PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Memorial da Escola Normal "Duque de Caxias"


Ricarda Godoy Lopes - a  mestra de gerações de normalistas,
hoje nomeia uma das escolas de Piquete.
Foto de foto - Lety

Diz Plotino: "Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas, se a circunferência também o fosse, não seria esta senão um centro imenso". Com esta epígrafe, dentre outras, João Guimarães Rosa anuncia o "Corpo de Baile", introduzindo as idéias em que um mundo rico e prodigioso se abre em forma de sabedoria. E ainda acrescenta, seletivo em suas escolhas: "Vêde, eis a pedra brilhante dada ao contemplativo; ela traz um nome novo que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe", cuja autoria é de Ruysbroeck, o Admirável, em "O Anel ou a Pedra Brilhante". Destes pensamentos retorno à memória da Escola Normal Livre "Duque de Caxias".


No aniversário de oitenta anos do Grupo Escolar "Antonio João"
os professores Fernanda e Joracy Faury
Foto de Lety

Não poderia deixar de citar todos os nomes dos colegas: Augusto Costa dos Santos, Elza Bittencourt, Elzira Ferreira, Elvira Cipoli, Fausto Gomes, Francisco Máximo Ferreira Netto, Iracema Rabello, Joracy Faury, Hélio Fábio di Domenico, Luiz Gonçalves, Maria Aparecida Teixeira, Maria Odaisa da Costa Frota, Maria Terezinha Maduro, Olga Maria Eklund, Risoleta Pereira de Aquino, Rosina de Carvalho Dantas Santos, Selma Carneiro Brasil, Wanderley Rosseti e Washington Tibagi de Souza Almeida.


Aluna da primeira turma da E. N. L. "Duque de Caxias", posteriormente, professora
deste estabelecimento de ensino, Odaisa Frota nomeia uma das escolas da cidade.
Foto de foto - Lety

Ao juntar-me a eles, sei, e cada vez mais julgo-me certa em afirmar que a experiência por nós vivenciada foi única e generosamente compartilhada. Nossa grade curricular baseou-se, entre 1950 e 1952, em três referências seriais, cujos estágios foram, para cada ano, Pré-Normal, e 1º e 2º do Normal propriamente dito. No Pré, recebemos lições de humanidades, ciências exatas, artes e reforço nas letras, que professores exigentes estimulavam, na busca do bom texto e do uso vernacular correto. Nas aulas das ciências exatas, a Química e a Matemática nos eram ensinadas com rigor. Já contávamos com laboratório em classe. Do capitão Luiz Felipe, engenheiro químico, lembro-me insistindo no conhecimento dos símbolos, das fórmulas, das combinações e dos perigos, tudo dosado de verve carioca e senso de humor. Na Matemática, o professor elegante era mais sisudo a nos ensinar estatísticas nos meios, médias e moda. Era necessário dominar estatística para aprender e fazer escrituração escolar. As provas eram terríveis! Sufocávamos. A História do Brasil, ministrada por "seu" Zito (José Geraldo Evangelista) era de um sabor pleno. Amávamos o professor e suas aulas exemplares. E ele sabia cativar. Invejávamos sua desenvoltura, conhecimento, ponderação e amizade. Parecia um irmão mais velho, pouco mais velho. Também tínhamos música, canto orfeônico. Dona Carmélia Godoy Bittencourt era uma "fera" em todos os sentidos. Exigente a cobrar afinação, transcrição de partituras e até ilustrações artísticas nas pastas das lições de casa. No 2º e 3º anos vieram as lições pedagógicas, das quais já lembrei nossas luminares Ricarda e Waldira e mais uma série de mestres e mestras que, mesclados em suas potencialidades, faziam a escola se destacar, tornar-se centro de referência e receber tratamento privilegiado. Por isso concorremos num concurso de apresentação de teses sobre Educação Rural, em São Carlos, em simpósio organizado pelo Estado, na Escola Dr. Álvaro Guião. Lá nos levou o "seu" Zito e lá vencemos galhardamente o certame. Foi uma celebração, com a presença até da representação do governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez. No final do curso ganhamos da direção do Departamento Educacional da FPV uma viagem-premio para o Rio de Janeiro, de dez dias, onde, liderados pelos diretores da escola e do Departamento Educacional, visitamos escolas, museus, exposições e pontos turísticos. No Instituto Manguinhos recebemos aula de um pesquisador especializado em aranhas, que nos tratou com deferências especiais. Fomos conhecer o famoso Copacabana Palace, no auge de sua glória, e ainda igrejas e teatros. 


