PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Corporação Musical Piquetense




Corporação Musical Piquetense em 1960.
Sentados entre os músicos, da esquerda para a direita (a partir da terceira colocação) José Izaltino da Luz,
Christiano Alves da Rosa e Michel Gosn. Em pé, à direita, o maestro Antonio Prestes de Camargo.
Foto escaneada do jornal "O Estafeta"

 

É UM... É DOIS... É JÁ!

Seria um contra-senso que um trabalho feito para reverenciar a Corporação Musical Piquetense nada contivesse sobre a mesma, ainda mais considerando que ele se reveste de assuntos que enfocam detalhes do nosso dia-a-dia já vivido. Um entrave, entretanto, vem colocar cisco em nossos olhos. O que é que sabemos sobre a Banda? De nossa parte, apenas as muitas alegrias que nos proporcionaram durante tanto tempo; que minha mãe a adorava e era a própria alma de meu pai; de sua presença constante abrilhantando os acontecimentos cívicos e religiosos desta terra; nos acompanhamentos àqueles que vão para a viagem eterna sob os acordes de marchas fúnebres e, fora daqui, sempre elevando o nome de Piquete em suas apresentações. E é só... Que dizer dela, então? Uma lembrança bate em nossa mente, todavia. É de uma pessoa em nossa cidade que possui meios e sobeja competência para contar toda a história desta associação de músicos. Provavelmente, deve ser possuidora de elementos desde o engatinhar da Euterpe... Depois de certo tempo, essa mesma pessoa passou praticamente a vivê-la, respirando ou, mais propriamente, assoprando o seu cotidiano... Sabe tudo sobre a desativação e surgimento da Banda da Fábrica e, quando da dissolução desta, o insano trabalho de reorganizar a atual... Pode falar de cátedra das diferentes fases, da consagração dos grandes momentos às mágoas doloridas dos dias incolores... Dos músicos todos que se revezaram através de gerações, nas colunas de sua sustentação. Ela pode minudenciar toda a vida da Corporação. Vamos, daqui dar um xeque-mate nessa pessoa perante todos, para que essa magnífica história venha a lume e passe à posteridade. O nome dela é Carlos Vieira Soares. Ninguém, mas ninguém mesmo, melhor do que ele, sabe onde e com quem encontrar tudo que for necessário para isso. O amigo que nos desculpe essa fria em que o colocamos, mas a história da Corporação Musical Piquetense tem que ser escrita. E ele é, indubitavelmente, o mais abalizado pesquisador e conhecedor de nossas coisas e, portanto, o mais recomendado a fazê-la. Mãos à obra, Carlos, que ansiosamente estaremos aguardando. Tenho dito. (...)
"A CIDADE", ainda um pequeno tablóide de 16 x 23 cm, em seu número 26, que circulou no dia 25 de outubro de 1959, publicou, em sua seção "Retalhos do Passado", a seguinte crônica:

"ESTRÉIA DA EUTERPE
Fato sensacional, que trouxe às ruas toda a população piquetense, foi a primeira apresentação pública da Euterpe piquetense. Isso aconteceu, mais ou menos, pelo final da segunda década do século. Os ensaios começaram na antiga 'Sociedade', onde os artistas piquetenses davam seus primeiros passos no sublime reino da música, sob a batuta do maestro João Evangelista. Mudaram-se, depois, os ensaios, para a extinta casa do Sr. Domingos Montano, ao lado da cadeia. 0 interessante é que quase toda a população se reunia para assisti-los. Após a reza na matriz, o ponto de atração para o povo era o 'ensaio da banda'. Foi marcada finalmente a data para a apresentação da Euterpe. A ansiedade da população, o nervosismo dos músicos, dava, em todos os pontos, aquela sensação de um grande acontecimento. E de fato o era! Os músicos, alinhados e garbosos, marchavam pelas ruas da cidade. O povo todo acompanhando atrás. Nas costas dos músicos via-se uma partitura grampeada. Só não se ouvia era música. Bem... Então numa esquina, eles paravam, e atacavam um dobrado (por sinal só sabiam dois). A banda somente tocava parada. Mas a população vibrava intensamente."


