MEUS SONETOS PREDILETOS

 

 

 

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante
por desertos, por sóis, por noite escura.
Paladino do amor, busco anelante,
o palácio encantado da Ventura.

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que de súbito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
- Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
silêncio e escuridão - nada mais!

Antero de Quental

 

DUAS ALMAS

Ó tu, que vens de longe; ó tu, que vens cansada...
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho;
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy

 

ARRUFOS

Não há no mundo quem amantes visse
que se quisessem como nos queremos...
Um dia, uma questiúncula tivemos
por um simples capricho, uma tolice.

- "Acabemos com isto!", ela me disse.
E eu respondi-lhe assim - "Pois acabemos!"
E fiz o que se faz em tais extremos:
tomei do meu chapéu com fanfarrice.

E, tendo um gesto de desdém profundo,
saí cantarolando... (Está bem visto
que a forma aí contrafazia o fundo).

Escreveu-me... Voltei. Nem Deus, nem Cristo,
nem minha mãe, volvendo agora ao mundo,
eram capazes de acabar com isto!

Arthur Azevedo

 

ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Luiz Vaz de Camões

 

FELICIDADE

Eu também me enganei, julgando achar-te,
Felicidade! eu, como os outros, cria,
poder com as minhas súplicas, um dia,
o coração de mármore tocar-te...

Nessa ingênua ilusão do homem que parte
às conquistas supremas, eu trazia
um fulgor de aventura e de ousadia,
nos olhos cheios de meus sonhos d'arte.

Eu também me enganei... Mas pouco importa!
Sobre a doce miragem que se esfuma
esta certeza ao menos me conforta:

- É que tu, sombra vã, que nada dizes,
Felicidade! tu não passas de uma
invenção de mau gosto dos felizes...

 Correia Júnior

 

SONETO

Estes os olhos são da minha amada...
Que belos, que gentis e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
os doces frutos da estação dourada.

Por eles a alegria derramada
tornam-se os campos de prazer gostosos.
Em zéfiros suaves e mimosos
toda esta região se vê banhada.

Vinde olhos belos, vinde, e enfim trazendo
do rosto do meu bem as prendas belas,
dai alívio ao mal que estou gemendo.

Mas ah! delírio meu que me atropelas!
Os olhos que eu cuidei que estava vendo,
eram (quem crera tal!) duas estrelas.

Cláudio Manoel da Costa

 

ONTEM À NOITE

Ontem - sozinhos - eu e tu, sentados,
nos contemplamos, quando a noite veio.
Queixosa e mansa, a viração dos prados
beijava o rosto e te afagava o seio,

que palpitava como - ao longe - o mar.
E, lá no céu, esses rubis pregados
brilhavam menos, que teu vivo olhar!
  Co'a mão nas minhas, no silêncio augusto,

tu me falavas sem mentido susto, 
e nunca a virgem - que a paixão revela -
passou-me em sonhos tão formosa assim!

Vendo a noite pura e vendo a ti tão bela,
eu disse aos astros: - Dai o céu a ela!
Disse a teus olhos: - Dai amor prá mim!

Casimiro de Abreu

 

BOIADA

Verde largo é o sertão! No claro firmamento
de um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
o sol é um dardo de oiro.  E, num tropel violento,
passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.

Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
no áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
à canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo.

Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
irmanando-se à paz da imensa natureza,
têm saudades, talvez: - soltam fundos mugidos...

Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
- Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!

Carlyle Martins

 

JÁ BOCAGE NÃO SOU!...  

Já Bocage não sou!... À cova escura
meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
leve me torne sempre a terra dura.  

Conheço agora já quão vã figura
em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa! tivera algum merecimento
se um raio da razão seguisse pura!  

Eu me arrependo; a língua quase fria
brade em alto pregão à mocidade,
que atrás do som fantástico corria:  

outro Aretino fui... A santidade
 manchei! Oh! se me creste, gente impia,
rasga meus versos, crê na eternidade!

Manoel Maria de Bocage

 

VERSOS ÍNTIMOS

Vês? Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
mora entre feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro...
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
apedreja esta mão vil que te afaga.
Escarra nesta boca que te beija.

Augusto dos Anjos

Meus Sonetos  Prediletos

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