MARIA AUGUSTA BERALDO LEITE MOTA
Mariinha Mota





Nasceu Maria. Maria Augusta como a avó materna que não conheceu. Nasceu Maria - Maria Augusta Beraldo Leite. Maria Augusta tornou-se Mariinha e assim ficou sendo por toda a sua vida: Mariinha do Horácio; depois, Mariinha do Geraldo; mais adiante, professora e poetisa Mariinha Mota.

Saída das faldas da Mantiqueira, Mariinha Mota cresceu através de seus versos e de sua arte, impulsionada apenas pela força de sua inteligência e sensibilidade. Voou Brasil afora nas asas de suas rimas.

Maria... Maria Augusta... Mariinha... Mariinha Mota... nossa mãe querida que nunca deixou de ser menina, nem Mariinha de alguém... 

Filha de Horácio Pereira Leite, fazendeiro e chefe político do Vale do Paraíba, em São Paulo, membro de tradicional família de cafeicultores da região e de sua segunda esposa, Maria de Lourdes Alves Beraldo, Mariinha nasceu de um amor temporão e como tal foi adorada e mimada pelo pai.

Horácio Pereira Leite nasceu em Bananal, SP, casando-se em primeiras núpcias, com Corina Jardim, também de tradicional família do norte fluminense. O casal teve seis filhos, todos Pereira Leite: Maria, José, Paulo, Irtes, Haroldo e Moema. O declínio da cafeicultura no Vale do Paraíba fez com que Horácio diversificasse seus negócios e se dedicasse à pecuária. Além de fazendeiro, Horácio possuiu fábrica de refrescos, açougue, restaurante, olaria e foi proprietário do primeiro jornal da cidade de Piquete: o quinzenário "Sentinella", que iniciou sua circulação em 18/09/1927, tendo como redator o Prof. José Ribeiro da Silva. Juiz de Paz, delegado, dono de terras e gado, Horácio foi o doador dos terrenos que ampliaram o cemitério de Piquete e ajudou a construir ruas e casas da cidade que então se formava. Dois de seus descendentes herdaram-lhe a veia política, tornando-se prefeitos de Piquete: seu neto José Armando de Castro Ferreira e seu filho Luiz Carlos Beraldo Leite.

Enviuvando, Horácio casou-se com a jovem Maria de Lourdes Alves Beraldo; tão jovem era a noiva, que possuía a mesma idade de Maria, sua filha mais velha. Com ela, Horácio viveu um grande amor, tornando-a a pessoa mais importante de sua vida. O mundo era pequeno para que ele o pusesse aos pés de sua adorada e de seus filhos, dos quais Mariinha era a primogênita.

Maria de Lourdes descendia, através de seu pai José Alves Beraldo, do clã Beraldo, do Sul de Minas. Sua mãe, Maria Augusta Alves Beraldo, era natural de Guaratinguetá, SP e falecera quando Lourdes contava apenas nove anos de idade, deixando oito filhos: Ovídio, Ormindo, Carlos, José, Lourdes, Álvaro, Messias e Josepha, todos Alves Beraldo. Maria de Lourdes educou-se no Colégio do Carmo, em Guaratinguetá, onde sua mãe também estudara e pertencera às primeiras turmas deste estabelecimento de ensino. Saindo do Colégio do Carmo, Lourdes, cujo pai casara-se em segundas núpcias, morou até o seu casamento com o irmão mais velho Ovídio Alves Beraldo e sua esposa Alcina Ribeiro Beraldo. Ovídio dedicara-se à carreira militar, à princípio no Exército e depois na Aeronáutica, tendo servido no teatro de operações da Segunda Guerra Mundial, como oficial da FEB. Passou à reserva em 1962, como Major Brigadeiro, após uma carreira brilhante. Do segundo casamento de José Alves Beraldo nasceu um nono filho: Osvaldo Alves Beraldo, advogado, professor universitário e um dos fundadores da Universidade de Taubaté, SP.

O casal Maria de Lourdes e Horácio teve seis filhos: Maria Augusta, João Roberto, Antônio Carlos, Suzana Maria, Luiz Carlos e José Sílvio, todos Beraldo Leite.

Mariinha estudou em Piquete nos seus primeiros anos de vida. Inteligente e vivaz, despertou a atenção de suas professoras e do padre da cidade, que alertaram o velho fazendeiro sobre o grande potencial de sua filha. Maria Augusta encaminhou-se, então, para Guaratinguetá, o maior centro cultural do Vale do Paraíba, na época. Sob os cuidados de seu jovem tio Osvaldo, freqüentou o Colégio Nogueira da Gama, por dois anos. Quando Osvaldo seguiu para cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, Mariinha foi matriculada no Colégio do Carmo, comandado por freiras salesianas, fechando o ciclo das três gerações consecutivas, que ali se educaram.

