FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

ELZA CANSANÇÃO MEDEIROS


"Mulheres das Forças Armadas: Sejam felizes em suas carreiras
como eu, apesar dos percalços através dos anos, o fui!"
Maj. Enf. Elza Cansanção Medeiros

Elza Cansanção Medeiros
NOTA DE FALECIMENTO

08/12/09 - Morre mulher mais condecorada do Brasil.
Major Elza recebeu 35 medalhas, segundo CML.
Ela serviu como enfermeira na Segunda Guerra Mundial.

Faleceu nesta terça-feira (8), aos 88 anos, a major Elza Cansanção Medeiros, mulher mais condecorada do Brasil, segundo o Comando Militar do Leste, com 35 medalhas. Major Elza, que morreu no Rio, foi a primeira brasileira a se apresentar como voluntária na Diretoria de Saúde do Exército, para lutar na Segunda Guerra Mundial, aos 19 anos de idade. Segundo o Comando Militar do Leste, ela sonhava em lutar na linha de frente, mas teve que se conformar em seguir como uma das 73 enfermeiras no Destacamento Precursor de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, já que, na época, o Exército Brasileiro não aceitava mulheres combatentes. Major Elza teve complicações após uma queda em que o fêmur foi fraturado. Durante a guerra, ela trabalhou nos hospitais de evacuação na Itália, distante do front, em turnos de 12 horas. Segundo o CML, nenhum soldado que foi tratado por ela morreu. Ela atuou como oficial de ligação e enfermeira-chefe no 7th Station Hospital, em Livorno. Com o fim da guerra, foi dispensada logo após o retorno ao país, indo trabalhar no Banco do Brasil.

Aulas para pilotar ultraleves

Em 1957, as mulheres foram reconvocadas, podendo vir a ser militares de carreira. Dona Elza então retornou, continuando a trabalhar como enfermeira. De acordo com o CML, Elza era formada em jornalismo e, mesmo tendo trabalhado no Serviço Nacional de Informações (SNI), jamais pensou em abandonar a carreira militar. Ela aprendeu a pilotar ultraleves aos 60 anos de idade. Escreveu três livros sobre sua participação na Segunda Guerra e deu sugestões importantes para a criação de um corpo auxiliar feminino para as Forças Armadas, base para a abertura das Forças Armadas do Brasil à participação das mulheres.

Velório no Palácio Duque de Caxias 

O corpo da Major Elza será cremado após o velório, que acontecerá no salão nobre do Palácio Duque de Caxias a partir das 9h desta quarta-feira.
 Entre as medalhas que recebeu estão a Medalha de Guerra, Medalha de Campanha, Ordem do Mérito Militar, Medalha Mérito Tamandaré e Medalha Mérito Santos Dumont.

http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1408225-5606,00.html

 

 

O Brasil na 2ª Guerra

Explanando “O Brasil na 2ª Guerra”, Elza Medeiros deu exemplo de patriotismo

A veterana Elza Cansanção Medeiros, 86 anos, primeira brasileira a se apresentar como voluntária, na Diretoria de Saúde do Exército, para lutar na Segunda Guerra Mundial, proferiu palestra nesta segunda-feira, dia 26 de maio, no Auditório da UnC-Caçador sobre o tema: O Brasil na 2ª Guerra Mundial.
Exemplo de patriotismo, major Elza evidenciou a verdadeira história dos brasileiros no conflito, ressaltando valores humanos jamais vistos em outra nação. A palestra, assistida por acadêmicos e comunidade em geral, foi resultado da parceria firmada entre a UnC-Caçador e o Exército Brasileiro, através do 5° Batalhão de Engenharia de Combate Blindado (5° Bec Bld) Batalhão Juarez Távora, de Porto União. Antes da palestra, a major Elza e presidente da UnC-Caçador, Dr. Luiz Eugênio Rossa Beltrami, receberam a imprensa para uma coletiva. Na ocasião, Beltrami salientou que a visita da major Elza é o primeiro passo de uma parceria que trará outros frutos.

