PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Amor Primeiro


Professoras do Grupo Escolar "Antônio João" na década de 60,
sob a direção do Prof. Osmar Rocha Simas
Foto enviada por Lety


1956 - Turma da Professora Fernanda Faury. Na fila da frente da esquerda para a direita: Dora Mota, Aparecida Uchoa, Neuza.
Na segunda fila, Abigail Pinto, Ana(?), Bernadete, NI. Na fila de trás sentados, os irmãos Iracema, Osvaldo e Iraci.
Na frente de Iraci seu irmão Valdir. Demais não identificados.Em pé atrás, NI, Paulo Beraldo Guimarães, Dorinha Simas, Fernanda Faury, NI, NI.



GE "Antonio João".
Turma em que estudou Ronaldo Prado Nunes, a identificar os componentes.

Foto enviada por Ilce Pazzini

Tênue como uma aurora preparando-se para anunciar um novo dia, vem à lembrança 1941 quando adentramos pela primeira vez o prédio cheirando a novinho. Nossos olhos infantis deslumbraram-se diante da grandiosidade da construção e requinte das salas de aulas, das dependências da Diretoria... Seu estilo, em formato de U, o pátio coberto, com banheiros de ambos os lados definindo os sexos, seus terrenos ao fundo para a gente correr livre... Que mundo novo e maravilhoso! Até para sentar nas carteiras modernas e ainda virgens perdia-se em cuidados. Como tudo era suntuoso, magnificente! Após passarmos pelo velho casarão derruído e pelas instalações provisórias que nos atenderam por tempos, ali chegávamos nós para tomar posse do novo prédio e fazer viver aquela admirável construção, plenamente dentro dos mais altos conceitos pedagógicos da época. E ali nos diplomamos... Bem mais tarde, talvez uns vinte anos à frente, foi que readentramos seus umbrais e atingimos seu interior. Não sabemos, mas parecia-nos que tudo tinha encolhido, acanhara-se! A nostalgia bateu à porta do coração e, bem provavelmente, algo deve ter-nos apertado por dentro diante da triste realidade! Nós cresceramos! Ali, ali dentro, ficara parte da nossa vida, quiçá os anos mais maravilhosos da infância, irredimíveis. A saudade foi como o despertar de um vulcão trazendo sensações e sentimentos adormecidos, explodindo imagens daquilo que consideramos como nosso primeiro amor: o Grupo Escolar "Antonio João", hoje escola de 1º grau. A lembrança de um antigo amor provoca sempre o desejo de revivê-lo. Mas, como todo romance que se preza, é particular, íntimo, não interessando a ninguém.


Profª Myrthes Mazza Masiero comanda a quadrilha do "Arraiá Antônio João", em 1958
Arquivo Maria Auxiliadora Mota G. Vieira

Mas existe um porém nesta história. E é justamente a história desse nosso amor, dessa escola, que não pode e nem deve ser ignorada. De posse de alguns dados e curiosidades sobre ela, que poderão enriquecer o cervo de seus anais, é que este velho ex-aluno vem agora oferecer aos coleguinhas que hoje tomam assento nas suas salas, esta crônica. Como nossos atuais amiguinhos devem saber, a E.E.P.G. "Antonio João" é a mais antiga e tradicional instituição educativa da cidade. É resultante da fusão ou anexação de escolas isoladas e possui uma história interessante, cheia de altos e baixos na sua brilhante trajetória de formação da infância. Ao final do século passado não tínhamos na Vila propriamente dita escolas de "primeiras letras" do sexo masculino; havia duas, apenas para meninas. A primeira, para garotos, foi proposta no Projeto nº 13, de 4 de maio de 1896, pelo Deputado Estadual Dr. Arnolfo de Azevedo que, além dessa masculina no perímetro urbano, criava mais duas, femininas, uma no bairro da Limeira e outra no Itabaquara. No ano seguinte, o Intendente José Mariano Ribeiro da Silva reúne as duas femininas da Vila em uma só casa e requer do Governo do Estado o mobiliário e utensílios para o funcionamento da mesma. Cuidava-se para a construção de um grupo na cidade e muitas e muitas solicitações foram feitas, principalmente quando Francisco Máximo Ferreira estava no cargo de responsável pela "Instrucção Pública" em nossa Vila. Os pedidos não encontravam ressonância e, de certo modo, com justa razão. Diminuto era o número de alunos para um gasto do Estado na construção de um prédio para esse fim. Os anos passavam, novas classes foram criadas. Pelo final de 1910, o Governo Estadual chega à conclusão de que é necessário um grupo escolar em Piquete.