Banda da Fábrica Presidente Vargas, 1938
Foto escaneada do livro "Piquete de Meus Amores" - José Palmyro Masiero


(...) A televisão estava ainda engatinhando no Brasil e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro era o maior veículo de comunicação e penetração em todo o território brasileiro. Possuidora do elenco dos maiores astros e estrelas do nosso cancioneiro popular, dos melhores produtores e diretores, apresentadores, famosas orquestras, etc., seus programas prendiam os ouvintes em casa, como acontece hoje com a televisão, apenas com a diferença que agora se vêem e se ouvem mediocridades. Nossos programas televisivos nunca chegaram a igualar-se aos radiofônicos. Paulo Roberto, extraordinário produtor e apresentador da emissora, tinha um programa aos sábados, verdadeira coqueluche: A Lira de Xopotó, que constava da apresentação das melhores bandas do Brasil ao vivo, intercalada com fatos da própria corporação e da cidade oriunda. E nossos músicos estiveram lá! Bem... Com vocês, a reportagem publicada no "O REGENTE", número 11, de 15 de setembro de 1958:


Corporação Musical Piquetense
Foto escaneada do jornal "O Estafeta"


"A CORPORAÇÃO MUSICAL NA 'LIRA DE XOPOTÓ'
Sem querermos entrar em detalhes, que tornariam estas simples notas num divertido compêndio, deixaremos de citar aqui o que foi a viagem de ida e volta ao Rio, dos integrantes da Comitiva que para lá se locomoveu dia 30 de agosto p. passado. Diremos apenas que foi toda ela repleta de 'trotes' de piadas, de zombarias inocentes de todos os que nela tomaram parte, o que soe acontecer nos ambientes onde reina, como na Corporação Musical Piquetense a ordem e a disciplina, impostas pelo nosso caro amigo Maestro Carlos Vieira, dentro, porém, da mais estreita camaradagem. Seria, também, desnecessário, tecermos considerações sobre o que foi a audição apresentada pela nossa Banda, na 'Lira de Xopotó', pois toda a Piquete estava a escuta do lado de seu aparelho de rádio aguardando o início do famoso programa de Paulo Roberto. Não seria exagero nosso se disséssemos, que Piquete parou, que o silêncio pairou sobre a cidade, ouvindo-se apenas os últimos acordes do prefixo do Repórter Esso que anunciava para dali a minutos o início da 'Lira do Xopotó' que naquele momento para todos nós, mudara de nome, chamava-se 'Lira do Carlos Vieira', 'Lira da Nossa Banda'. E quando 'explodiu' a característica voz do Maestro Filó, comandando simbolicamente o começo da audição com o seu conhecido 'É uma... é duas... é já..." , suspensos ficaram os corações daqueles que estavam a escuta, mas, breve voltaram a pulsar normalmente quando afinadamente surgiram as primeiras notas do tão nosso conhecido 'Capacete de Aço'. Ao final quando se calaram os instrumentos e estrondearam vigorosos e demoradamente os aplausos, nós sentimos as lágrimas se assomarem aos nossos olhos, numa emoção incontida, por sentirmos que a 'Nossa Lira' não fracassara, que