Em uma entrevista descontraída e rica em detalhes históricos, a major Elza falou sobre o orgulho de divulgar a Força Expedicionária Brasileira e de ser útil para os jovens, no sentido de relatar a verdadeira história da Guerra. Embora sonhasse em lutar na linha de frente, a major Elza teve que se conformar em seguir como uma das 73 enfermeiras no Destacamento Precursor de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, uma vez que o Exército Brasileiro, à época, não aceitava mulheres combatentes. Com os pais, alagoanos, aprendeu a atirar, ainda na adolescência. Com as governantas alemãs que serviram a sua família na Copacabana da década de 1930, aprendeu Música e idiomas. Por indicação de Arnon de Mello, pai do presidente Fernando Collor de Mello, ingressou na Associação Brasileira de Imprensa. Estreou, com Fernando Torres e Nathalia Timberg, no Teatro Universitário, com a peça Dama da Madrugada. Formou-se na Escola de Enfermeiras na Cruz Vermelha, em samaritana. Durante o conflito, trabalhou nos hospitais de evacuação na Itália, distante do front, em turnos de 12 horas, nenhum soldado tendo falecido em seus braços. Atuou como Oficial de Ligação e Enfermeira-chefe no 7th. Station Hospital, em Livorno. Com o fim do conflito, foi dispensada logo após o retorno ao país, vindo a trabalhar no Banco do Brasil. Em 1957, as mulheres foram reconvocadas, podendo vir a ser militares de carreira. Dona Elza retornou prontamente, continuando a trabalhar como Enfermeira. Mesmo tendo trabalhado no Serviço Nacional de Informações (SNI), jamais pensou em abandonar a carreira militar. Formou-se em Jornalismo, História das Américas, Psicologia, Parapsicologia, Turismo e Relações Humanas. Com conhecimentos de mecânica, escultura, pintura e tapeçaria, deu a volta ao mundo duas vezes, esteve na Antártida em 1972, aprendeu a pilotar ultraleves aos 70 anos de idade e foi motociclista durante 10 anos. Fundou e dirigiu duas revistas e assinou várias colunas em jornais do Rio de Janeiro e de Recife, tendo escrito três livros sobre a sua participação na Segunda Guerra. Apresentou ainda inúmeros trabalhos em congressos de medicina militar, com especial destaque para as sugestões de criação de um Corpo Auxiliar Feminino para as Forças Armadas, base para a abertura das Forças Armadas do Brasil à participação das mulheres. Membro da Academia Alagoana de Cultura, atualmente, dedica-se à preservação da memória fotográfica da FEB. É a mulher mais condecorada do Brasil, com 43 medalhas, entre as quais: Ordem do Mérito Militar - Grau Cavaleiro – 1979; Medalha da Ordem do Mérito Militar - Promovida a Oficial em 1989; Medalha de Campanha da Força Expedicionária Brasileira; Medalha do Mérito Tamandaré – Ministério da Marinha; Meritorius Service United Plaque - Exército Americano - USA – 1944; Medalha de Guerra –1945; Medalha do Soldado Polonês Livre; Medalha Ancien Combatant du Tatre du Operacion du L’Orope – França, (única mulher a receber); duas medalhas polonesas e uma medalha italiana. É autora dos seguintes livros: Nas Barbas do Tedesco  (esgotado); E Foi Assim Que A Cobra Fumou (3ª edição); Dicionário de Alagoanês (2ª edição); Eu Estava Lá; 1... 2... Esquerda... Direita... Acertem o Passo. Está produzindo o livro: Mulher-Alicerce de uma Pátria Forte, com biografias de heroínas e pioneiras.

http://www.cacador.net/portal/Noticias.aspx?cdNoticia=4041&cdNoticiaDivisao=2


Posição de Sentido

Veterana da segunda guerra mundial relembra sua passagem como enfermeira na Itália e fala de seu trabalho como jornalista.