Alunos e professores da Escola Normal em 1964. Na fila da frente da esquerda para a direita os professores: Ricarda Godoy Lopes, Abigayl Léa, Iberê, Leopoldo Marcondes de Moura Netto, Odaisa Frota. Segunda fila: Eugênia Capistrano, Cida Ferreira, profª Hermínia Rosa, profª Eunice Gonçalves, Terezinha Soares. Terceira fila:, Eliana Marques, Dulce maia, Isa Angelo, Maria Aparecida Floriza dos Santos, Ilca Marques, Neide Simas, Leila Marques. Última fila: Maria Helena, Joaquim Gonçalves, Geraldo Mota, Célia, Maria Aparecida Faria, Mariza Maduro, Aparecida de Castro, Alzelina Rosa, José Rosalvo Ferreira, Edwiges(Edi).
Foto do extinto site http://piquete.multiply.com  identificada por Neide Simas Luz.

Viajamos a Petrópolis, onde visitamos o Museu Imperial, o famoso Quitandinha, as belezas da serra. Passeamos e aprendemos muito, inclusive a romper fronteiras. Nosso coral orfeônico era primoroso. Chegamos a pensar até em dispensar o regente. Mas aí, naufragamos em nossa empáfia. Como é bom aprender... Nossas aulas experimentais eram laboratórios de pesquisas didático-pedagógicas. Disputávamos planos de aula sofisticados. Já criávamos o que hoje os declamados Projetos de Programas Curriculares Nacionais colocam como novas receitas. Constituíamos até modernas cartilhas que rompiam os velhos métodos silabados da "pata nada" e da "macaca é má". Preferíamos o aprendizado compreensivo integral. Além de tudo, sabíamos ser necessário vencer as fórmulas estereotipadas. Ao nos visitar, Lourenço Filho entusiasmou-se, ele que era eminente educador. Gestava-se aqui um modelo novo. Um dia chegamos à conclusão do curso, para organizar a formatura. Nós, as meninas, queimamos nossas gravatinhas em pira simbólica e sabíamos que ali ficava uma das fases mais significativas de nossas vidas. Chegou o dia da festa, após o Natal - 26 e 27 de dezembro de 1952. A missa de manhã foi oficiada na matriz tradicional de nosso arcanjo Miguel. À noite, tivemos soleníssima cerimônia de colação de grau no Cine Estrela. Na noite seguinte um garboso baile de gala realizou-se no "Elefante Branco", tornado salão de luxo. Na decoração de César Dória, um globo de cristal girava, composto de espelhos multifacetados. Fragmentava e multiplicava nossos movimentos juvenis engalanados ao sabor das valsas vienenses... Anos dourados. No momento da valsa principal, a entrada cadenciada dos pares. Insistia-se para que o Coronel Aquino, conduzindo Risoleta, abrisse o desfile e os rodopios, no requinte requerido. A orquestra deu o toque triunfal. E lá fomos nós, valsando vida a fora. Aquele momento foi eterno. O sabor, nem os sons morreram. Aquela noite perenizou-se. Selamos nossas trajetórias. A experiência que vivenciamos em nossa escola, tenho certeza, foi única, além de magna. E, portanto, em homenagem à Iracema Rabello, sursum corda!

Dóli de Castro Ferreira

Nota da autora: O recorte de tempo da experiência aqui narrada se estendeu de 1950 a 1952, e como fomos os primeiros das turmas da escola, escolhemos desde os uniformes até nossas participações como membros da comunidade, não sem discussões acaloradas, as quais Leopoldo Marcondes de Moura Neto, o diretor, arbitrava com sabedoria.
Texto publicado no Jornal "0 Estafeta" - janeiro de 2003


Diretor Leopoldo Marcondes de Moura Neto e saudosas professoras.
Arquivo Rossana Mazza Masiero

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