento”. Nas ruas centrais começou a cair uma outra
chuva, desta vez de papel picado que caía em grande quantidade dos
edifícios dos escritórios. Estudantes da Universidade Mackenzie chegaram a
organizar uma passeata que percorreu as ruas do centro. Essa manifestação
quase gerou um incidente de graves conseqüências, quando o grupo de
estudantes tentou manifestar o seu apoio ao General Kruel. Apareceram de
repente na Rua Conselheiro Crispiniano, onde se localiza o edifício do QG
do II Exército. Os soldados que mantinham guarda chegaram a apontar as
suas armas, mas logo tudo se esclareceu. E os estudantes continuaram em
sua passeata, dando vivas à democracia e à liberdade e aplaudindo os
carros blindados da Força Pública que passavam de volta ao quartel. Nos
jardins dos Campos Elísios, tomados pelo povo e por autoridades, o clima
era de euforia. O Governador Adhemar de Barros saiu e, logo após, fazia
uma proclamação conclamando o povo a não se exceder em manifestações, pois
considerava cedo para se “festejar a vitória de uma luta que mal
começou”. “- A erva daninha da infiltração comunista” – disse –
“continua entre nós. Só haverá vitória, realmente, quando vencermos a
resistência dos que, da retaguarda, impulsionaram as autoridades
federais”. E mais adiante: “- A vigília não pode terminar. É
preciso evitar a guerra civil dos desesperados. Mantenhamos alerta
permanente. Agentes de Pequim, Moscou e Cuba não se entregaram ainda, mas
nós vamos caçá-los de agora em diante”. A fala do Governador e, mais
tarde, o desmentido da renúncia do Presidente, foram como água na fervura.
E a noite desceu sobre São Paulo. Com uma constante e fria garoa. Os
constantes comunicados das autoridades estaduais e do II Exército, dando
conta da marcha dos acontecimentos em todo o País, deixavam claro às
primeiras horas da noite que o movimento iniciado em Minas Gerais estava
vitorioso. A única nota dissonante (e isto não era notificado) era a
tomada de posição de Brizola no Rio Grande do Sul. Antes da meia-noite, o
General Kruel voltava a São Paulo, vindo de Resende, onde fora
triunfalmente recebido pelos cadetes de Agulhas Negras. A conferência com
o General Morais Âncora não chegara a se realizar, pois o I Exército
aderira quase totalmente ao Gen. Kruel. A madrugada chegou com a notícia
da viagem do Presidente Goulart para Porto Alegre, onde “assumiria a
resistência”. E a madrugada trouxe mais uma notícia importante: o Sr.
Ranieri Mazzilli é o novo Presidente do Brasil, por decisão do Congresso
Nacional. E a garoa continuava a cair sobre a calma da
cidade.
 Antes da Revolução, o Presidente do Brasil João Goulart,
por conta de uma viagem, passa o cargo de Presidente do Brasil ao
Presidente da Câmara dos Deputados Ranieri
Mazzilli
Reportagem
do "Bureau" de "O CRUZEIRO" em São Paulo O Cruzeiro - 10 de abril de
1964 - Edição extra |