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FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA |
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Carta para o
Cemitério Brasileiro de Pistóia |

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Belo Horizonte,
30 de junho de 1958 Manoel Chagas (Amazonas) - Miguel Souza Filho (Acre) - Maurício de Araújo Martins (Pará) - Manoel Eduardo de Souza (Piauí) - Clóvis da Cunha Pais (Ceará) - Manoel Lima de Paiva (Rio Grande do Norte) - Adalberto Candido de Melo (Paraíba) - Joaquim Xavier da Lira (Pernambuco) - Eduardo Gomes dos Santos (Alagoas) - Lino Pinto dos Santos (Sergipe) - Humberto Alves Nogueira (Bahia) - Pedro Mariano de Souza (Espírito Santo) - Marcelino Lourenço (Estado do Rio) - Gildo dos Santos Pereira (Distrito Federal) - Francisco de Almeida (Estado de Minas) - Sebastião Garcia (Paraná) - Ramis Mendes (São Paulo) - Lourenço Filho (Santa Catarina) - Vital Fontoura (Rio Grande do Sul) - Abel Antonio Mendanha (Goiás) e Laurentino da Silva Nonato (Mato Grosso). Cada um tem uma
história digna de nosso orgulho! Talvez você esteja interrogando-me a
respeito do Cruz, aquele motorista. Pois, saiba: o Cruz foi ferido
por explosão de um 105 e continua vivo... Para os que sentem, como nós, as
cousas da guerra, ele está apenas, com cicatrizes que o tornam mais belo.
Porém, para os civis ele deve ser um monstro. Tenho certeza, você se o
tocasse, orgulhar-se-ia em senti-lo sem braços, sem um olho, sem queixo,
com algumas pregas na pele do peito e, melhor ainda, com um moral
elevadíssimo.
Ao chegarmos ao Rio, houve uma recepção apoteótica, bastante emocionante. Uns não encontraram seus pais, outros não puderam rever irmãos, esposas e filhos. Era um quadro misto de dor e alegria, onde se fundiam lágrimas e risos. Entre nossos patrícios, corria a notícia de que regressávamos ricos. José, você já viu alguém ter uma importância de Cr$27 000,00 (total de nosso terço de campanha), economizada durante meses, considerar-se rico? Com este cartaz de riqueza fomos assaltados em plena Rua Larga, aqui no Rio, onde os comerciantes menos escrupulosos vendiam aos menos experientes, por preços exorbitantes, objetos de que não tínhamos necessidade. Em São João del Rei, foram vendidos relógios e outras quinquilharias aos expedicionários, por três vezes mais que o preço normal. Nós respeitamos nossos vencidos e fomos saqueados em nossa própria terra. Houve a dispensa geral dos participantes da guerra, sem vistoria médica, e regressamos aos nossos lares onde, para a maioria, estava reservado o fel mais amargo da vida. Muitas histórias tristes poderia eu lhe contar sobre o desenrolar de fatos, afeitos aos nossos colegas e familiares. Desajustamentos, incompreensão, ilusão e desilusão, perda de controle mental e intolerância, foram peças que se ajustaram, perfeitamente, para levar à loucura, suicídio e excessos alcoólicos, nossos incompreendidos companheiros. Caríssimo amigo, você está cansado de ouvir-me, ou melhor, de ler este meu desabafo? Aprume seus ossos, pois vou mais além. Um momento, José. Deixe-me tirar uma baforada no meu cigarro... (quase me queimei o bigode!). Continuemos. Não me esqueço das nossas reuniões em Pisa, Granaleone, Porreta, Sila e Bombiana, quando cantávamos Lili Marlene, Barril de Chopp e aquelas músicas, tocadas na vitrola, do Jorge Veiga (Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar); Carlos Galhardo (Rosas de Maio, doce poema); Francisco Alves (Brasil, terra boa e gostosa...) e, quase posso ouvir o Orestes Abraão cantando “Hoje estou abandonado, por aquela mulher, que foi minha perdição...” Quanta saudade!
Mudando de assunto, você se lembra do Prefeito de Belo Horizonte, em 1942, o Dr. Juscelino Kubitscheck? Saiba você, ele hoje é o Presidente da República, depois de uma campanha política, aliás, bastante vitoriosa; com um intermezzo dramático, tomou posse democraticamente, do governo. É um ótimo Presidente. Dinâmico, realizador e tem dado bastante atenção às petições dos Expedicionários. O Sr. Presidente da República colocou no Ministério da Guerra um enérgico General. Trata-se do General Henrique Duffles Batista Teixeira Lott. Você se lembra deste homem?
No nosso tempo, na Vila Militar, ele era tido como um militar de excepcionais qualidades, reto e justo. Seu posto naquela época era de Major. Este General hoje, é um grande amigo nosso e tudo faz para que dentro de seu Ministério o ex-combatente tenha assistência condigna. Temos inúmeros amigos bons. Poderia lhe citar outro oficial, que pela dedicação a nossa causa não poderia ficar ausente nesta minha carta. É o General Lima Câmara.
