PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

As Nossas Bandas de Música


Orquestra da Fábrica Presidente Vargas
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

Infelizmente, como a nossa terra não tem história escrita, perdida que foi pelo relaxamento e descaso de quem deveria zelar por ela, a vida de nossas bandas musicais não tem registro. Daí a dificuldade de relatar tais fatos, segundo o historiador Carlos Vieira Soares, que nos deu, com muita boa vontade, as informações que seguem. Um xerox sem data, apresentado pelo conterrâneo Dr. Antônio Carlos Monteiro Chaves, transcreve o seguinte:

"Banda de Música - o Capitão Custódio Vieira da Silva, fazendeiro de Piquete, tem uma banda musical no Piquete, composta de escravos, da qual é professor o Sr. Porfírio Theotônio de Castro".

A capa de um LP com músicas do guaratinguetaense Bomphiglio de Oliveira diz o seguinte em sua biografia: 

"... Ainda moço foi para Piquete, onde organizou uma banda de música".

Nenhuma dessas duas informações tem data, porém presume-se que sejam do final do século. A Gazeta de Lorena de 29 de novembro de 1908 registra a solenidade realizada em Piquete, no dia 23 daquele mês. Lê-se o seguinte:

"... O povo, as crianças, tendo à frente a nova, porém já regular banda de música, percorreu as ruas da cidade".

Há pouco tempo, o conterrâneo Luiz Vieira Soares apresentou um pequeno escrito que recebeu do Sr. Olavo Urioste. Trata-se da capa de disco que vem descrevendo a origem de suas gravações, e que uma delas diz o seguinte:

"Longe do Mar, dobrado de Francisco Farina, composto em homenagem à banda de música de Piquete, no final da segunda década do século passado".

Essas informações dizem, categoricamente, que antes de 1920, já havia banda em nossa Piquete. Mas vamos ao que conhecemos pela tradição. A Corporação Musical Euterpe Piquetense foi fundada e inaugurada em 7 de setembro de 1922, ano do centenário da Independência. Não sabemos quais os seus diretores; somente seu maestro, Sr. Manoel Lacerda, que também foi quem ministrou as aulas de música a seus componentes. A Euterpe teve nos seus dezesseis anos de atividade mais dois competentes regentes: os senhores João Evangelista e José de Castro Ferreira. 


Banda de Música da Fábrica Presidente Vargas
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

Em 1938, tendo então como presidente o Sr. Luiz Arantes Júnior, foi desativada, e seu arquivo instrumental, móveis e utensílios foram emprestados à Fábrica de Pólvoras e Explosivos de Piquete, que organizou sua banda. A maioria dos componentes da Euterpe eram servidores daquele estabelecimento e passaram a compor a nova banda. Convém registrar aqui os nomes: Maestro José de Castro Ferreira; músicos: Antônio Viana, Benedito Monteiro Chaves, Henrique Masiero, João Vieira Soares, Luiz de Barros, José Ribeiro Fernandes, Benedito Lorena, Sebastião Miranda, Joaquim Augusto, Jorge de Freitas, José Divino da Silva, Antônio Martins de Camargo, Reinaldo Jerônimo Teodoro, José Brasil, José Maria, José Gonçalves e o autor destas linhas. Ninguém pode negar que a vida musical evoluiu sobremaneira. 


Orquestra Estrela do Norte
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

A Fábrica não se contentou com estes poucos elementos e começou a contratar músicos de fora, montando uma equipe que fazia sucesso em todo serviço que realizava, sob a competente direção do grande maestro João Evangelista, coadjuvado pelo contramestre José de Castro Ferreira. Não sabemos a data, mas o Departamento Educacional da Fábrica também criou a sua banda, que, sob a regência do inesquecível professor Laércio Azevedo, embora com poucos anos de atividades, formou uma plêiade de profissionais que honram a arte. Em 1948, com a desativação da Banda da Escola e com a boa vontade do Capitão Luiz Faro, chefe do Departamento Educacional, que emprestou o instrumental, criamos a Banda dos Ex-alunos, que durou apenas um ano e meio, quando devolveram os instrumentos. Em meados de 1956, a Fábrica desativou sua Banda, alegando questões de regulamento do Exército. Tomou-se a iniciativa e convidaram-se as autoridades e o povo e, em uma reunião muito animada, foi criada a Corporação Musical Piquetense, com a seguinte diretoria: Presidente: Luiz Arantes Júnior; Vice-Presidente: Christiano Alves da Rosa; Secretário: Eurico Fernandes Filho; Tesoureiro: José Isaltino da Luz; e demais auxiliares. Foi uma luta, pois a nova entidade não possuía nada além de sua sede. Mas, em 24 de fevereiro de 1957, inaugurou-se a Corporação com uma alvorada, acordando o povo e também uma retreta na Praça da Bandeira, contando com 25 elementos. Um ano após, contando com 36 elementos, atreveu-se a comparecer ao auditório da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde obteve grande sucesso, levando para todo o Brasil nossa arte, que nos proporcionou o recebimento de quase uma centena de cartas e telegramas de cumprimentos. Em 1960, por motivo de mudança de residência, o Sr. Carlos Vieira Soares deixou a direção musical, mas a entidade recebeu para dirigi-la o grande maestro Antônio Prestes de Camargo, que procurou sempre elevá-la. Por motivos de saúde, foi substituído pelo Sr. Vicente Judice Colaneri, que, com seu talento, soube seguir seu antecessor. Precisando mudar de cidade, entregou a direção artística ao Tenente Benedito Pereira da Silva, o mestre Didi, homérico compositor e regente. Com seu falecimento, a Corporação ficou praticamente desativada. Os músicos se dispersaram e quando convidado novamente o Sr. Carlos Vieira Soares para dirigi-la, este encontrou dificuldades extremas, já que os poucos componentes de Piquete (metade era de Lorena) não cooperavam. Os raros aprendizes se deixavam iludir pelas fanfarras e bandas marciais, não comparecendo às aulas. Com isso a Banda acabou. Mas ainda está se lutando, pois nossa terra ganhou um grande reforço com a vinda do Tenente Messias Arantes, competente regente de Bandas Militares.

