PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SÍMBOLOS

ELEFANTE BRANCO

Grêmio "Duque de Caxias"


Baile de Formatura da Escola Normal "Duque de Caxias" - 1966.
Da esquerda para a direita, as professorandas: Hilda Sampaio, Laura Colombo,
Dircéa Amaral, Clélia Giffoni, Sônia Uchoa e Auxiliadora Mota.
Arquivo Mª Auxiliadora Mota Gadelha Vieira


Baile do Ginasial - 1968.
Maria Auxiliadora, Miguel Ângelo Leite Mota e Luiz Carlos Beraldo Leite.
De costas, Badih Raffoul.
Arquivo Mª Auxiliadora M. Gadelha Vieira

O Nosso Elefante Branco


Baile de Formatura da Escola Normal "Duque de Caxias" - 1966.
Da esquerda para a direita: Auxiliadora Mota e Luiz Carlos Beraldo Leite, Márcia Leopoldina de Oliveira e seu irmão José Maria Ferreira de Oliveira, Maria Lúcia e Paulo Maduro, Benedito Beckmann e esposa. Arquivo Mª Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

O Elefante Branco marcou a minha geração. Desde sua inauguração, nos anos 50, ele imperou em nossa "pracinha". Os nossos grandes bailes de formatura, as competições esportivas, as festas de carnaval, comemorações de "Dia das Mães", concursos de beleza e apresentações musicais eram sempre ali. Como a nossa juventude lotava aquele ginásio... Até a Campanha "Ouro para o Bem do Brasil" aconteceu em suas dependências. Mamãe declamou, na ocasião, um soneto de sua autoria que começava assim: "Trementes minhas mãos, depositei a aliança"...


Maria Auxiliadora e seu pai Geraldo Sílvia Mota - 1963
Arquivo Mª Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Lembro-me de meu primeiro baile, em 1963. Quinze anos de idade, primeiro sapato de salto alto, primeiro vestido de baile lindo... A moda era o "tubinho" e a maior parte das meninas escolheram esse tipo de modelo. Eu não. Tinha que ser diferente, é claro, numa data tão importante para mim...
Minhas amigas, apesar de terem a minha idade, já haviam freqüentado outros bailes, mas aquele era o "meu primeiro"... Mamãe levou-me a Guaratinguetá, numa modista famosa, dona Iracema (não me lembro seu sobrenome) que confeccionou o meu vestido, com cara de roupa de baile, todo em shiffon branco, saia rodada com aplicações de renda, alças delicadas, bolerinho também em renda rebordada em tons rosa claro. As inesquecíveis luvas longas e macias, num rosa bem clarinho, a bolsa e o sapato branco - complementos indispensáveis, também adquiridos em Guaratinguetá - compunham o traje.
A escolha de uma modista fora de Piquete garantia-me o segredo da roupa, com seu modelo guardado a sete chaves. No dia do baile, o vestido foi entregue em minha casa. Ao chegar da cabeleireira em Lorena, eu o encontrei sobre minha cama, lindo e brilhante como um sonho. Fiquei muda de emoção. E pensei, imaginativa como era, quantos vestidos lindos ainda usaria no decorrer de minha vida...
Anos depois, revivi esses momentos, emocionando-me com o traje de debutante de minha filha, como se ele fosse meu. Loucuras de mulher...
A festa foi linda! Papai conduziu-me pelo salão, valsando comigo elegante e feliz. Por mais que tente não consigo me lembrar das valsas apresentadas nesse baile. Recordo-me apenas de uma canção: "Doce Amargura", então muito tocada nas rádios, na voz de Moacir Franco. Através dela revivo minha paixonite dos quinze anos: aquele rapaz gentil, educado, chegando-se a nossa mesa e pedindo licença ao papai para dançar comigo. Eu, que passara o baile todo à espera desse momento, senti-me nas nuvens. Se alguém me entrevistasse naquele instante, eu diria que ele era o meu príncipe encantado... Como se é tola e ingênua aos quinze anos! Mas "Doce Amargura" sempre esteve presente em minha vida, destacada pela lembrança das puras emoções suscitadas naquela mocinha sonhadora. Novamente retornando aos quinze anos de minha filha, por uma coincidência inexplicável, o cinematografista que montou o filme de seu Baile de Debutantes, colocou essa canção como fundo musical das imagens do salão decorado... Vá se entender o porque das coisas!
Muitos outros bailes freqüentei, outras festas, diferentes emoções e alegrias, mas aquele momento foi mágico e único!!!


Professorandas de 1966.
Da esquerda para a direita: Clélia Giffoni e Luiz Carlos Oliveira (Ticassê),
Mª Auxiliadora e Geraldo Luiz Leite Mota.
Arquivo Mª Auxiliadora Mota G. Vieira

O Elefante Branco destacou-se sempre como palco de nossas existências. Todos tem uma história para contar, um instante importante ali vivido. Outras gerações vieram após mim. O Elefante Branco virou o PAN (diziam que era o Pandemônio - sinal das mudanças de costumes?). Sobre esse tempo nada posso contar. Já estava longe, vivendo em outras plagas as minhas definitivas emoções, transformando em realidade os meus sonhos, mas conservando a saudade dos momentos felizes da minha infância e adolescência.


