Um Herói nunca morre...

 



Geraldo Silvia Mota - Diploma de Campanha
Foto enviada por Miguel Ângelo Leite Mota

 Quanto mais trabalho na montagem dessas páginas e pesquiso sobre a FEB, mais aumenta a minha ânsia de descobrir como era meu pai, antes e durante a guerra. Tento resgatar através de minha imaginação quem ele foi; reviver as emoções de um rapaz responsável e trabalhador, arrimo de família, convocado para uma luta que não era a sua. Procuro adivinhar as suas angústias, seus desesperos, o medo da morte (ou ele se conformou com seu destino, sem desenvolver esse temor?). Apoiada no homem que conheci, nas histórias que ele contava, busco reconstruir o jovem de quem pouco ou mesmo nada eu sei.

Conheço suas lutas desde menino. Ele nos falava da vida difícil: filho mais velho de um imigrante italiano, uma enorme prole, parcos recursos. Sei dos esforços para ajudar os pais, desde os oito anos de idade; a responsabilidade com os irmãos menores; a música surgindo em sua vida aos 14 anos. Recordo seus sonhos de tornar-se engenheiro - apenas sonhos, pois sabia da inviabilidade desta realização.

Vivenciei por toda a minha vida o brilho de sua inteligência, sua sensibilidade, sua ternura, sua mineirice gostosa. Mas quem foi o moço que precisou abandonar aos 27 anos, uma vida já se estruturando? Quem foi aquele que o pais chamou para lutar nos campos minados, enfrentar a neve, o gelo, a solidão, a incerteza, a morte? Como era o rapaz, o adolescente, a criança, antes da guerra?

Impressiona-me o fato de que décadas decorridas, os ex-combatentes da FEB ainda se emocionem e cheguem às lágrimas quando se recordam das experiências vividas na Itália. O que aconteceu com eles, com a sua pureza, suas juventudes ingênuas?

Há alguns anos compareci aos oitenta anos de um febiano. A família mandou confeccionar um belíssimo bolo branco, com 80 velinhas. Ao deparar-se com o bolo, ele retirou-se desesperado para o quarto, deixando todos surpreendidos. À sua esposa esclareceu, que o bolo branco, com um glacê marmóreo e as velas acesas, trouxera-lhe à lembrança o Cemitério de Pistóia. E ele não pudera continuar ali, em meio àquela festa, lembrando-se dos amigos que não voltaram... Isso quase seis décadas depois!

Vendo na televisão as muitas entrevistas com ex-combatentes, verifico em todos eles a mesma emoção dolorosa... Papai também era assim! Começava a contar, desejava falar. Em certo momento, as lembranças paralisavam sua voz, os olhos azuis enchiam-se de lágrimas e ele não conseguia continuar. O que eles todos viveram tão intenso e doídamente, que nunca é esquecido, que o tempo não apaga, que os anos não amenizam?

Papai era um homem extremamente inteligente e sensível. Trouxe da guerra uma bagagem talvez não comum a todos os pracinhas. Possuía uma visão politizada, crítica, confrontadora. Várias vezes falou-me sobre os erros dos governos e as nossas injustiças sociais. Batalhou sempre pela igualdade de direitos e pela ajuda aos menos favorecidos. Com sua moral rígida e ética, discordava e criticava o que acontecia no país. Não pertencia ao grupo dos ingênuos que acreditavam em recompensas e reconhecimentos. Tinha plena consciência desse Brasil injusto, sem respeito e consideração para com os seus filhos. Papai nunca desfilou entre os ex-pracinhas nas festas cívicas. Jamais pertenceu a nenhuma associação, o que não o impediu de apoiar sempre aqueles que precisavam dele. Sempre amigo e solícito, mas descrente do país cujos cores e bandeira defendeu. Quando no início dos anos 60, sedimentei minha decisão de cursar medicina, ele me apoiou. Afirmou-me a importância de escolher uma profissão com a qual pudesse sobreviver em qualquer regime político: a medicina me proporcionaria isso.  Esse pensamento era necessário,segundo ele, pois desconhecíamos os rumos que nosso país tomaria. Ele antecipava as mudanças políticas e a permanência sempre de benefícios aos poderosos. 

Minha irmã Silvia lembrou-me noutro dia um fato, arquivado por mim em minhas lembranças. Aprovada no vestibular de Medicina, matriculada em uma faculdade particular, procurei a Associação de Ex-Combatentes do Rio de Janeiro, buscando um direito sempre alardeado, de auxílio nos estudos aos filhos dos febianos. Fui até lá, incentivada por minha mãe, sem a concordância de papai, que não acreditava nessa possibilidade. Descrente sobre a efetivação dessas benesses, afirmava sempre que o pais nunca lhe dera nada; o que havia sido prometido aos febianos não fora cumprido. Suas conquistas e a reconstrução de sua vida no pós guerra, acontecera por seu esforço pessoal; nada de graça. No entanto, jovem, patriota e crédula, busquei essa ajuda, essa retribuição do país à luta e à dedicação de meu pai. Fui literalmente "enrolada" por três anos, de 1968 a 1970. Até transferência para uma faculdade federal ou estadual me prometeram, inúmeras vezes, sem nunca ter obtido o intento. Quando minha irmã Sílvia também foi para o Rio de Janeiro estudar, voltei com ela à Associação e pressionei, no sentido de uma solução urgente para a antiga reivindicação. Eu já me encontrava na metade do curso médico; insisti em falar com o presidente da Associação que nunca me recebera anteriormente. A resposta obtida então, após três anos de mentiras e embustes, foi que esse benefício só era estendido aos filhos órfãos dos ex-pracinhas... Contando isso ao papai, ele desesperou-se (?), talvez mais em conseqüência da minha própria desilusão do que pelo fato em si. E afirmou, tristemente emocionado e visivelmente angustiado que, para o Brasil, ele valia mais morto do que vivo...

Talvez porque, também para mim, os anos tenham passado e eu busque reconstruir a minha própria história, angustia-me desconhecer quem foi o jovem Geraldo Silvia Mota, de claros e límpidos olhos azuis, sorriso encantador e puro, no auge de seus sonhos e esperanças. Antes da guerra... Antes da dor... Muito antes do sofrimento, do frio e do gelo... Antes do eco de seu piston ser substituído pelo espocar das minas e das granadas... Antes, muito antes das águas das corredeiras dos rios serem trocadas pela visão do sangue dos seus companheiros mortos...

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira


Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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