Carlos Vieira Soares
"Rememorando..."

 
Antônio Mota Sílvia, desde a década de 40, participou de todas as bandas musicais
em suas diferentes fases, até a dispersão da Corporação Musical Piquetense.
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

 

A Banda

"Estava a toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar '.
Cantando coisas de amor"

Chico Buarque de Holanda


Corporação Musical  Piquetense em foto da década de 30.
Em primeiro plano, à esquerda, o maestro José de Castro Ferreira.
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"

É uma pena que a tradicional banda de música de Piquete tenha se extinguido. Durante longo período de nossa história, a Corporação Musical Euterpe Piquetense musicalizou a vida da cidade, que saía às ruas para vê-la passar. Com o regente à frente, seus músicos desfilavam com garbo e alegria a boa música. Seu desaparecimento deixou um vazio e uma perda irreparável na cultura local. Fruto de uma tradição musical que remonta aos tempos do Brasil Colônia, as bandas de música sempre foram um rico celeiro de marchas, ritmos e gêneros musicais. Elas se transformaram em uma das mais populares manifestações da cultura nacional: onde havia um coreto, estava uma bandinha, orgulho da cidade. Nas bandas formavam-se músicos profissionais e amadores, eruditos e populares. Elas foram centros geradores de novos gêneros musicais e de um vasto repertório de chorinhos, marchas de dobrados, além de hinos e canções cívicas, religiosas e populares. Tradicionalmente, Piquete sempre foi uma cidade musical. Não sabemos precisar quando foi o surgimento de sua primeira banda de música, mas sabe-se que, na década de 80 do Século XIX, havia na Fazenda da Estrela, propriedade do comendador Custódio Vieira da Silva, uma banda formada por escravos, que se  apresentava uniformizada em eventos acontecidos em Piquete e em Lorena. Sabe-se, também, que na primeira década do século XX, o musicista Bonfiglio de Oliveira, de Guaratinguetá, a convite do coronel José Mariano Ribeiro da Silva, líder político de Piquete, ministrava aulas de música para meninos na antiga matriz de São Miguel. Ao longo dos anos, apesar das dificuldades, diversos grupos musicais foram criados, bem como gerações de músicos formadas. Em 1920, surgiu a Euterpe Piquetense, sob a regência de Manoel Lacerda. Nos anos subseqüentes, estiveram à sua frente os maestros João Evangelista e José de Castro Ferreira, responsáveis pela formação musical de grande número de músicos. Em 1938, a Euterpe foi dividida devido à criação da Banda da Fábrica, que acabou por incorporar músicos da Euterpe, uma vez que a maioria eram funcionários públicos federais. A Fábrica investia na formação de seus músicos, e assim, essa banda tornou-se referência no Vale do Paraíba. Com a desativação da Banda da Fábrica, em meados de 1956, foi formada a Corporação Musical Euterpe Piquetense, tendo à frente o maestro Carlos Vieira Soares, substituído, mais tarde, por Antônio Prestes Camargo, o qual, por motivos de saúde, passou a função de regente para o maestro Vicente Judice Colaneri, precisando mudar-se de Piquete, Colaneri entregou a direção da Corporação a Benedito Pereira da Silva. Com seu falecimento, a banda ficou desativada. Foi chamado, então, o maestro Carlos Vieira Soares para reativá-la. Carlos Vieira encontrou muitas dificuldades: da antiga banda eram poucos os remanescentes; os aprendizes, após se formarem, se dirigiam para bandas militares ou grupos musicais da região, de maneira que, no final dos anos 80, a Euterpe foi definitivamente desativa. Foi uma pena... A Corporação Musical Euterpe Piquetense fazia parte da cidade. Participava ativamente da vida da sociedade de Piquete. Era presença marcante nos desfiles cívicos, eventos religiosos e políticos, enterros e tardes esportivas... Sempre buscando promover e incentivar o progresso da arte. É uma pena que as novas gerações não tenham tido oportunidade de ver a banda passar...

Jornal "O Estafeta" - Março de 2007
Piquete, SP

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