Desde tenra idade, Mariinha desenvolveu o gosto pela poesia, literatura e história. Quando menina, sonhava declamar poemas maravilhosos de sua autoria, dos quais não se recordava ao acordar. Sensível, apaixonou-se pela vida tranqüila das freiras do Carmo e quis tornar-se uma delas. "Cheguei a usar a capinha de noviça", conta com orgulho. Não conseguiu a aprovação de seu pai que exigiu sua permanência fora do colégio por um ano, antes de seguir sua vocação. De volta a Piquete, convidada para dar aulas de Educação Física na Escola Industrial da Fábrica Presidente Vargas, Mariinha deparou-se com os olhos azuis de um "expedicionário".

Geraldo Silvia Mota, filho de um imigrante italiano com uma mineira de Baependi, pistonista de primeira linha, recém chegado da Segunda Guerra Mundial, povoou seus sonhos de adolescente e a fez esquecer o claustro. Casaram-se em 30 de setembro de 1947, quando Mariinha contava apenas 17 anos. Sua filha mais velha recebeu o nome da padroeira das freiras do Carmo: Maria Auxiliadora, como uma compensação devida pelo abandono da vocação.

Mariinha abriu uma loja de tecidos finos e rendas, mas a necessidade de desabrochar a sua inteligência era intensa. Quando foi criada, em Piquete, a Escola Normal Duque de Caxias, Mariinha, então com duas filhas, pois já lhe nascera a Silvia Maria, com seus lindos olhos azuis esverdeados emoldurados por negros cachinhos, vendeu sua loja e retornou aos estudos.

Nesta época, nasceram-lhe mais dois filhos louros, lindos e rosados... Como irmã mais velha, recordo-me do nascimento de cada um deles: do amanhecer decepcionante onde constatei o nascimento de Silvia, uma menina, que me fez reclamar que a cegonha havia errado, transformando-a, depois, na minha bonequinha viva; da manhã fria de julho em que sai para comunicar aos tios e avós que o primeiro homem da família nascera: Geraldo Luiz, meu doce irmão artista e sonhador, capaz de retirar das teclas de seu piano as mais belas canções e que ainda me encanta, pela sua cultura e sensibilidade; do domingo colorido e feliz quando, após um longo passeio, encontramos enrolado numa manta azul clara uma das mais lindas crianças recém-nascidas que vi em toda a minha vida (e eu fui por mais de vinte anos, médica obstetra atuante): Miguel Ângelo, que me chamava de Rapunzel e me presenteava com bibelôs de louça barata, comprados com os tostões que ele amealhava cuidadosamente. Bibelôs que ele achava lindos e dos quais ríamos às escondidas, reconhecendo neles, entanto, o carinho e afeto que simbolizavam. Ainda hoje, Miguel é o irmão querido, terno, calado, mas que possui um enorme coração e ama a todos nós - e também é amado. Sua dedicação e desvelo ao cuidar de nossos pais idosos, jamais esqueceremos e conservaremos sempre esta nossa dívida para com ele.

Com Mariinha, na Escola Normal, diplomou-se uma plêiade de jovens senhores e senhoras, que brilhariam, posteriormente, no magistério e na vida cultural do Vale do Paraíba. Dentre esses, gostaria de destacar: Benedito de Paula, professor de Matemática, temido mas competente - o nosso "Dito Potência"; José Leite, professor de Geografia, que adorava organizar excursões e estimulava a nossa criatividade, mandando que escrevêssemos as nossas idéias e não o que decorávamos do Aroldo de Azevedo; João Vieira Soares, de tradicional família piquetense, escritor e professor de Português; Mirthes Mazza, a caçula da turma, loura e linda, delicada como uma flor. Declamadora e poetisa, juntamente com seu esposo José Palmyro Masiero, o Yeyé, artista multifacetado, comandaria um grupo de teatro amador: Grupo ARTE (Artistas Reunidos do Teatro Experimental); Dulce Bittencourt Damico, professora primária de tantas e tantas gerações, atuante nos movimentos filantrópicos da cidade. Tantas outras pessoas, que acompanharam Mariinha no decorrer de sua vida...

Concursada e aprovada como professora do Estado de São Paulo, Mariinha trabalhou, por algum tempo, em uma escola rural de Cunha, SP, para onde levou seus filhos pequenos, acrescidos do caçulinha, ainda bebê, Salvador Augusto e de Nancy Maria, filha escolhida pelo seu coração, por ela salva das vicissitudes da vida. Mais tarde, Mariinha escolheria outra pequena menina - Maria Benedita Inácio, a nossa Lili - para completar o seu lar. Durante alguns anos, posteriormente, Tony, um garotinho de olhos amendoados, também cresceria ao lado de seus filhos.