a 'Nossa Lira' soubera elevar bem alto o nome de Piquete, num campo onde ele ainda se fazia ignoto e que, daquele momento, saia de sua obscuridade musical para dizer a São Paulo, ao Brasil e ao mundo: - Eu também sei tocar. Eu também cultivo a sublime arte da música que tantas glórias já trouxe ao Brasil através de seus filhos Carlos Gomes, o imortal e Villa-Lobos que já caminha para a imortalidade. Eu também tenho os meus músicos, os meus maestros. Vocês não ouviram? Foi o Carlos Vieira quem empunhou a batuta e quem formou a nossa banda, foi ele quem reuniu três gerações para formá-la. Vocês duvidam ? Vejam só. Ai estão o  'seu' Benedito Dentista, o 'seu' Viana, o 'seu' Benedito' Chaves; aí estão o Moreno, o Bambu, o Silvia Mota; aí estão o Vovô, o Luizinho Viana (filho de peixe...) E então, não são três gerações reunidas num só esforço? Piquete vibrava e parecia entender a sua linguagem muda, enquanto Paulo Roberto anunciava o segundo número: a fantasia 'Cruz de Ouro' de autor desconhecido. Ao término dessa partitura também delirantemente aplaudida pelo auditório superlotado, Paulo Roberto solicitava uma salva de palmas ao solista da velha geração o 'seu' Viana que na sua modéstia tão conhecida, interpretara de modo seguro e sereno a parte mais destacada da música. Finalmente, com o 'Nove de Julho' de autoria do saudoso e sempre lembrado Henrique Mazziero que sabemos arrancou lágrimas de saudades a seus familiares e a seus amigos os quais, naquele momento, não se recordavam do Henrique que já se foi, mas daquele que parecia estar presente, fazendo as suas serenatas com o seu saxofone, frente da casa de todas as famílias que ele sabia gostarem de música. Findara o programa, no qual fora consagrado o nome de Piquete. No qual lágrimas de emoção foram vertidas pelo Paulito, pelo Humberto Montano (que saudou a Corporação Musical em nome da colônia piquetense residente na capital da República), pelo Lulu Meireles e quiçá pelo Brigadeiro Ovídio Alves Beraldo que, como bom piquetense, ali também se encontrava. No 'hall' do edifício de 'A Noite', após o programa houve uma audição especial da Corporação, até às 23h, contando com a presença de todos os piquetenses que moram no Rio ou que lá se encontravam, do produtor e animador Paulo Roberto a quem deixo aqui, em nome do povo de nossa terra os melhores agradecimentos pela hospedagem fidalga que soube proporcionar aos nossos músicos, do Maestro Filó, o Jararaca da dupla Jararaca e Ratinho, de vários artistas e funcionários da Rádio Nacional e do público em geral. Para finalizar nada mais expressivo do que transcrevermos as palavras pronunciadas por Paulo Roberto diante do microfone da Nacional: - 'Sem favor algum quero dizer a todos os piquetenses aqui presentes e a todos os que me estão ouvindo, que a Corporação Musical Piquetense é uma das melhores bandas que nos visitou até hoje' e em outro comentário: 'ela é excepcionalmente boa'."


