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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM |

O Presidente da
República Afonso Penna (à frente), no dia 15 de março de 1909, na Vila da
Estrela,
em Piquete, quando da inauguração da Fábrica de Pólvoras sem
Fumaça.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"
A instalação da Fábrica de Pólvoras em Piquete foi resultado da combinação de acordos celebrados entre três forças motrizes altamente motivadas pela idéia da organização nacional. 1. Os interesses dos políticos ligados ao Partido Republicano Paulista, que foi caudatário das idéias positivistas que deram nascimento à República e fizeram conservadores monarquistas se transmudarem para o liberalismo e o republicanismo. Alinhavam-se entre esses o ex-deputado e senador Arnolfo de Azevedo, um incontestável líder entre os camaristas de Lorena e com grande espectro de influência nas políticas regional, estadual e mesmo nacional. 2. Os arranjos tramados pelos alvistas em apoio a Rodrigues Alves (Francisco de Paula Rodrigues Alves), guaratinguetaense que ocupou a presidência da República entre 1902 e 1906. Foi nesse período de governo que o Ministro da Guerra, o Marechal Argollo (Francisco de Paula Argollo), visitando a Vila Vieira do Piquete, nela reconheceu o local ideal para a construção da pretendida fábrica, a que se sucederam as construções da Usina Hidroelétrica Rodrigues Alves, da Estação Ferroviária Rodrigues Alves e da instalação do ramal férreo Lorena-Piquete – todos estabelecimentos inaugurados em 1906. 3. A recém-emancipada Vila Vieira do Piquete (15/06/1891), como cidade nascente, ávida de estabelecimento que lhe desse condições de sustentação e aos seus habitantes despojados das produções cafeeiras. Além dos muitos retornados da ilusão do ouro e dos caminhos perversos, nos quais o perigo e a fome presentes dificultavam até mesmo as produções de subsistência. Viver, por aqui, sempre foi muito perigoso. A miséria e sua companheira, a insegurança, grassavam nos velhos caminhos prejudicados pela agudeza das escarpas da serra.
Esses três motivos tópicos norteavam-se pelos propósitos do Ministério da Guerra e das Forças Armadas, particularmente do Exército, em atender a necessidade da instalação de uma indústria bélica nacional para se evitar importação, até de pólvora, pois a incipiente produção no Rio de Janeiro não satisfazia. Impunha-se essa providência pela necessidade da defesa do território nacional, particularmente nas fronteiras ainda nem todas totalmente consolidadas, as lutas internas e externas e a exigência em se atender a capacidade de dissuasão requerida pelos Estados-nação ao se constituírem frente às organizações geopolíticas. Movimentos como a Guerra do Paraguai e as questões do Contestado e da Campanha de Canudos estavam entre as motivações mais destacadas. Daí a correlação de forças civis e militares para a instalação da nossa Fábrica, cuja história vinculou-se à vida da cidade, definiu seu destino e modelou a população que hoje demonstra, pelos lados positivos e negativos, a marca indelével dos resultados.
A inauguração a 15 de março de 1909 revestiu-se de solenidade pela presença do Presidente da República, Afonso Moreira Pena, e do Ministro da Guerra, Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, além de outras autoridades nacionais, regionais e locais.
