MEUS SONETOS PREDILETOS

 

 

 

Contraste

Quando partimos, no verdor dos anos,
da vida pela estrada florescente,
as esperanças vão conosco à frente
e vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice, de repente,
desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
como a existência é rápida e falaz
e vemos que sucede, exatamente,

o contrário dos tempos de rapaz:
- Os desenganos vão conosco à frente
e as esperanças vão ficando atrás.

Padre Antônio Tomás

 

O Palhaço

Ontem via-se-lhe em casa a esposa morta
e a filhinha mais nova tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
que a platéia o reclama impaciente.

Ao palco em breve surge... Pouco importa
o seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
trejeita, e canta, e ri nervosamente.

Aos aplausos da turba ele trabalha
para esconder no manto em que se embuça
a cruciante angústia que o retalha,

No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça
e enquanto o lábio trêmulo gargalha,
dentro do peito o coração soluça.

Padre Antônio Tomás

 

Terra do Brasil

Espavorida agita-se a criança,
de noturnos fantasmas com receio,
mas se abrigo lhe dá materno seio,
fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim, toda a esperança
de volver ao Brasil; de lá me veio
um pugilo de terra; e neste, creio,
brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
sereno aguardarei, no meu jazigo,
a justiça de Deus na voz da história!

Pedro de Alcântara

 

Morte das Rosas

Nos canteiros orlados de verdura,
de mil gotas de orvalho umedecidas,
cheias de viço e de perfume ungidas ,
desabrocham nas rosas a ventura.

Mas a vida das rosas pouco dura,
e em breve a desgraça enlanguescida,
a fronte curva nos hastis pendida ,
a um raio de sol que além fulgura...

E vão perdendo as pétalas mimosas,
a um sopro mal dos vendavais infestos.
É o despojo final das tristes rosas...

E de cor vermelha pelo chão tombadas
fazem lembrar sanguinolentos restos
de pobres corações despedaçados

Padre Antônio Tomás

 

Soneto

O coração que bate neste peito
e que bate por ti unicamente;
o coração, outrora independente,
hoje humilde, cativo e satisfeito;

quando eu cair, enfim, morto e desfeito,
quando a hora soar lugubremente
do repouso final, - tranqüilo e crente
irá sonhar no derradeiro leito.

E quando um dia fores, comovida,
- branca visão que entre os sepulcros erra -
visitar minha fúnebre guarida,

o coração, que todo em si te encerra,
sentindo-te chegar, mulher querida,
palpitará de amor dentro da terra.

Luiz Guimarães Júnior

 

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
n'alma, e destrói cada ilusão que nasce;
tudo o que punge, tudo o que devora
o coração, no rosto se estampasse;

se se pudesse, o espírito que chora,
ver através da máscara da face,
quanta gente, talvez, que inveja agora
nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
guarda um atroz, recôndito inimigo
como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
cuja ventura única consiste
em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia

 

A Morte do Jangadeiro

Ao sopro do terral abrindo a vela,
na esteira azul das águas arrastada,
segue veloz a intrépida jangada,
entre os uivos do mar que se encapela.

Prudente, o jangadeiro se acautela
contra os mil acidentes da jornada.
Fazem-lhe, entanto, guerra encarniçada
o Vento, a Chuva, os Raios, a Procela.

Súbito, um raio o prostra e, furioso,
da jangada o despeja na água escura.
E, em brancos véus de espuma, o desditoso

envolve e traga a onda intumescida,
dando-lhe, assim, mortalha e sepultura
o mesmo Mar que o pão lhe dera em vida.

Padre Antônio Tomás

 

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor, lira singela,
que tens o tom e o silvo da procela
e o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
de virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
e em que Camões chorou, no exílio amargo,
o gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac

 

Unicamente

Amor, desperta... Há um luar, lá fora,
por tal forma tranqüilo e derramado
que é crime adormecer assim, agora,
podendo estar-se, a dois, inda acordado.

Pensando bem, o sono me apavora
pelo que tem da morte assemelhado.
Vamos fluir da vida a cada hora
- olhar no olhar, silentes, lado a lado.

A lua é irmã, a lua é casta e pura.
Façamos dela a doce confidente
deste amor que é doença e não tem cura.

Quando o sol sobreviver, inconseqüente,
fechemos a janela e a alcova escura
será só de nós dois, unicamente...

Otacílio Colares

 

O Burro

Vai ele a trote, pelo chão da serra,
com a vista espantada e penetrante,
e ninguém nota em seu marchar volante,
a estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
sem dar uma passada para diante.
Outras vezes, pinota, revoltante,
e sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
que é incapaz de fazer uma traição,
a quem quer que lhe venha na defesa,

é mais manso e tem mais inteligência
do que o sábio que trata de ciência
e não crê no Senhor da Natureza.

Patativa do Assaré

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