Miguel Ângelo Leite Mota, aluno do 1º ano primário na década de 60. Ao fundo, os quadros que
serviam de tema para as composições à vista de uma gravura, nas aulas de Linguagem.
Arquivo Maria Auxiliadora Mota G. Vieira

Duas hipóteses podemos levantar diante de tal atitude: uma, porque realmente agora tal obra justificava-se, e outra, por motivos políticos que são facilmente explicáveis. Duas correntes políticas digladiavam-se em Piquete: de um lado os correligionários de José Mariano e de outro os de José Monteiro de Brito. Havia eleições em vista... José de Brito, intimamente ligado ao Deputado Dr. Arnolfo de Azevedo e estando no cargo de Prefeito da cidade conseguiu, com o apoio desse parlamentar junto ao Governo, atenções maiores sobre o problema da falta de um grupo aqui. Chega, do Governo de nosso Estado, a solicitação de um terreno da municipalidade para que se construísse a tão sonhada obra. Não deu outra. O Cel. Luiz Relvas, da mesma corrente política que José de Brito, oferece o terreno à Prefeitura que por sua vez faz a doação ao Estado em 2 de setembro de 1911, cuja escritura, com data de 4 do mesmo mês e ano, foi entregue ao Estado. Esperava-se, com otimismo e ansiedade o início das obras, que não acontecia! Logo veio a primeira Grande Guerra e a coisa complicou-se mais. Em 1920, sendo Prefeito Municipal o Major Carlos Ribeiro da Silva, este anexou as escolas existentes na cidade e bairros próximos em uma só, com o nome de Escolas Reunidas de Piquete. Posteriormente veio a denominação oficial de Grupo Escolar de Piquete. Um único prédio existia que poderia atender às necessidades de um grupo escolar e este ficava longe da "cidade". Mas não havia outro jeito e assim foi alugado um casarão pertencente ao Cel. Luiz Relvas, provavelmente sede de uma antiga fazenda desativada, em frente à atual Igreja Metodista do Brasil, na rua que homenageia este Coronel português de nascimento e piquetense por amor. Vindo a falecer em 1925, sua esposa, D. Domiciana Relvas continuou alugando o prédio para a finalidade educativa. De 1923, quando substituiu Antonio de Luiz, até a queda da primeira República, 1930, o Capitão José Monteiro de Brito foi nosso Prefeito Municipal. Continuando com os pedidos que há anos vinham acontecendo ao Estado para construção do Grupo, por fim, no início do mês de novembro de 1928, Piquete recebia a visita de um engenheiro com a finalidade de avaliar a situação do terreno já pertencente ao Estado, para se processar os devidos projetos. Todavia, mais um obstáculo haveria de surgir para entravar o assunto. A quadra de terra doada em 1911 media 33 m por 60 m e, de acordo com o engenheiro visitante, era necessário que a mesma tivesse pelo menos 40 m de frente. Assim, na 5ª sessão ordinária, 30 de novembro deste 1928, a Câmara aceita a proposta do Prefeito para que se fizesse a doação do restante que ele, o Estado, solicitava. Mais tramitação e finalmente o Governo recebe a papelada do terreno já regulamentada. Agora, eufóricos, era esperar pelo início das obras. Mas... nem indícios para alimentar esperanças! Nada! Vem a revolução de 1930, muda-se a sistemática governamental brasileira, nada! Logo após,a Revolução Constitucionalista de 1932, complicou-se mais. A Constituinte de 34; eleições em 36; instituição do Estado Novo em 37, e, nosso grupo, nada! O novo grupo permanecia sempre novo na esperança de cada um de nossos governantes que durante esse tempo passaram pela Prefeitura. O velho Grupo Escolar de Piquete derruia-se, enquanto o outro mareava embalado pela brisa da quimera. Saturou-se o velho prédio! Em outubro de 1939, sem o mínimo de segurança para os alunos, sem a menor possibilidade de ser remodelado, o grupo teve que encerrar suas atividades. O casarão colonial esboroava-se lentamente, levando consigo tantos e tantos fatos do cotidiano de nossa cidade. Desabou... A infância escolar ficou com férias forçadas e com o ano letivo incompleto. Não havia, na cidade, um lugar sequer para se colocar os alunos. Resultado: Piquete sem escola! Aí, o calo apertou! José de Brito Júnior, Prefeito indicado pelo Interventor do Estado, Dr. Adhemar de Barros, filho do grande político Capitão José de Brito, viu-se diante de um áporo. O Coronel José Gomes Carneiro, então Diretor da Fábrica de Piquete, sentia o drama da criançada nossa e também procurava meios para auxiliar o Prefeito na solução do problema, ou pelo menos amenizar a situação. No local onde hoje assenta-se a Vila Duque de Caxias estava o eminente militar construindo blocos de casas para moradias dos operários da Fábrica. E o primeiro grupo delas estava quase pronto... E eis que chega abril de 1940! Que mês, para nossa cidade! Mais que o mês foi o dia 14 dele! Comemorava-se nesta data o aniversário natalício do Coronel Carneiro e entre as grandes homenagens que lhe foram prestadas, e das quais falaremos em outras ocasiões, duas vão aqui registradas por tratarem do assunto em que estamos tocando. O fato mais interessante dessas homenagens a esse grande administrador da Fábrica e emérito colaborador da cidade, Cel. Carneiro, é que todas, ou quase todas, constituíram-se em obras que beneficiariam a cidade! Vejamos os dois fatos que nos interessam. Primeiro: às três horas da tarde deste dia 14 de abril, lá nos terrenos doados pela Prefeitura ao Estado, aos tempos do velho Cap. José de Brito, assentava-se a pedra fundamental do futuro grupo escolar. Diante de grande público, várias autoridades estavam ali presentes, entre elas o Prof. Dario de Moura, diretor do Departamento de Educação, da Secretaria de Educação e Saúde Pública do Estado; o Prefeito Municipal, Sr. José Monteiro de Brito Júnior; o Coronel José Gomes Carneiro, Diretor da Fábrica; engenheiros responsáveis pela obra; o Vigário comissionado Padre Morais, e muitas outras. Falaram na cerimônia, pela ordem, o Padre Morais, D. Celina Guimarães representando o corpo docente da cidade e, finalmente pelo Governo do Estado de São Paulo, o Prof. Dario de Moura. De acordo com o contrato, o engenheiro, Dr. Amâncio Figueiredo, ficou de entregar o prédio pronto, dentro de um prazo de seis meses. Segundo: após esta cerimônia, todas as autoridades rumaram para a inauguração do Grupo Escolar provisório, justamente aquele primeiro grupo de casas geminadas construída na futura Vila Duque de Caxias, de que falamos atrás. Embora singela, a solenidade, principalmente pelo seu caráter de preenchimento da grande lacuna educacional em que estava enfiada a criança piquetense, foi tocante, deixando assim, gravado "mais profundamente o nome do sr. Cel. Carneiro no coração piquetense". No ano seguinte, 1941, foi inaugurado o edifício estadual para o funcionamento do Grupo Escolar de Piquete, tendo como Patrono o nome ínclito do grande herói de Dourados, o Tenente Antônio João Ribeiro. Bem, quando se inaugurou o Grupo Escolar provisório, nas casas da Fábrica, o Cel. Carneiro querendo homenagear seu Assistente Técnico, que mais tarde se tornaria em outro querido diretor da mesma Fábrica bélica, denominou este como "Grupo Escolar Ten. Cel. Aquino". Um outro nome foi propugnado ao novo grupo, homenageando o ilustre chefe político do passado, Capitão José Monteiro de Brito. Tal proposta foi defendida pelo jornal "O Monitor", em reportagem com o título de "Uma Lembrança Feliz", no número 60 de 13 de outubro de 1940, onde diz no seu final:

"Traduzindo, como porta-voz dos interesses de Piquete, as aspirações de sua população, 'O Monitor' lança daqui um apelo ao benemérito governo do Estado, para que denomine o nosso Grupo Escolar com o do emérito Cap. José de Brito. Será um ato de justiça com que o governo agraciará o povo de Piquete".

Aí estão dois nomes que o Grupo não teve. Se, porventura, qualquer um deles o denominasse, sobremaneiramente estaríamos sendo honrados pelo muito que deram de si em prol do ensino e da cidade. Mas, quem aprova o nome de escolas é a Assembléia com o aval do Governador e é bem provável que nenhum desses honoríficos nomes por lá tivessem chegado. E o Grupo veio como "Antônio João". Contar a vocês a história deste bravo e heróico soldado da "batalha" de Dourados é desnecessária, pois ela tornou-se símbolo do destemor e do acendrado amor brasileiro a sua terra. Vocês provavelmente conhecerão os mínimos detalhes da vida de seu Patrono. E da resposta escrita a lápis num simples pedaço de papel por Antônio João, após rasgar o ofício paraguaio, intimando a rendição do forte, no dia 28 de dezembro de 1863, quando 12 destemidos brasileiros enfrentaram 250 atacantes sob o comando do Major Martin Urbieta:

"Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo da minha pátria.
Antônio João Ribeiro
".