A inauguração da Fábrica em Piquete foi um dos marcos destacados de uma política que ganhara corpo com a República, no sentido de valorizar o que a elite definira como governo de nação, processo civilizatório e consciência de, tomadas as lições da História, dar-lhes clareza, método e organização, para que a nacionalidade se definisse como guardiã de um princípio básico de ordem e progresso. Princípio esse defendido pelos positivistas, principais mentores da idéia republicana. Para a população piquetense da época, a possibilidade de se atrelar aos órgãos federais na implantação de uma indústria acenava para um novo tempo, que nos inícios do século XX, se anunciava como promissor. A prioridade estratégica apontava pela situação no eixo dos dois maiores polos consumidores: São Paulo e Rio de Janeiro. A fronteira ou divisa entre São Paulo e Minas Gerais ainda gerava muitas discussões, importantíssima questão para definir áreas de segurança e de cobrança de taxas e impostos. Uma questão fiscal que mobilizava registros e barreiras. A questão ambiental ainda não estava em jogo. Ao contrário, um quadro natural, praticamente intocado, acenava, paradisíaco, para a obtenção de lenha e água. Hoje, podemos discutir os resultados dessa intervenção, e não são poucos os dados para cruzarmos e podermos explicar a acidez das águas da chuva, a "morte" dos rios e o sentido do uso das águas correntes para carrear toda sorte de sedimentos biodegradáveis ou não. Quando da primeira locomotiva se emitiu o primeiro apito de trem, os corações se incendiaram, a circulação sanguínea se acelerou, os foguetes espocaram e os primeiros viajantes foram recebidos euforicamente. O progresso chegava pelos trilhos da estrada de ferro. Os animais de carga subsidiariam a circulação nos caminhos mais rudes e íngremes sujeitos a toda sorte de intempéries. Nos trilhos férreos, assegurava-se a movimentação. Na estação, o telégrafo complementaria a eficiência. Piquete entrava na modernidade do século XX movido pelo industrialismo e pelo urbanismo. Dóli de
Castro Ferreira |

Visita de Getúlio
Vargas
Foto do Jornal "O Estafeta"
Inaugurada oficialmente sob a denominação de Fábrica de Pólvora sem Fumaça, em 15 de março de 1909, passou a ser chamada de Fábrica de Pólvoras e Explosivos de Piquete por força do Decreto nº 878, de 3 de junho de 1936. Em 1939, por meio do Aviso Ministerial nº 328, de 29 de abril, para simplificação, foi novamente mudado o seu nome para Fábrica de Piquete. Finalmente, quando da visita à Fábrica do então Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, em 8 de dezembro de 1942, numa cerimônia no salão nobre do Círculo Militar da Estrela, foi assinado, em ato solene, o Aviso nº 3231, segundo o qual a Fábrica de Piquete passou a denominar-se Fábrica Presidente Vargas. Para acompanhar de perto as obras de expansão dessa indústria bélica, a menina dos olhos do Ministério da Guerra, o presidente Getúlio Vargas visitou a Fábrica de Piquete em 17 de julho de 1939. Foi uma visita memorável, ainda lembrada por ex-funcionários. O presidente, acompanhado pelo Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, e o chefe de sua Casa Militar, Francisco José Pinto, foi cumprimentado na escadaria do Cassino dos Oficiais pelo Almirante Guilhem, Ministro da Marinha, pelo Dr. Adhemar de Barros, Interventor Federal no Estado de São Paulo, generais Maurício Cardoso, Comandante da 2ª Região Militar, Lúcio Esteves, Comandante da 5ª Região Militar, Sílio Portela, Diretor do Material Bélico, Raimundo Sampaio, Diretor de Engenharia, e pelo Coronel José Gomes Carneiro, Diretor da Fábrica de Piquete. Lá estava também grande número de oficiais, autoridades, pessoas gradas, famílias, estudantes e o povo de Piquete. A banda dos operários da Fábrica executou o Hino Nacional e uma seção de artilharia deu as salvas regulamentares. Em seguida, o Contingente da Fábrica apresentou armas em continência, enquanto os estudantes das escolas de Piquete agitavam centenas de bandeirinhas brasileiras. O regozijo foi geral - em cada fisionomia um sorriso de simpatia e uma expressão de curiosidade pela figura simples e afável do magistrado supremo do país. No salão de honra do Cassino, o Coronel Gomes Carneiro, Diretor da Fábrica, apresentou todos os oficiais que serviam sob suas ordens, bem como alguns técnicos civis contratados. Mais tarde, todos se dirigiram para o jardim em frente à administração, no interior da Fábrica, onde o presidente foi saudado pelo Coronel Gomes Carneiro que, em nome da diretoria, da administração e da oficialidade deu as boas-vindas ao insigne visitante. O operário Augusto Ribeiro de Souza, em nome do operariado saudou também o presidente, e a menina Maria Augusta Beraldo Leite declamou com graça e naturalidade uma poesia dedicada ao chefe da nação. Os alunos da Escola Pública da Fábrica, dirigidos pela Prof.