PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
TRADIÇÕES E FOLCLORE

Jongo em Piquete

O burro não sabe lê

O burro foi na escola
Pra aprender o abc
A professora ensinou
E burro não sabe lê
Não sabe lê, não sabe lê
O burro não sabe lê
 
Eu quero o burro na escola
Pra aprender o abc
Eu quero o burro deputado
Eu quero o burro senador
Eu quero o burro magistrado
O burro com faculdade


Jongueiros em Piquete
Foto de Lety

CANTIGAS DE JONGO EM PIQUETE

O Boi

Lá em casa tem um boi
Com uma ferida no pé
Todo mundo qué a carne
A ferida ninguém.
 
Mocotó

Se matar este boi
O mocotó é meu
Pra pagar a carreira
Que este boi me deu.
 
Carreiro Novo

Carreiro novo
Que não sabe carrear
O carro tomba
O boi fica no lugar
 
Vaca no Curral

Mas eu nunca entrei na roda
Eu nem sei como é que é
A vaca tá no curral
Tira o leite quem quiser
 
Vaca Preta

Fui no rancho pegá vaca
A vaca não tinha teta
Mesmo assim bebi dez litros
Do leite da vaca preta
 
Bandoleia

Bandolê, olê, olé,
Bandolê, olê, olá,
Bandoleia jongueiro
Bandolê, olé, olá
 
Bangüê

O bangüê passou
Carregando o nego
Tanto trabalhou, tanto apanhou
Que o bangüê levou
 
Galo Rosa

O galo rosa
Tenha dó do meu penar
Minhas penas são douradas galo sereno
Eu tenho medo de molhar na engoma
 
Cativeiro acabou

Estava dormindo, a engoma me chamou (bis)
Disse levanta, povo, cativeiro já acabou (bis)
Ilaê, ilaê, ilaê (bis)
Disse levanta, povo, cativeiro já acabou (bis)
 
 
Mudo não fala

Lá no bananal
Eu vi dizer que mudo não fala
Lá na cachoeirinha
Eu o mudo dizendo reza
 
O Rosalina

O rosalina tira a pinga do canudo
Amanhã eu vou embora
E a minha pinga fica tudo
 
Eu matei Tamanduá

Eu entrei na mata virgem
Eu entrei para caçar
Não encontrei bicho de caça
Eu matei tamanduá
 
Vamos vadiar

Amanhã eu vou embora
Sei que saudades vou deixar
O que importa é agora
Então vamos vadiar
 
Filho da cobra verde

Sou filho da cobra verde
Neto da cobra corá
Jararaca não me enrola
Cascavel qué me enrola
 
Roda de Jongo

Entrei na roda de jongo
Pensaram que eu não sabia
Cantei sexta, cantei sábado
E domingo até meio-dia
 
Embaúva é coroné

Ai, meu Deus, que vida triste
Escravo sinhô não é
Tanta madeira de lei
Embaúva é coroné

Versos gentilmente enviados pelo Prof. Gil.
Material pertencente ao acervo
da Fundação Christiano Rosa - Piquete, SP


Dona Zezé Machado, a mais antiga dançarina de jongo de Piquete, 
acompanhada pelo Prof. Gil
Foto de Lety

 

Depoimento de D. Zezé Machado

Maria José Machado nasceu em Piquete em 1924, filha dos antigos jongueiros Pedro Ramos e Maria da Conceição Aparecida Rosa, popularmente conhecida como Conceiçãozinha. Dona Zezé diz que sua mãe tinha um gosto especial por essa dança e sempre dançava. Desde pequena conviveu com o jongo e, por isso, sempre participou das rodas. Recorda-se de antigos jongueiros que dançavam com sua mãe: o casal Benedito e Rosa Generoso – pais de outra afamada jongueira: Terezinha Generoso (veja http://www.mauxhomepage.net/piquete/suagente/terezinhageneroso.htm ) – e Lico Teodoro. Sua família morou por um tempo no cruzamento da rua São José com a rua dos operários, numa casa de pau-a-pique em frente da qual havia um grande terreiro.


Geraldo Generoso, irmão de Terezinha.
Também era jongueiro, pandeirista e cantor.
Foto enviada pelo Prof. Gil, pertencente ao acervo
da Fundação Christiano Rosa - Piquete, SP

Esse terreiro era referência do jongo na cidade. Com freqüência, ali se acendia uma fogueira e, logo após as primeiras batidas dos tambores, jongueiros de vários lugares iam chegando. Dona Zezé diz que sua mãe era boa repentista. Era considerada a rainha do jongo, pois nunca ficava “amarrada” por nenhum ponto. Boa cozinheira, trabalhou na Vila Militar da Estrela e tornou-se conhecida por seus dotes culinários. Falava sempre de ter cozinhado para Getúlio Vargas quando de sua visita a Fábrica, em 1939. Dona Zezé se recorda de que eram muitos os jongueiros em Piquete e de que havia grandes festas com rodas de jongo nos bairro da Raia e da Estrela, no campo de futebol e no Portão da Limeira, locais onde a mãe, Conceiçãozinha, sempre brilhava. Na década de 1950, muitas festas aconteciam em Piquete, ocasião em que vinham jongueiros até de Minas Gerais. Quem trazia esses jongueiros era o Roberto da Silva, filho do João Adão, de Itajubá-MG. Dona Zezé diz que a mãe faleceu em Lorena por volta de 1966 e que quase foi enterrada como indigente naquela cidade. Somente sete anos depois seus ossos foram trazidos para Piquete por ela e seu filho, Dito Machado. Termina suas recordações cantando um ponto:

            Galo velho tem catinga
            Tem catinga caringá
            Galo velho tem catinga, povaria
            Tem catinga caringá.