Você está na segunda guerra mundial e é abatido em combate. Em uma avaliação inicial é possível identificar que o ferimento não se enquadra no rol de lesões gravíssimas, do tipo que envolve mutilação de membros. Com essa constatação, o padioleiro, não o levará para o Hospital de Campo, também conhecido por “Field Hospital”, onde são atendidos os “intransportáveis”, ou seja, as pessoas que não suportarão uma viagem de mais de meia hora. Nessa primeira análise é possível identificar que, no seu caso, é melhor seguir para o Hospital de Evacuação, estruturado em barracas capazes de serem transportadas de uma cidade a outra em 24 horas. Esse hospital abriga os combatentes com ferimentos de segunda estância, que depois seguem para o Hospital de Estacionamento, o “Station Hospital”.  As circunstâncias acima aumentariam a probabilidade de você conhecer a enfermeira, Elza Cansanção, que foi chefe da seção brasileira do 7º Station Hospital, e hoje, aos 84 anos, relembra toda a cadeia de atendimento médico-hospitalar, fornecendo subsídios para que a simulação acima, protagonizada pelo leitor, fosse realizada.  Atualmente, no posto de Major, Elza narra com detalhes essa passagem determinante no curso da história mundial e conta como era o seu local de trabalho.  “Um hospital grande, com mais de 1200 leitos, onde os recursos eram bem maiores que o Hospital de Evacuação. Tínhamos o maior contingente de enfermeiras. Eram 24 das 67 que foram para a guerra”.  Segundo Elza, a primeira vez que se abriu um coração foi em Livorno, Itália, no hospital em que ela trabalhou.  “O progresso do Brasil é todo resultante da segunda guerra, não só a parte tecnológica, como na parte de saúde. Foi criada uma técnica para ter acesso ao coração e, com essa coisa toda, a guerra tem o lado mau e o lado bom. O lado bom é esse da saúde”, opina Elza.  Em 1942, após diversos abatimentos de navios brasileiros, torpedeados por alemães e italianos, na costa do País, o presidente, Getúlio Vargas declarou guerra contra ambos. Os ataques do eixo visavam à conquista de pontos estratégicos como a cidade de Natal e a ilha Fernando de Noronha, territórios avançados ao oceano atlântico. Foi nessa época que Elza decidiu fazer um curso de enfermagem. “Fiz o curso Samaritano na Cruz Vermelha já com a intenção de defender o País. O meu pai já era velho e o meu irmão já tinha falecido, eram os únicos que poderiam defender a pátria. Então, eu achei que fosse minha obrigação”. O irmão mencionado faleceu ainda jovem em um contexto que inflou a vontade de Elza em combater os alemães na segunda guerra. “Meu irmão morreu em Paris, quando eu tinha 9 anos. Era um gênio! Não tinha mais o que estudar no Brasil e foi pra Europa. Ele estava com muita dor de cabeça e um alemão, que era estudante de medicina, amigo dele, o aconselhou a botar a cabeça na água quente e água fria. Ele teve um derrame cerebral e morreu na hora. Faltava 1 mês e 5 dias para completar 18 anos. Hoje, eu tenho um outro diagnóstico. Tenho quase certeza que ele era portador de aneurisma cerebral que rompeu com o choque térmico. Uma das coisas que fizeram com que eu tivesse raiva de alemão também foi essa, embora eu fosse educada com governanta alemã, que meu pai mantinha para ensinar língua e músicas. Aprendíamos francês, inglês e eu me recusava a falar o alemão. Até o dia em que me aborreceu muito e eu fui procurar no dicionário todo tipo de palavrão que eu pude achar. Aí, eu xinguei ela em alemão e ela ligou pro papai. Meu pai me chamou ao telefone e rindo disse: você podia ter xingado em português, mas foi xingar logo em alemão”. Apesar de ser filha de médico, ela não seguiu a profissão do pai por proibição dele. “Ele me dava aula em casa, não queria que eu fizesse medicina. A primeira vez que entrei na escola de enfermagem, eu era menor e precisava da autorização dos pais. Eles eram separados e minha mãe deu a autorização, mas meu pai ficou revoltado. Ele não queria que eu tivesse a vida de sacrifícios que ele teve como médico. Ele foi secretário do Oswaldo Cruz e Fundador de Saúde Pública do Nordeste. Ele foi pedir pra me botarem pra fora, mas o presidente da Cruz Vermelha disse que de jeito nenhum. Que eu era a melhor aluna da escola e ele não ia me botar pra fora e eu consegui fazer o curso. Naquela época, havia muita falta de enfermagem e os cursos profissionais levavam 3 anos. Então, foram criados 2 outros tipos de cursos. O do Samaritano era um supletivo de enfermagem, fazia-se os 3 anos em 1, foi esse que eu fiz”. Elza ressalta que foi a primeira voluntária brasileira para a 2º guerra. Em 1943, quando ela foi se apresentar, alguns disseram que era loucura, pois acreditavam que o Brasil não iria para guerra. “Disseram que eu queria brigar sozinha, mas o Brasil teve que entrar na guerra e nós fomos brigar”. Nas barbas do tedesco - foi com esse título que Elza batizou seu primeiro livro onde conta sua história na guerra. Ela relembra a torturante viagem à Itália, onde as tropas brasileiras atuaram.  “Nós saímos daqui sem saber para onde íamos. Eu era a que sabia mais e só sabia que a tropa já havia embarcado. Levamos 12 dias nessa brincadeira sem saber para onde nós íamos, foi quando os alemães fizeram o favor de dizer para onde deveríamos ir”. A enfermeira destaca a dificuldade que tiveram em função do treinamento recebido ser diferente da maneira como a tropa deveria atuar na Itália. Na época, a tropa havia sido treinada pela missão militar francesa que praticou exercícios para guerras de trincheira e a Segunda Guerra foi marcada por uma guerra de patrulha.  “As guerras evoluíram. Atualmente, é a guerra de botão. Aperta o botão e sai o míssil, né?”. Apesar das adversidades típicas de uma guerra, Elza comenta que o hospital onde atuou conseguiu obter uma performance exemplar. “Eu nunca vi ninguém morrer no hospital, chegar morto sim, chegaram vários, principalmente, quando a tropa de presos americanos recuou e chegaram muitos americanos mortos. Agora, depois que entrava no hospital era difícil morrer, porque nós fazíamos de tudo. O possível e o impossível”. Mesmo não sendo o local ideal para encontros, a segunda guerra fez com que Elza conhecesse muitas pessoas, inclusive possibilitou que ela noivasse com o americano Robert. A condição para que o casamento se concretizasse era que a cerimônia fosse realizada no Brasil. Quando ele estava em Tito, na Iugoslávia, Elza conversou com o noivo e combinou de encontrá-lo em Florença.  “Eu esperei, mas Bob não veio e tive que voltar”. Depois do fato, Elza estranhou receber a visita de alguns amigos dele e não receber nenhum telefonema de Robert. “Eu desconfiei que alguma coisa estivesse acontecendo. Aí, joguei um verde”. - Que coisa terrível aconteceu com o Bob, especulou Elza com um dos amigos que já sabia o que acontecera. - Até que enfim te contaram, respondeu o colega aliviado. - Ninguém me contou, quem vai me contar é você. A história veio à tona. Quando Robert acabou de conversar com Elza ao telefone, seguiu de jeep para o acampamento, onde iria organizar a bagagem. “Ele e o chofer estavam arrumando o jeep, quando estourou uma granada e matou os dois. Ele morreu no dia em que a guerra acabou”, lamenta Elza. No Brasil, depois de ter vivido a guerra, Elza prestou o concurso no Banco do Brasil e começou a trabalhar lá. Em 1957, foi confirmada no posto de 2º tenente e reconvocada para o serviço ativo. “Então pedi licença sem vencimento do Banco do Brasil e voltei para o exército”. Em 1964, a ditadura militar toma o poder e na respectiva seqüência assumem os presidentes: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Este último chamou Elza para trabalhar com ele por 2 anos. “Ele era meu contraparente. Estava sendo perseguida no banco pelas comunas e falei com ele. Eu trabalhei no setor dando assistência médica, digamos assim, eu fazia uma triagem médica do setor”. Para Elza a ditadura militar foi extremamente necessária. “O País estava um caos, como está ficando agora. Se não houvesse a revolução de 64, eu não sei o que seria do Brasil. Foi uma revolução redentora. Os esquerdistas falam mal, essa coisa toda, mas se você analisar friamente foram maiores os acertos do que os erros”, opina a Major que assegura ter sido a única historiadora militar até outubro do ano passado, sócia do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil. “Agora entrou uma historiadora da marinha”, complementa. O seu interesse por registros históricos é associado a sua formação jornalística. “Fui da 3ª turma de jornalistas diplomados do Brasil, fui diretora e fundei 2 revistas. Em Recife, eu tinha uma coluna que se chamava “Com os Pracinhas na Itália”; em Campo Grande, eu também tinha uma coluna, assim como no “Letras em Massa”, que era um jornal militar. Essa coluna se chamava “Major Elza em 10 Itens”. Elza se mantém antenada e faz críticas ao jornalismo atual. “Escandaloso demais pro meu gosto, o que dá abertura para distorção dos fatos. Eu acho que era melhor antigamente”, desaprova a Major que também é autora de publicações curiosas. “São dois dicionários de alagoanês. Fiz o primeiro e agora fiz o segundo que está esgotando”.  A Major faz seus comentários com muita segurança e demonstra uma rapidez de raciocínio fluente. “A primeira coisa é não deixar os neurônios pararem e manter sempre a cabeça trabalhando. Aos 84 anos, estou dirigindo meu carro, viajando pra todo lado, escrevendo meus livros. O principal problema é esse, não deixar os neurônios pararem e estar com a cabeça em funcionamento. Assim, não dá para pensar em doença, de pensar em besteira e em coisa nenhuma, então, a saúde vai atrás, acompanha”.

