MEUS SONETOS PREDILETOS

 

 

 

Via Láctea

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!" E eu vos direi , no entanto,
que, para ouvi-las, muita vez desperto
e abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
a Via-Láctea, como um pálio aberto,
cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
que conversas com elas? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi :"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac

 

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando em maldições e preces,
como se a arder no coração tivesses
o tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces...
E, rolando num vórtice vesano,
oscilas entre a crença e o desengano,
entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
não ficas das virtudes satisfeito,
nem te arrependes, infeliz, dos crimes.

E, no perpétuo ideal que te devora,
residem juntamente no teu peito,
um demônio que ruge e um deus que chora

Olavo Bilac

 

O Enamorado das Rosas

    Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
ouvindo a água da fonte que murmura,
rego as minhas roseiras com ternura,
que água lhes dando, dou-lhes força e alento.  

Cada uma tem um suave movimento
quando a chamar minha atenção procura
e mal desabrochada na espessura,
manda-me um gesto de agradecimento.  

Se cultivei amores às mancheias,
culpa não cabe às minhas mãos piedosas
que eles passassem para mãos alheias.  

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
alimento a ilusão de que essas rosas,
ao menos essas rosas, sejam minhas.

Olegário Mariano

 

Ah! Os Relógios...

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas,
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mário Quintana

 

Bosque

Também como esse bosque eu tive outrora
        na alma um bosque cerrado de emoções.
        As palmeiras das minhas ilusões
        iam levando o fuste espaço afora.        

Floriam sonhos; era uma pletora
        de crenças, de desejos, de ambições...
        Não havia por todos os sertões
        mais luxuriante e mais violenta flora.        

Ai! Bosque real, é o tempo das queimadas!...
        É agosto, é agosto! O fogo arde o que existe
        em turbilhões sinistros e medonhos.        

Ai de nós!... Somos almas desgraçadas,
        pois na luz de um olhar lânguido e triste
        também ardeu o bosque dos meus sonhos... 

Menoti del Picchia 

 

Soneto

Antes de conhecer-te, eu já te amava,
porque sempre te amei a vida inteira.
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
a alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
em meus versos vivias, de maneira
que te contemplo a imagem verdadeira
e acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
tardaste tanto em vir, que hoje é loucura -
mais que loucura: um crime - desejar-te?

Martins Fontes

 

Visita à Casa Paterna

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
e fantasma talvez do amor materno,
tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
e passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala (oh, se me lembro, e quanto!)
em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe... O pranto

jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade!

Luiz Guimarães Júnior

 

As Duas Portas

À minha frente a porta tão antiga,
rangendo as dobradiças já marrons,
perdeu nas cores puras os seus tons
e já não traz a tua presença amiga.

Mas bem ao lado vê-se nova porta,
todinha aberta para novo rumo.
Eu me penteio, ajeito e me perfumo,
vou percebendo a lâmina que corta ...

Lâmina essa que tanto carreguei
na indecisão de me cortar da vida
que me levou a tudo que hoje sei ...

O que me assusta é ver-me dividida
entre o que eu era e agora o que serei,
depois do adeus... da amarga despedida...

Sílvia Schmidt

 

Nós

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...  

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"  

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...  

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos... 

Guilherme de Almeida

 

Jangada Triste  

Ao longe, muito longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra

Gilberto  Freire

Meus Sonetos Prediletos

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