ª Cenira Araújo, e todos os operários, sob a direção do Cap. Bibiano Sérgio Dale Coutinho, cantaram o Hino Nacional. Em seguida, um batalhão constituído pelo Contingente da Fábrica e por mais de mil operários desfilaram recebendo palmas pelo garbo, disciplina e entusiasmo com que se apresentaram. Após essa solenidade, o presidente da República iniciou a visita à Fábrica percorrendo demoradamente todos os grupos de fabricação. Ao chegar às obras de instalação da fábrica de pólvora de base dupla, foi recebido e saudado pelo chefe da Comissão Construtora da "Base Dupla", Cel. Luiz Sá Affonseca. Terminada a visita às instalações fabris, o presidente da República dirigiu-se ao "Hospital da Estrela", onde hoje se encontra instalado o Fórum, e percorreu a vila operária em construção ao lado. Terminada a visita, o presidente não escondeu o entusiasmo por tudo que observara, tendo ressaltado a disciplina, a ordem, o asseio e a perfeita compreensão de responsabilidade de todos que empregavam suas atividades no maior e mais importante estabelecimento fabril do Ministério da Guerra. À noite, no salão do Cinema, magnificamente engalanado, foi servido um jantar pela direção da Fábrica. Após o banquete, o Presidente foi presenteado com um artístico bronze pelo Coronel Gomes Carneiro, que discursou agradecendo a honrosa visita. Ante o inesperado da cerimônia, o Presidente, visivelmente comovido, agradeceu com palavras repassadas de emoção a lembrança doada pela Fábrica de Piquete. Antes de se retirar, inaugurou a iluminação do campo de esportes dos operários e recebeu estrondosa manifestação do povo que, em massa, aglomerava-se para novamente o saudar. Em outubro de 1940, o presidente Getúlio Vargas, participando de manobras militares no Vale do Paraíba, fez uma segunda visita à Fábrica. Foi, com carinho, que a oficialidade, o operariado e a população de Piquete receberam a notícia de que a Fábrica de Piquete, a partir de 8 de dezembro de 1942 passaria a se chamar Fábrica Presidente Vargas. Jornal "O
Estafeta" - Edição Comemorativa |

Símbolo da IMBEL,
que incorporou a Fábrica Presidente Vargas, em 1977.
11-02-1902: O
Marechal Mallet chega a região de Piquete, a convite do Barão da Bocaina,
para escolha do local para construção de um sanatório militar e de uma
fábrica de pólvora. Em março tem início a construção do Ramal Férreo
Lorena-Bemfica e do Sanatório Militar, em Lavrinhas, próximo a São
Francisco dos Campos. Jornal "O
Estafeta" - Edição Comemorativa |

Operários em 1977,
quando a FPV foi incorporada ao grupo IMBEL
Foto publicada no Jornal "O
Estafeta"
A instalação da Fábrica de Pólvora sem Fumaça, em Piquete, no começo do século XX, inaugurada a 15 de março de 1909, trouxe animação e esperanças à recém emancipada cidade. Os homens em idade adulta passaram a ser incorporados a suas fileiras produtivas, desde a construção das oficinas, estradas de ligação, até os galpões e prédios da administração e burocracia, e das linhas de produção propriamente ditas, além da edificação das residências dos oficiais graduados. Ligada desde as origens ao estabelecimento militar do Exército e às Forças Armadas, logo cedo ela já incorporava a hierarquia dos comandos e dos seus componentes. Pertencer aos quadros de produção da Fábrica não era apenas uma necessidade, chegava a ser uma questão de "status", um escalonamento social respeitável. Afinal, havia um salário, algumas garantias para alugar-se uma casa, casar-se e ter filhos; e os mais jovens, para conseguir emprego e ascender na escala produtiva, aceitavam começar dos trabalhos mais pesados e menos atraentes, para lutar por melhores posições.
