
Baile de
Formatura da Escola Normal "Duque de Caxias" - 1966.
Da esquerda para a
direita: Auxiliadora Mota e Luiz Carlos Beraldo Leite, Márcia Leopoldina
de Oliveira e seu irmão José Maria Ferreira de Oliveira, Maria Lúcia e
Paulo Maduro, Benedito Beckmann e esposa. Arquivo Mª Auxiliadora Mota
Gadelha Vieira
O Elefante
Branco marcou a minha geração. Desde sua inauguração, nos anos 50, ele
imperou em nossa "pracinha". Os nossos grandes bailes de formatura, as
competições esportivas, as festas de carnaval, comemorações de "Dia das
Mães", concursos de beleza e apresentações musicais eram sempre ali. Como
a nossa juventude lotava aquele ginásio... Até a Campanha "Ouro para o Bem
do Brasil" aconteceu em suas dependências. Mamãe declamou, na ocasião, um
soneto de sua autoria que começava assim: "Trementes minhas mãos,
depositei a aliança"...

Maria
Auxiliadora e seu pai Geraldo Sílvia Mota - 1963
Arquivo Mª Auxiliadora
Mota Gadelha Vieira
Lembro-me de meu primeiro baile, em 1963. Quinze anos de
idade, primeiro sapato de salto alto, primeiro vestido de baile lindo... A
moda era o "tubinho" e a maior parte das meninas escolheram esse tipo de
modelo. Eu não. Tinha que ser diferente, é claro, numa data tão importante
para mim...
Minhas amigas, apesar de terem a minha idade, já haviam
freqüentado outros bailes, mas aquele era o "meu primeiro"... Mamãe
levou-me a Guaratinguetá, numa modista famosa, dona Iracema (não me lembro
seu sobrenome) que confeccionou o meu vestido, com cara de roupa de baile,
todo em shiffon branco, saia rodada com aplicações de renda, alças
delicadas, bolerinho também em renda rebordada em tons rosa claro. As
inesquecíveis luvas longas e macias, num rosa bem clarinho, a bolsa e o
sapato branco - complementos indispensáveis, também adquiridos em
Guaratinguetá - compunham o traje.
A escolha de uma modista fora de
Piquete garantia-me o segredo da roupa, com seu modelo guardado a sete
chaves. No dia do baile, o vestido foi entregue em minha casa. Ao chegar
da cabeleireira em Lorena, eu o encontrei sobre minha cama, lindo e
brilhante como um sonho. Fiquei muda de emoção. E pensei, imaginativa como
era, quantos vestidos lindos ainda usaria no decorrer de minha
vida...
Anos depois, revivi esses momentos, emocionando-me com o traje
de debutante de minha filha, como se ele fosse meu. Loucuras de
mulher...
A festa foi linda! Papai conduziu-me pelo salão, valsando
comigo elegante e feliz. Por mais que tente não consigo me lembrar das
valsas apresentadas nesse baile. Recordo-me apenas de uma canção: "Doce
Amargura", então muito tocada nas rádios, na voz de Moacir Franco. Através
dela revivo minha paixonite dos quinze anos: aquele rapaz gentil, educado,
chegando-se a nossa mesa e pedindo licença ao papai para dançar comigo.
Eu, que passara o baile todo à espera desse momento, senti-me nas nuvens.
Se alguém me entrevistasse naquele instante, eu diria que ele era o meu
príncipe encantado... Como se é tola e ingênua aos quinze anos! Mas "Doce
Amargura" sempre esteve presente em minha vida, destacada pela lembrança
das puras emoções suscitadas naquela mocinha sonhadora. Novamente
retornando aos quinze anos de minha filha, por uma coincidência
inexplicável, o cinematografista que montou o filme de seu Baile de
Debutantes, colocou essa canção como fundo musical das imagens do salão
decorado... Vá se entender o porque das coisas!
Muitos outros bailes
freqüentei, outras festas, diferentes emoções e alegrias, mas aquele
momento foi mágico e único!!!

Professorandas de 1966.
Da esquerda para a direita:
Clélia Giffoni e Luiz Carlos Oliveira (Ticassê),
Mª Auxiliadora e
Geraldo Luiz Leite Mota.
Arquivo Mª Auxiliadora Mota G.
Vieira
O Elefante
Branco destacou-se sempre como palco de nossas existências. Todos tem uma
história para contar, um instante importante ali vivido. Outras gerações
vieram após mim. O Elefante Branco virou o PAN (diziam que era o
Pandemônio - sinal das mudanças de costumes?). Sobre esse tempo nada posso
contar. Já estava longe, vivendo em outras plagas as minhas definitivas
emoções, transformando em realidade os meus sonhos, mas conservando a
saudade dos momentos felizes da minha infância e adolescência.