Mas poderão indagar-se por que será que o Tenente Antônio João foi lembrado e homenageado, somente passados mais de setenta anos após o término da Guerra do Paraguai. A resposta torna-se fácil e compreensível, pelo que escreveu sobre o assunto o General Valentim Benício da Silva. Leiam:


Antônio João Ribeiro

"Meio século transcorreu sobre as cinzas das vítimas da Guerra do Paraguai, meio século de silêncio, de repouso imposto pelas energias despendidas. Não é esquecimento, não é desídia, é um fenômeno natural, exigido pela reconstituição do organismo combalido. Há nesse período mais ou menos dilatado, como ocorreu em nossa história, um trabalho de reconstituição, de coordenação, de compilação. Só mais tarde, feita a sedimentação do material acumulado, surge a verdade histórica, serena e justa, embora às vezes tarda. Terminada em 1870 a Guerra do Paraguai, e em 1920, 50 anos depois, a imprensa da Capital Federal, pelas colunas autorizadas de 'O Jornal' bradava contra o esquecimento em que jaziam os heróis daqueles episódios épicos, ocorridos nos primeiros tempos da guerra, perdidos na imensidão do território matogrossense. E o brado de alerta não podia ter melhor eco; a Escola Militar o acolheu e o civismo da mocidade acadêmica multiplicou-lhe a energia. Em pouco tempo a advertência era transformada em idéia em marcha, vitoriosa desde o primeiro instante. O professor Cordolino de Azevedo à frente do movimento secundado pelo então cadete Osório Tuiuti, é a direção do mestre orientando o entusiasmo sadio dos moços da Escola Militar. E constitui-se uma comissão que se lança ao trabalho, conseguem-se recursos que partem da contribuição do Presidente da República, dr. Epitácio Pessoa, e descem ao minguado, porém milagroso soldo do cadete, e forma-se um quantioso capital que assegura o êxito do meritório empreendimento, um monumento aos heróis da Laguna e de Dourados. Aberta a concorrência, a ela se apresentam entusiásticos nada menos de 16 escultores, cabendo a palma a Antonio Primo de Matos. Antônio João, Camisão e o Guia Lopes são as figuras máximas da imponente obra que terá lugar de destaque na Capital da República, recordando à Nação os Heróis que souberam morrer pela Pátria. Passam-se mais 17 anos de trabalhos insanos à cata de recursos para a execução do monumento, e só agora, neste ano de 1938, por feliz deliberação do ministro da guerra, general Eurico Gaspar Dutra, é definitivamente escolhido o local em que se vai erigir o monumento. E não podia ser melhor. É ali, na Praia Vermelha, sobre os alicerces da extinta Escola Militar do Brasil, entre aqueles dois imponentes monólitos que ouviram durante longos anos o verbo fogoso do professor Lobo Viana, repetindo a gerações de oficiais que ali se formaram, a glória dos nossos soldados, a abnegação e renúncia dos chefes que morreram nos pantanais e dos que por milagre sobreviveram à fome, ao fogo, às lanças e balas inimigas, à luta sem tréguas, à peste violenta e inexorável. E a 'epopéia de Mato Grosso, no bronze da história' será o mais expressivo tributo da Pátria agradecida aos que, na expressão silenciosa do cumprimento do dever, por ela deram a vida - Camisão, Guia Lopes, Antônio João."


Festividade recente de aniversário do antigo Grupo Escolar Antonio João.
Prefeito da cidade, professores e ex-professores, quase em sua totalidade,
ex-alunos do estabelecimento.
Foto de Alzira Beckmann, enviada por Lety

A construção de nosso Grupo Escolar coincidiu com as inaugurações do monumento erigido no Rio de Janeiro, ex-capital da República, razão pela qual, foram perpetuados os nomes destes heróis, que servem como um hIno de patriotismo a todos os brasileiros, às escolas estaduais que se construíam em São Paulo. A nós coube o protagonista maior de Dourados. Se nossos coleguinhas de hoje já sabiam de tudo isso por aqui escrito nestas linhas, duas coisas pelo menos restam-nos como consolo: foi muito bom revivermos momentos daqueles tempos de bancos escolares e a revitalização de nossos valores alimentando-os com os feitos daqueles que colocaram acima de todos os interesses, até da própria vida, o amor ao nosso país, como o heroísmo do nosso Patrono.

"Antônio João! flor de bravura altiva!
Mais que Leônidas! trincheira viva
Da Pátria, a repelir as invasões!
Vós sois a síntese duma epopéia,
Estrelas alfas, que nos dais idéia
Das mais esplêndidas constelações!"
(D. Aquino Correia)


José Palmyro Masiero
"Piquete de meus Amores"

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