Aqui poderíamos dar por encerrada nossas honrarias. Mas neste mesmo número de "O REGENTE", vem uma carta dos piquetenses que longe daqui residiam naquela época e que fazemos questão de reproduzir. Assim agimos para os que em Piquete se encontram, valorizem, cultivem e colaborem com essa plêiade de cultores da arte musical, para que quando não a puderem ouvir por estarem longe desta terra abençoada, sintam o quanto de melancólico e nostálgico vem a lembrança de um instante de felicidade lá atrás esquecida. Isto porque, em toda apresentação da Banda em que se esteve presente, sempre aconteceu um momento que marcou a existência de cada um.


Corporação Musical Piquetense
Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira


MENSAGEM ENTREGUE À CORPORAÇÃO, PELA COLÔNIA PIQUETENSE DO RIO
30 de agosto de 1958.
A Colônia Piquetense do Rio de Janeiro rejubila-se com o evento auspicioso e de grande significação que para a família piquetense constituiu, a mostra de arte da CORPORAÇÃO MUSICAL PIQUETENSE, levada a efeito nos estúdios da Rádio Difusora Nacional. E esse júbilo justifica-se porque Piquete, modesta cidade paulista que escassamente ultrapassa de três dezenas de milhares de habitantes e já é notável, não só como um dos mais eficientes centros industriais em atividades relativas à defesa nacional, mas também se alinha entre os núcleos de cultura humanidades e de técnica profissional, já agora, vem de demonstrar que, além das lides fecundas da produção, possui vocação para a arte dos sons. E desse penhor para a música, manifestado pelos filhos de Piquete, tivemos hoje encantadora prova nessa mensagem de melodias que pelos ares eles acabam de enviar para o resto do Brasil e para o mundo, através das ondas hertzianas, como que a proclamar que nem só o trabalho material lhes basta, mas também, sentem emotivo tropismo para os enlevos dessa arte toda de beleza e emoção, na qual a Humanidade, no sentido horizontal se fraterniza no mundo da inteligência e do espírito, e no sentido vertical se eleva para o céu e logra a alcançar o próprio Deus. E porque a arte, como Deus, tem um sentido infinito e eterno, a Corporação Musical Piquetense, com as harmonias que cria e executa, patenteia o incomparável privilégio que goza de só crescer e crescer sempre, pois mesmo aqueles que já se foram para a viagem suprema, vivem e viverão eternamente entre eles, tais como Francisco Alves, José de Oliveira Palma, Geraldo Paulino Crispim, José Maria, Cícero Trindade, Nuno de Oliveira, Antonio e Pedro Coelho, Luiz Marques, Adolfo Mazziero e outros. E, entre estes, particularmente aqueles que, como Henrique Mazziero na verdade se fizeram imperecíveis em nossa lembrança, pelo precioso legado de suas belas composições, fragmentos melodiosos, de sua inteligência e de suas almas generosas e cheias de fecundo idealismo. Essa a razão desta declaração, aqui consignada e homologada com a assinatura de todos os piquetenses presentes. Ela vale, sobretudo, como expressão do nosso justo orgulho pelo progresso e pelos louros conquistados por essa equipe de bravos e autênticos idealistas que compõem a Corporação Musical Piquetense e a mantém em suas gloriosas atividades. Vale ainda como genuína expressão do nosso afeto à nossa inesquecível e tranqüila PIQUETE - formosa e modesta flor serrana da vertente paulista da Mantiqueira tão cheia de simplicidade, suavidade e romance. Conterrâneos da Corporação Musical Piquetense: com a vossa música, com o vosso mundo de sons cantais Piquete, cantais o vosso ardente amor à Pátria, ascendeis até Deus e, como agora, através do éter, envolveis a própria terra de sons e melodias. Mas, sabeis, hoje fizestes mais, criastes com essas mesmas melodias um universo de intensa saudade e de vivíssima emoção. E nesse mundo de enlevo, de encantamento e de harmonias, vos sobrepusestes às noções espaciais e de tempo e maravilhosamente regredistes - e nós convosco - ao convívio daqueles que só viviam em nossa lembrança. Fizestes mais ainda: com o auxílio da magia augusta da música, trouxestes Piquete até nós nas ondas sonoras dos vossos instrumentos. E sabeis por quê? - Porque essas notas não saíram sós dos vossos instrumentos. Com elas irradiastes a poeira imponderável, luminosa e impregnada de sentimento de vossas almas e de vossos corações. Eis porque a melodia, como irradiação espiritual que é, possui o prodigioso poder de penetrar até o mais profundo do ser daqueles que a ouvem. Vossas glórias são nossas também, mas vos somos gratos por tudo isso. Parabéns pelo vosso empreendimento vitorioso de hoje e que novos louros continueis colhendo para o futuro. Sede fiéis ao vosso ideal e caminhai sempre na esteira ascendente desse ideal, que a Vitória se enamorará definitivamente de vós.
( As) Mariano Montano, Oficial de Vigilância da Prefeitura do Distrito Federal; Humberto Montano, Professor; Ovídio Alves Beraldo, Brigadeiro da FAB; Wair Augusto Ribeiro Beraldo, Engenheiro da E.F.C.B.; Alice Fernandes Montano, Setimio Montano, Abdon Leite Sobrinho, José Izaltino da Luz,
Yolanda Corrêa, Osmar Corrêa, Paulo Avelar Leite (Paulito), José dos Santos Barbosa, Vereador; Pedro Mota da Silvia, Áureo Valença Leite.
"
Resumindo tudo, cremos ter descoberto nestas palavras de Rabindranath Tagore, toda a filosofia de nossa Corporação Musical:
"NO QUE SOMOS VERDADE, SOMOS IMORTAIS."

José Palmyro Masiero
"Piquete de Meus Amores"

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