Retornando à Piquete, como professora do Grupo Escolar Antônio João, Mariinha dedicou-se aos seus alunos, não limitando-se às aulas cotidianas: montou grupos de teatro e declamação, fanfarras; organizou desfiles grandiosos, com carros alegóricos criativos e movimentados. Participou de campanhas filantrópicas várias, como a Campanha do Agasalho, Natal dos Pobres e Campanha do Quilo Mensal, não descurando a formação moral e intelectual de seus filhos. Embora com saúde precária, tendo sido submetida a várias e seguidas intervenções cirúrgicas, inclusive uma nefrectomia, continuava em suas lides.

Declamadora de escol, não só arrebatou inúmeros prêmios em concursos de declamação, como preparou suas filhas e alunos, que também se destacaram nestas apresentações. A caravana de declamadores de Piquete, encabeçada pela professora Mariinha Mota, era respeitada pelo Vale do Paraíba e Sul de Minas. Mariinha começou a compor seus poemas, tendo os sonetos como primeira forma de expressão, seguidos por trovas, peças de teatro e poemas infantis, que espalhavam-se pelas páginas literárias dos jornais e revistas da região.

Em 1968, duas fortes emoções, diversas no seu significado e importância, fizeram-se presentes. No início do ano, sua primogênita foi aprovada em terceiro lugar no vestibular de Medicina, no Rio de Janeiro; alguns meses depois, inesperadamente, seu filho caçula, Salvador Augusto, com dez anos de idade, faleceu acometido por um osteossarcoma. Mariinha não esmoreceu. Havia uma família a ser educada que apenas se esboçava; tudo dependia de sua força e equilíbrio.

Em 1973 retornou aos bancos escolares, formando-se em pedagogia e letras: língua portuguesa e inglês. Passou a lecionar para adolescentes, mas preferiu sempre as crianças. Em memória de seu filhinho tornou-se uma das fundadoras, em Piquete, de um movimento ligado à Rede Feminina de Combate ao Câncer, comandado nacionalmente pela Dona Carmen Prudente. A primeira presidente local foi a professora Ruth Brasil Nunes, secundada por Dona Dulce Bittencourt Damico, que por mais de vinte anos comandaria o movimento na cidade. Aposentada, dedicou-se totalmente à literatura e, da pequena cidade de Piquete, espalhava-se através de seus versos, por todo o Brasil, chegando a assumir uma cadeira na Academia de Letras do Vale do Paraíba.

Uma doença neurológica incapacitante impediu a continuação de seu brilho, mas não apagou a beleza de sua trajetória, cultuada por seus descendentes, que procuram transmitir aos filhos a história da inteligência e sensibilidade desta menina fazendeira e brincalhona que nasceu Maria.

Maria... Maria Augusta... Mariinha... Mariinha do Horácio e do Geraldo... Mariinha mãe de seus filhos e de outros que recolheu pela vida... Mariinha que alfabetizou... Maria que alimentou famintos e socorreu doentes e aflitos... Mariinha que encontrou na dor de perder um filho energia para consolar outras mães... 
Maria Augusta que encantou a todos que a conheceram como Mariinha Mota.

 

Mais sobre Mariinha Mota, acesse:

http://www.mauxhomepage.net/piquete/suagente/gente_mariinhamota.htm

http://www.mauxhomepage.net/desenterrandoversos/trovadores/mariinha.htm

 

Sonetos e Poemas

A Escrava do Senhor
Ao Salvador Augusto
Ascese
Brasil, Coração do Mundo
Como vejo Cristo
Em Prece
Este Nosso Amor
Gata e Santa
Lição Magnífica
Livre, Afinal

Luar
Meu Brasil
Monólogo
Nenhum sofrer importa

Neste Mundo
No Jardim do Coração
Nunc Scio Quid Sit Amor
O Calvário e o Tabor
O Cosmo
O Fim das Guerras
O Fogo
Oração dos Professores

Piquete

Piquete, Cidade Paisagem
Prece à Rainha da Terra
Quam Mutata Sum!
Saudade

Siste, Viator

Somente Eu

Sonhando
Teus Olhos
Tudo Passa
Unicamente Amor
Vate Glorioso

Poemas Infantis

A Caridade
A Distração

Bolo de Natal

Dia de Natal
Noite de Natal
O Menino Reconhecido
O Raio de Sol
Papagaio Falador
Sino de Natal
Só Criancinhas

 

 

 

Voltar

 

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.