Baile de
formatura - 1966.
Na mesa central, da esquerda para a direita: Roberto
Beraldo Leite, Celina Faig Leite, Mariinha Mota, Geraldo Luiz Mota, Mª de
Lourdes Beraldo Leite, Silvia Mota, Geraldo Mota, Auxiliadora Mota e
Carlinhos Beraldo Leite. Demais não identificados.
Arquivo Mª
Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Baile no Elefante Branco - 1968.
Da esquerda para a
direita: Joãozinho da Farmácia, Dora Mota, Miguel Mota,
Mª de Lourdes
Beraldo Leite, Geraldo Luiz Mota, Silvia Mota, NI.
Arquivo Mª
Auxiliadora Mota Gadelha Vieira
Há poucos dias
eu voltei a Piquete. Acompanhava-me o meu "príncipe encantado",
companheiro por toda uma estrada, amigo de todas as horas, com quem
construí uma família da qual muito me orgulho. Caminhamos sozinhos pelas
ruas, subimos morros, sentamos na Praça Nove de Julho - que para mim será
sempre o "Morro da Miquelina". Mostrei-lhe o Santo Cruzeiro, a Matriz -
minha matriz ainda, não Igreja das Almas. Paramos para olhar o ribeirão...
Poucas pessoas nos reconheceram e pudemos livremente curtir as ruas, as
casas, as minhas saudades...
Encontramos Miguel Castro que nos contou
dos eventos que estava organizando. Cobrei-lhe as fotos de suas
maravilhosas fantasias e abracei, feliz, o amigo de tantas décadas. Fomos
visitar a Arlete: minha querida amiga e fotógrafa LETY, que abranda
através de suas imagens a saudade que sinto das minhas origens. Passamos
em frente à casa de papai e tentei rever, através de suas paredes e do meu
carinho, o brilho daqueles saudosos olhos azuis.
Vanius parou para
admirar a imponência arquitetônica de nosso pórtico e me indagou que
monumento era aquele em cima do morro. "É a Matriz nova", respondi e,
imediatamente, comecei a rir de mim mesma. A Matriz Nova deve ter no
mínimo uns quarenta anos...
Sentamos nos bancos da "pracinha", olhando
para o Grêmio General Carneiro, o Cinema, o nosso verde... Contei-lhe
tantas histórias ali vividas, tantas alegrias; descrevi as retretas no
coreto da pracinha; as quermesses de São Miguel; o alto-falante tocando
Glenn Miller e Celly Campelo, alardeando os oferecimentos das canções; as
moças passeando naquelas calçadas, em sentido contrário ao dos rapazes,
esperando por um olhar e um sorriso, a cada volta.
Mostrei-lhe a
estátua de Caxias, o Caramuru do Prof. Dória, coisas que ele só conhecia
através de minhas palavras e que agora vivenciava. Tentava, segundo ele,
entender quem era a "menina de Piquete" que um dia eu fora... Passamos
pela Vila Duque, chegamos à Praça da Bandeira e, mais uma vez, ficamos ali
sentados enquanto eu lhe contava do Hotel Brasil e do "seu" Brasilino, das
festas da Associação Comercial. Fomos até a loja de Dona Janete - claro
que não é mais dela - e lá encontramos a querida amiga Celeste Aída. Entre
suas linhas e agulhas bordamos nossas recordações.
Voltamos por outro
caminho e chegamos ao Hospital da FPV. Ele não se chama mais assim. No
entanto, lá ainda se destaca, em seu corredor de entrada, a foto de Dom
Bosco. Branca e linda, a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora abençoa o
corredor da Maternidade desativada. Disseram-nos que ninguém nasce mais em
Piquete...

Baile do Ginasial - 1968.
Da esquerda para a direita:
Maria Auxiliadora e Geraldo Luiz Leite Mota,
Maria Meireles e Macaé,
Silvia Mª Leite Mota e Carlos Vieira Soares.
Arquivo Mª Auxiliadora M.
Gadelha Vieira
Voltamos para a
"pracinha" após algum tempo sentados frente a Escola Normal e ao meu
antigo Jardim da Infância. Entristeci-me com as ruínas do meu aquário - e
sofri com a ausência da onça pintada e dos meus balanços...
Os pingos
de chuva começaram a cair. Entramos no Elefante Branco onde acontecia um
jogo de alguma coisa. Parecia ser o Elefante Branco de minha adolescência!
Como os jovens se parecem sempre, julgando-se, no entanto, únicos no
mundo... A chuva passando não havia motivo para permanecermos ali dentro.
Sentamos novamente nos bancos da "pracinha".
Tentei entender o porque
daquela cor tão forte nas paredes do meu Elefante Branco. Disseram-me que
ele estava se acabando, que o objetivo era recuperá-lo e devolvê-lo à
população da cidade. Então, tudo se perdoa, até mesmo aquela cor destoante
do contexto de nossas recordações. Talvez as chuvas que descem da
Mantiqueira acabem por desbotá-lo, tornando-o mais parecido com o Elefante
Branco dos meus quinze anos. E depois, assim como acontece com nossos
cabelos brancos, sempre é possível pintá-lo novamente, num tom mais
parecido com as nossas saudades...
Fortaleza,
Novembro de 2005
Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Baile de
Formatura do Ginasial e do Científico - 1966
Sílvia Maria e Maria
Auxiliadora Leite Mota.
Arquivo Mª Auxiliadora M. Gadelha
Vieira