Fábio Siqueira, Jornalista da Parabólica
Site:
www.aparabolica.com.br

Major Enfermeira Elza Cansanção Medeiros
Ex-Combatente da 2ª Guerra Mundial

A Major Enfermeira reformada Elza Cansanção Medeiros, nascida em 21 de outubro de 1921, foi a primeira voluntária brasileira a se apresentar para a Segunda Guerra Mundial, tendo se alistado nas fileiras do Exército Brasileiro no dia 18 de abril de 1943. Ainda que a opinião pública daqueles dias acreditasse que o Brasil não iria para a guerra, a então recém-formada enfermeira Elza, do curso de Samaritanas da Cruz Vermelha, não hesitou em atender ao chamado patriótico que à nação urgia quando do torpedamento de seus navios da marinha mercante em abril de 1943. As próprias palavras da Major Elza, transcritas do seu livro, 1... 2... Esquerda... Direita... Acertem o passo! bem expressam o altivo desejo que ela demonstrou em desejar lutar pela honra de sua pátria lesada: "Em 18 de abril de 1943, vendo que a situação do Brasil, que sofria cada dia ataques de submarinos alemães, que tinham uma 5ª coluna ativíssima aqui em nossa país, vi que era chegada a hora de prestar a minha colaboração no sentido de defender a minha Pátria. Em minha família já não havia mais homens em condições de defendê-la. Meu pai tinha mais de 60 anos, e meu único irmão varão já havia falecido. Assim, cabia-me a responsabilidade de representar a família na defesa de nossa Pátria".

Com a criação do Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército pelo Decreto nº 6097 de 13 de Dezembro de 1943 e dado o pequeno número de enfermeiras profissionais existentes, foram aprovadas as instruções para o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE), do qual participou, na sua primeira turma, em 1944, a enfermeira Elza, que contava então 22 anos de idade. A instrução ministrada pelo CEERE, na cidade do Rio de Janeiro, ocorria em três turnos ao longo do dia: logo cedo pela manhã, no Hospital Central do Exército, havia a prática hospitalar. A partir da 13 horas, instrução teórica no Quartel General do Exército e das 15 horas em diante, ordem unida, no Colégio Militar. Nos outros dias da semana, ocorriam os treinamentos de educação física na Fortaleza de São João na Urca e de natação, na Tijuca. A 25 de Março de 1944, o Boletim Interno nº 70 publicava a relação da classificação intelectual da primeira turma de enfermeiras formadas pelo CEERE. Foram três as primeiras colocadas no curso, todas com o grau de 9,5: Maria do Carmo Correa e Castro, Berta Moraes e Elza Cansanção Medeiros. Elza, por ser a mais nova dentre as três ficou em terceiro lugar na classificação final de curso; coube a Elza, porém, a honra de ser a oradora da turma e mais tarde,quando do envio das tropas brasileiras à Itália, foi ela a primeira convidada para integrar o Destacamento Precursor de Saúde que seguiu para aquele país, em 9 de Julho de 1944. Concluído o CEERE, as ex-alunas foram nomeadas Enfermeiras de 3º classe. Elza, e mais quatro colegas concluintes do curso foram integradas, em 22 de Abril de 1944, ao Destacamento Precursor de Saúde que tinha por missão embarcar a 8 de julho com destino à Nápoles, e lá chegando - o que ocorreu a 15 de julho - recepcionar os cinco mil brasileiros do 1º Escalão da FEB a bordo do navio General Mann. Mas, na mesma noite de sua chegada à Nápoles, Elza havia sido informada que os alemães estavam cientes da movimentação brasileira e de que "... haviam prometido uma festa de boas vindas para a tropa brasileira que deveria chegar no dia seguinte. A noite inteira foi feita uma barragem de artilharia antiaérea. O espetáculo era muito bonito, uma vez que os disparos das antiaéreas eram com balas traçantes verde e vermelho... Depois de apreciar o espetáculo por algum tempo, resolvi ir deitar-me. Para abafar o barulho da artilharia, coloquei sobre a cabeça o travesseiro e dormi." Na manhã do dia 16 de julho, deu-se o batismo de fogo da enfermeira Elza. Designada para a seção hospitalar brasileira do 45th Field Hospital, Elza foi incumbida de receber cerca de 300 brasileiros que chegaram baixados do General Mann e que para aquele hospital haviam sido encaminhados. Distribuídos nas várias enfermarias que compunham o 45th Hospital, os pracinhas ficaram também sob os cuidados das enfermeiras e dos médicos norte-americanos. Dado que os brasileiros e os norte-americanos não compreendiam o idioma um do outro, a enfermeira Elza foi também intérprete, tendo seu nome bradado pelos alto-falantes do hospital inúmeras vezes: "Miss Medeiros, please, ward 5th! Miss Medeiros, Ward 9th!"  A chegada das outras colegas enfermeiras, nos dias que se seguiram, diminuiu o volume do trabalho e com a visita de Clarice Lispector no hospital, muitos doentes puderam ter cartas escritas aos seus familiares pela gentil senhora e, mais tarde, escritora brasileira de renome, na época esposa de Mauri Gurgel Valente, cônsul brasileiro da Itália. O trato com as enfermeiras de outras nacionalidades, porém, tornara-se o maior problema. Dado que hierarquicamente não possuíam posto militar que pudesse ser equiparado com o das enfermeiras norte-americanas - todas oficiais - as enfermeiras brasileiras sofriam desagradáveis humilhações por parte daquelas, o que levou Elza a participar ao comandante da FEB, General Mascarenhas de Morais, a conflitante situação. Após um estudo realizado na legislação, encontrou-se a solução do problema em um regulamento não revogado da Guerra do Paraguai: a prática do arvoramento, em outras palavras, as enfermeiras de terceira-classe seriam "arvoradas" ao posto de 2º Tenente, podendo fazer uso das insígnias do mesmo, gozar dos direitos e vantagens inerentes, com exceção da pecuniária.