Após nosso
regresso, fundamos a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil. Esta
Associação congrega todos os ex-participantes do corpo expedicionário, as
três armas, com a finalidade de não deixar desaparecer a lembrança de
vocês e a grande fraternidade que nos uniu no campo da luta. Sempre nos
encontramos e nos abraçamos. São os nossos melhores momentos, os momentos
de nossos contactos. Não existe, entre nós, diferença de graduação ou
posto. Somos uma só alma. Somos apolíticos, porém, sempre assediados por
políticos oportunistas que se valem das necessidades naturais e prementes
de muitos dos nossos colegas, afim de usufruírem votos, sob promessas de
uma ajuda que nunca se concretiza. O governo sancionou diversas leis
em nosso benefício e muitas não são cumpridas, aliás, as mais eficientes.
Os jornais sempre as publicam, porém, nunca se puseram em campo para
verificar se as mesmas são postas em prática.
Aqui estou, novamente, com uma grande novidade para você e veio na hora! O Brasil venceu a Copa Jules Rimet, o maior prêmio mundial em disputa de futebol. Somos os Campeões Mundiais. Temos um time maravilhoso! Para lhe dizer a verdade, nunca tivemos uma equipe tão esmagadora quanto esta. Meninos novos, ótimos profissionais, demonstraram no exterior o valor esportivo do Brasil. O Campeonato foi realizado na Suécia. Nossos representantes passaram pela Itália e estiveram ai, pertinho de vocês. Na certa lhes fizeram uma visita, pois são briosos e não poderiam deixar de levar, pessoalmente, a vocês, um pouco de nossa saudade e reconhecimento. Mas, como ia lhe dizendo, o jogo final (Brasil x Suécia) foi de 5x2 favorável ao Brasil. Houve carnaval com a Vitória. Os jornais estampam manchetes calorosas. Eu sou admirador do time. Sinto não levar pessoalmente, a todos eles, meu abraço e felicitá-los. A imprensa publica fotografias, as mais empolgantes. São fotos emocionantes de gols fantásticos. A torcida e a Imprensa Européia ovacionaram nossos homens, delirantemente. Estão programando a chegada dos craques, com uma recepção estrondosa. O time todo vai ser agraciado pelo governo com medalhas de ouro; vai ganhar inúmeros prêmios, não se falando da importância de Cr$260.000,00, televisão, imóveis, etc. e etc.
Faz-me lembrar
nossa chegada ao Brasil, pelo contraste. Não fomos à Europa
esportivamente. Fomos cumprir um dever de honra: “Viver ou Morrer”. Não
fomos, caro José, sob remuneração e, tampouco, sob condições de tratamento
especiais. Fomos para morrer! Não tivemos coberturas jornalísticas. Não
tivemos irradiações nas batalhas e uma legião de fotógrafos atrás de
nossos pelotões, na linha de frente, registrando a morte e o heroísmo de A
ou B. Não impuseram nenhum “Sine Quanon”. Embarcamos, morremos,
regressamos e ... bem, acima já comentei. À chegada, fomos explorados
ao embarque, entramos em nossos lares pulverizados pelas necessidades,
recebemos os abraços daqueles que mais nos ansiavam e, depois, caímos no
ostracismo. Dizendo mais, há famílias que não receberam nem as medalhas de
bronze (sim, de bronze), pela perda de seus diletos filhos.
Porque,
caríssimo herói, não encontramos patrocinadores à nossa causa? Contam-se
nos dedos de uma só mão, unidades da imprensa que pugnam em nosso favor.
Todos são unânimes em dizer que temos direito, somos merecedores, etc.
Estamos aguardando que a voz da razão, impressa energicamente em uma folha
de papel, grite e mostre à mentalidade brasileira, as disparidades ora
cometidas. A sua morte e a dos demais exigem outro tratamento. O sangue
que vocês derramaram não se coagule, enquanto não lhes derem a
tranqüilidade do cumprimento das promessas. Não queremos luxo.
Necessitamos sim, de uma compreensão sincera aos nossos problemas mais
simples, mais naturais e mais dignos. Temos herdeiros de heróis, seiva do
futuro, fundo moral de nossa Pátria. Que o Brasil saiba
valorizá-los. A todo
o momento lemos e ouvimos, com profunda amargura, tópico como estes:
“Estes homens (22 craques) fizeram para o Brasil mais que as embaixadas ou
comitivas - Abriram ao Brasil as portas da fortuna - Tornaram o Brasil
conhecido e respeitado - Agora o mundo conhecerá que a capital do Brasil é
Rio de Janeiro”, etc. Dr. Otton
Arruda Lopes Texto
gentilmente cedido por Roberto R. Graciani, |
Um Herói nunca morre!
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