Texto gentilmente enviado pelo Prof. Gil.
Material pertencente ao acervo
da Fundação Christiano Rosa - Piquete, SP


Dona Zezé e seu filho
Foto de Lety

 Depoimento de Nair Porfírio e Celina de Barros

"As comemorações do 13 de Maio eram uma grande festa que meu pai tinha prazer em organizar. Eu me lembro muito bem. Eram três dias de festa. Vinha gente de todo lugar... Muitos jongueiros."
Dona Nair Porfírio, aos 98 anos de idade, e sua sobrinha, Celina de Barros, com 92 anos, têm memória privilegiada. São patrimônio cultural de Piquete e recordam-se das festas de 13 de Maio promovidas pelo pai e avô, Geraldino Porfírio, como uma comemoração cívica em que "todos participavam". Geraldino, natural de São Luiz do Maranhão, veio para Piquete ainda menino, como escravo roubado, para trabalhar na lavoura de café da antiga fazenda Santa Eulália, mais tarde São José. Após o 13 de maio de 1888, continuou a trabalhar naquela propriedade, como administrador. Deixou a fazenda, no início do século XX, para trabalhar nas obras de construção da fábrica de pólvora sem fumaça. Mais tarde passou a trabalhar nas baias da Fábrica, cuidando dos animais. No final do século XIX, seu Geraldino construiu uma casa de pau-a-pique num terreno isolado do centro urbano da cidade e lá criou sua família. Esse foi o início do bairro da Raia, que agregou, ao longo dos anos, muitas outras famílias negras. Esse bairro é referência da cultura negra no município. Dona Nair reside no mesmo local em que nasceu, com sua sobrinha, Celina de Barros,de 92 anos. As duas nonagenárias são memórias vivas de Piquete e guardiãs da cultura, de fatos e de personalidades de nossa história. Das primeiras décadas do século XX, elas se recordam das principais famílias e dos eventos do município. Estiveram sempre à frente dos trabalhos da Igreja Católica e das principais festas religiosas. Foram, por mais de 60 anos, catequistas e participantes do coro da antiga matriz de São Miguel. Estas festas eram uma oportunidade para que o grupo de jongueiros se reunisse para dançar e cantar. Dona Nair se lembra que seu pai era referência quando se falava em "13 de maio". Até os anos 30, havia duas grandes festas comemorativas da liberação dos escravos em Piquete: as organizadas por seu Porfírio e a do prefeito José de Brito, na Fazenda São José. Dona Nair conta-nos que dias antes das festas começavam os preparativos. Era uma quantidade enorme de abóboras e mandioca a serem descascadas para os doces. Havia melado, canjiquinha, muita bebida e outras guloseimas preparadas pela família e parentes. Nair, ainda menina, posicionada em cima de uma cadeira, era quem lia um discurso alusivo à data, para orgulho do pai.


Família de Geraldino Porfírio, ex-escravo, primeiro morador do Bairro da Arraia. Seu Geraldino faleceu em março de 1952, com 104 anos de idade.

"...Vinha gente de diferentes lugares. Amigos dos bairros rurais do Itabaquara, Gonçalves e dos Marins. Havia também convidados especiais. Até 1917, o Cel. José Mariano, fundador de Piquete prestigiava o evento. Depois de sua morte, a festa nunca começava sem a presença de sua filha, Dona Maricas, e da neta, Lili Couto. Dona Maricas, herdeira do Hotel das Palmeiras, trazia com ela, além dos parentes, hóspedes, personalidades e oficiais da Fábrica de Pólvora sem Fumaça. No 13 de maio, dia da festa, meu pai acordava cedo e, com muita animação, ia preparar girândolas e foguetes no alto de um morro, que espocavam acordando a vizinhança. Havia missa em ação de graças, às 10h, e visita aos túmulos de ex-escravos, no cemitério de Piquete. Meu pai sentia-se importante... o centro das atenções. No lugar da festa, além da fartura de comida, havia muita música e danças. Papai reservava um lugar para o jongo." 


Na casa de "Tio Jeremias", cunhado de Porfírio, a família se reunia para as confraternizações

Dona Nair recorda, ainda, que o mais afamado jongueiro vinha do bairro do Itabaquara: era Amaro Salgado, que vinha com suas filhas e sua irmã, Brasiliana. Cita Benedito Jacó, João Miguel, Benedito Miguel, Conceiçãozinha, Sebastião Leal.   "Eram três dias de festa... Dançávamos até o dia amanhecer. Dona Brasiliana era uma grande jongueira... não havia ponto que ela não desatasse."

Textos e fotos gentilmente enviados pelo Prof. Gil.
Material pertencente ao acervo
da Fundação Christiano Rosa - Piquete, SP

Ponto de Jongo na voz do Prof. Gil

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