PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

Velhos Carnavais


Bloco Guarany, na Estação da Estrela, em 1931
Foto escaneada do Jornal "O Estafeta"

 

Velhos Carnavais

O Carnaval, como o conhecemos hoje, em nada se compara ao de décadas passadas. Sua origem remonta ao Egito, à Grécia e à Roma antiga. Foi oficializado na Idade Media para compensar a abstinência da Quaresma. É a festa mais popular do calendário brasileiro. Chegou ao país com os colonizadores portugueses, no princípio do século 17, na forma de entrudo, jogo violento levado às ruas, em que os foliões se divertiam atacando pedestres com cal, farinha e seringas metálicas cheias de água. A brincadeira, que, não raro, acabava em briga, foi regulamentada diversas vezes e proibida definitivamente em meados do século 19. Na Corte do Rio de Janeiro, intelectuais e burgueses trouxeram da Europa uma nova maneira de brincar o carnaval: eram os "préstitos", desfiles de carros enfeitados, dos quais só participava a alta sociedade. Enquanto a elite desfilava, o povo assistia. Em 1846, um despretensioso personagem desafiou, em parte, essa ordem. Munido de batuques, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes reuniu um grupo de foliões e saiu pelas ruas do Rio de Janeiro, no que deve ter sido o primeiro bloco de rua. O grupo ficou conhecido como "Zé Pereira" e logo passou a ser imitado. Décadas depois, em 1892, o confete chegou ao Brasil para substituir as seringas do entrudo e os foliões passaram a atirar serpentina em vez de flores nos carros alegóricos. Ainda no século 19, vieram as fantasias e máscaras. Por influência francesa, o Carnaval saiu das ruas para os salões de clubes e sociedades, onde os bailes familiares eram animados com polca e valsa. Em Piquete, tornaram-se famosos os bailes no Hotel das Palmeiras e no Cine Glória. Até o início dos anos 20, apesar das restrições, brincou-se o entrudo. Com a inauguração da Fábrica de Pólvora sem Fumaça, em 1909, ocorreram diferentes influências no Carnaval piquetense, trazidas por operários e militares provenientes de diferentes regiões brasileiras, principalmente da capital federal. Em 1926, surgiu o primeiro grupo de foliões a brincar pelas ruas empoeiradas da cidade - o rancho "Flor do Indaiá". Organizava-se na rua da Mantiqueira, atual Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, de onde partia, numa espécie de procissão, parando nas casas das autoridades, para se apresentar e receber-lhes anuência. Assim seguiam, dançando, por várias ruas da cidade. Apresentavam-se no Cine Glória, no hotel de dona Maria Eufrásia e no Cassino da Estrela. Em 1931, o mesmo grupo, acrescido de outros foliões, formou o bloco "O Guarani". Ainda no final dos anos de 1920, surgiu o "boi-de-jacá" ou "boi-de-carnaval", que percorria as ruas da cidade acompanhado por duas ou três burricas, alguns músicos e muita gritaria das crianças. Com a criação dos clubes recreativos para os operários, nos anos de 1930 e 1940, e a popularização do rádio e divulgação de marchas carnavalescas, o Carnaval ganhou, cada vez, mais adeptos. Os clubes da cidade ficavam superlotados durante os três dias de folia, com blocos de mascarados, fantasiados e tipos característicos, que animavam os bailes. A festa de Momo era democrática: indiferentemente da classe social, todos juntos se divertiam. Havia concursos em que eram premiados os maiores foliões e as fantasias mais luxuosas e originais.O carnaval de rua de Piquete teve seu apogeu nos anos de 1960 e 1970, época em que a FPV promovia os melhores carnavais valeparaibanos. Aos poucos, foi perdendo o brilho. Mantém, no entanto, dos antigos carnavais, os "bois", que ainda animam a criançada. Irreverentes, perseguem transeuntes, investindo contra os curiosos, amedrontando as crianças que, apesar do medo, brincam ao seu redor numa grande algazarra. Que esta manifestação cultural espontânea dos piquetenses se mantenha viva por muitos e muitos Carnavais!

Texto do Jornal "O Estafeta" - janeiro de 2005
Piquete, SP

    

       
Carnaval de 1951 - A bailarinazinha russa desfila a sua fantasia, entre os casarões da Rua Major Carlos Ribeiro.
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

 

Na Balada das Marchinhas...

Ei, você ai...
Me dá um dinheiro aí,
Me dá um dinheiro aí...
Não vai dar; não vai dar não...

Os salões ornamentados com máscaras e serpentinas, os foliões ordeiros que faziam das quatro noites momentos de lazer. E as marchinhas eram cantadas em vozes uníssonas:

Mamãe, eu quero...
Mamãe, eu quero mamar...
Me dá chupeta,
me dá chupeta...

Às vezes o gelado lança-perfume tocava as costas nuas e quentes de uma paquera; dela, charmosa, ganhava-se um "ui!", um olhar desejoso e um sorriso de bem-querer.

Quem sabe, sabe...
Conhece bem.
Como é gostoso gostar de alguém...


As odaliscas, havaianas e colombinas, os pierrôs, arlequins e palhaços confundiam-se na batalha de confetes: as rodelinhas multicolores grudavam no suor da alegria.

Um pierrô apaixonado,
Que vivia só cantando,
Por causa de uma colombina,
Acabou chorando, acabou chorando...

A serpentina enrolada ao pescoço, colocada numa fita na testa ou entrelaçando dois corpos, destacava os foliões.

Guardo ainda
Bem guardada a serpentina
Que ela jogou...
Ela era uma linda colombina...

As saudosas marchinhas seduziam os velhos Carnavais.

Eu mato, eu mato...
Quem roubou minha cueca.
Pra fazer pano de prato...

Quando todos já estavam fatigados, a banda relaxava.

Quanto riso,
Quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão...


Na balada das marchinhas, sassaricávamos...

Edival da Silva Castro
Jornal "O Estafeta", fevereiro de 2009


Carnaval de 1953 - a pequena cigana mostra o prêmio recebido no concurso de fantasias infantis
do Grêmio General Carneiro. Ao fundo, a Praça Duque de Caxias e o Elefante Branco
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

 
Carnaval de 1953 - A mesma ciganinha, à frente do Grêmio General Carneiro mostra detalhes de sua fantasia.
Atrás, nas fotos, percebe-se o início da Vila Duque.
Arquivo Maria Auxiliadora M. G. Vieira

Continua

 

 

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