Muitos nomes ascendentes na escala social da cidade e nos quadros do funcionalismo da Fábrica iniciaram suas carreiras nas seguintes condições: instalavam dormentes e faziam reparos na estrada de ferro, faziam limpeza de todo tipo, cuidavam de hortas, pastagens e animais, além de serem usados como mensageiros e serviçais dos mais diferentes afazeres. Afinal, eram subalternos, e como tais tratados. A hierarquia era obedecida sem pejo e com humildade. Esta foi a marca individualizadora daqueles homens que, depois de idade não muito avançada, anunciavam, nos rostos, a marca indelével das histórias das quais foram protagonistas. Enquanto isso, a pólvora à base de nitrocelulose, denominada sem fumaça, era produzida segundo as técnicas que vinham de 1884, que, com propriedades balísticas adequadas, exigidas pelos fuzis Mauser 1894, importados, justificavam a implementação produtiva da munição necessária. A importação, onerosa, impunha a criação de fábricas de munição de armas portáteis como a que foi instalada no Rio de Janeiro – a Fábrica do Realengo, concluída em 1898, e a Fábrica em Piquete, no início do século XX. Os operários eram treinados para elaborar o trabalho junto às oficinas de produção que se instalavam sob orientação dos técnicos norte-americanos da Dupont-Nemours. Nem tudo são glórias. Houve ferimentos e mortes entre os trabalhadores da Fábrica. A poluição no trabalho e os descuidos da segurança causaram muita dor e perdas. Este é um capítulo muito difícil de ser tratado. Os números reais dos eventos infaustosos misturam-se e o que permanece é uma angústia para não se esquecer jamais. Esta memória não deve ser perdida, por sua exemplaridade. O ruído forte e rouco da explosão na serra, pois as usinas, perigosas, eram encaixadas nas grotas rochosas, o penacho de fumaça nas vertentes dos vales encaixados estreitavam a circulação sanguínea e aceleravam as taquicardias. Todos saíam às calçadas e portas. Corria-se à entrada da Enfermaria-Hospital, depois do Hospital propriamente dito. Boatos. Confirmações. Avisos fúnebres. Tudo muito difícil de ser cumprido. As famílias dos desaparecidos em angústia. Os restos buscados nas matas. Os enterros quase simbólicos. As cruzes estilhaçadas no cemitério. As memórias dos que foram naquele dia ou pernoite, e não voltaram. Os sorrisos deixados no ar. Os anseios sepultados e os sonhos interrompidos. A ausência de muitas perspectivas. Os balcões dos bares, na procura insana da possibilidade do esquecimento do destino trágico. Os pulmões afetados. A neurose do trabalho. As contas a pagar e os filhos, o lar, os preços, a comida, os remédios. A necessidade da moradia.
Paralelamente, os diretores da Fábrica, e especialmente, o Cel. Aquino, na angústia de tentar evitar maiores males, buscando, de alguma forma, superar essas dificuldades. Visitava as famílias, procurava oferecer uma residência de posse permanente e hereditária, educar os filhos, e funcionava como conselheiro. Mas as situações complicavam-se e as circunstâncias nem sempre favoreciam. O destino incerto, entretanto, irmanava a todos. A população inteira de Piquete e Lorena solidarizava-se. O sincretismo religioso, as festas populares e religiosas, os bailes, o Carnaval e os desfiles cívicos pomposos tentavam disfarçar esses males. O glorioso Esporte Clube Estrela era uma boa derivação para as emoções reprimidas. Uma “elite” nos salões programava eventos e encontros. As bandas marciais encantavam e animavam. E a juventude disputava prêmios entre bailes e bailes. Havia uma euforia paralela. Eram as décadas de 1940 - 1950 -1960. Dóli de
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