Baile de formatura - 1966.
Na mesa central, da esquerda para a direita: Roberto Beraldo Leite, Celina Faig Leite, Mariinha Mota, Geraldo Luiz Mota, Mª de Lourdes Beraldo Leite, Silvia Mota, Geraldo Mota, Auxiliadora Mota e Carlinhos Beraldo Leite. Demais não identificados.
Arquivo Mª Auxiliadora Mota Gadelha Vieira


Baile no Elefante Branco - 1968.
Da esquerda para a direita: Joãozinho da Farmácia, Dora Mota, Miguel Mota,
Mª de Lourdes Beraldo Leite, Geraldo Luiz Mota, Silvia Mota, NI.
Arquivo Mª Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Há poucos dias eu voltei a Piquete. Acompanhava-me o meu "príncipe encantado", companheiro por toda uma estrada, amigo de todas as horas, com quem construí uma família da qual muito me orgulho. Caminhamos sozinhos pelas ruas, subimos morros, sentamos na Praça Nove de Julho - que para mim será sempre o "Morro da Miquelina". Mostrei-lhe o Santo Cruzeiro, a Matriz - minha matriz ainda, não Igreja das Almas. Paramos para olhar o ribeirão... Poucas pessoas nos reconheceram e pudemos livremente curtir as ruas, as casas, as minhas saudades...
Encontramos Miguel Castro que nos contou dos eventos que estava organizando. Cobrei-lhe as fotos de suas maravilhosas fantasias e abracei, feliz, o amigo de tantas décadas. Fomos visitar a Arlete: minha querida amiga e fotógrafa LETY, que abranda através de suas imagens a saudade que sinto das minhas origens. Passamos em frente à casa de papai e tentei rever, através de suas paredes e do meu carinho, o brilho daqueles saudosos olhos azuis.
Vanius parou para admirar a imponência arquitetônica de nosso pórtico e me indagou que monumento era aquele em cima do morro. "É a Matriz nova", respondi e, imediatamente, comecei a rir de mim mesma. A Matriz Nova deve ter no mínimo uns quarenta anos...
Sentamos nos bancos da "pracinha", olhando para o Grêmio General Carneiro, o Cinema, o nosso verde... Contei-lhe tantas histórias ali vividas, tantas alegrias; descrevi as retretas no coreto da pracinha; as quermesses de São Miguel; o alto-falante tocando Glenn Miller e Celly Campelo, alardeando os oferecimentos das canções; as moças passeando naquelas calçadas, em sentido contrário ao dos rapazes, esperando por um olhar e um sorriso, a cada volta.
Mostrei-lhe a estátua de Caxias, o Caramuru do Prof. Dória, coisas que ele só conhecia através de minhas palavras e que agora vivenciava. Tentava, segundo ele, entender quem era a "menina de Piquete" que um dia eu fora... Passamos pela Vila Duque, chegamos à Praça da Bandeira e, mais uma vez, ficamos ali sentados enquanto eu lhe contava do Hotel Brasil e do "seu" Brasilino, das festas da Associação Comercial. Fomos até a loja de Dona Janete - claro que não é mais dela - e lá encontramos a querida amiga Celeste Aída. Entre suas linhas e agulhas bordamos nossas recordações.
Voltamos por outro caminho e chegamos ao Hospital da FPV. Ele não se chama mais assim. No entanto, lá ainda se destaca, em seu corredor de entrada, a foto de Dom Bosco. Branca e linda, a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora abençoa o corredor da Maternidade desativada. Disseram-nos que ninguém nasce mais em Piquete...


Baile do Ginasial - 1968.
Da esquerda para a direita: Maria Auxiliadora e Geraldo Luiz Leite Mota,
Maria Meireles e Macaé, Silvia Mª Leite Mota e Carlos Vieira Soares.
Arquivo Mª Auxiliadora M. Gadelha Vieira

Voltamos para a "pracinha" após algum tempo sentados frente a Escola Normal e ao meu antigo Jardim da Infância. Entristeci-me com as ruínas do meu aquário - e sofri com a ausência da onça pintada e dos meus balanços...
Os pingos de chuva começaram a cair. Entramos no Elefante Branco onde acontecia um jogo de alguma coisa. Parecia ser o Elefante Branco de minha adolescência! Como os jovens se parecem sempre, julgando-se, no entanto, únicos no mundo... A chuva passando não havia motivo para permanecermos ali dentro. Sentamos novamente nos bancos da "pracinha".
Tentei entender o porque daquela cor tão forte nas paredes do meu Elefante Branco. Disseram-me que ele estava se acabando, que o objetivo era recuperá-lo e devolvê-lo à população da cidade. Então, tudo se perdoa, até mesmo aquela cor destoante do contexto de nossas recordações. Talvez as chuvas que descem da Mantiqueira acabem por desbotá-lo, tornando-o mais parecido com o Elefante Branco dos meus quinze anos. E depois, assim como acontece com nossos cabelos brancos, sempre é possível pintá-lo novamente, num tom mais parecido com as nossas saudades...

Fortaleza, Novembro de 2005
Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira



Baile de Formatura do Ginasial e do Científico - 1966
Sílvia Maria e Maria Auxiliadora Leite Mota.
Arquivo Mª Auxiliadora M. Gadelha Vieira


Baile de Formatura do Ginasial - 1971
Maria Auxiliadora e Miguel Ângelo Leite Mota
Arquivo Miguel Ângelo Leite Mota

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