As primeiras enfermeiras da FEB arvoradas foram as cinco que chegaram com o Destacamento Precursor de Saúde: Antonieta Ferreira, Carmen Bebiano, Elza Cansansão Medeiros, Ignacia de Melo Braga e Virgínia Portocarreiro. A medida que as demais enfermeiras brasileiras foram chegando à Itália, eram de imediato arvoradas ao posto de 2º Tenente, o que lhes poupava assim os vexames iniciais que as companheiras precursoras haviam sofrido. Uma vez resolvido o entrave da situação hierárquica, a situação entre as enfermeiras melhorou significativamente e a então 2º Tenente Elza, desejosa em ir para o front, requereu junto aos canais competentes e obteve sua transferência para o 38th Evacuation Hospital, no vilarejo de Santa Luce, em Cecina. O Hospital, todo em barracas de lona, possuía cerca de 800 feridos e acabou tendo que ser abandonado devido a uma enchente que sofreu provocada pelos alemães, que dinamitaram a barragem do rio Arno, inundando toda a região. Sem condições de lá permanecer, os doentes foram evacuados e as enfermeiras transferidas para outras unidades. À Ten Elza, coube sua transferência para o 16th Evacuation Hospital, na cidade de Pistóia, plena frente de combate. Em Livorno, porém, a situação disciplinar do 7th Station Hospital era preocupante. Tratava-se do hospital que tinha o maior contingente de enfermeiras brasileiras servindo e sua administração estava provando ser tarefa difícil. Das palavras do Coronel Generoso Ponce, subchefe do hospital, recebia a Ten. Elza, em 29 de Novembro de 1944, a sua mais nova missão: "Tenente Elza, nós pedimos que viesse para este hospital para assumir a chefia deste grupo. Se não quiserem lhe obedecer pelo regulamento meta-lhes o braço, isto aqui está uma baderna!" Além da questão administrativo-disciplinar, havia também os casos gravíssimos de ferimentos de guerra, que para o 7th eram levados. Como resultado, frente ao grande números pacientes, enfermarias e enfermeiras brasileiras e norte-americanas, foi preciso que a Ten. Elza atuasse com rigor, acirrando o seu trabalho de fiscalização e também o de intérprete, o que harmonizou a comunicação entre enfermeiras e pacientes de ambas as nacionalidades, melhorando não só a disciplina no hospital, como também estabilizando a caótica situação que o inexistência de um idioma em comum causava no relacionamento entre todos ali. As pesadas atribuições do cargo de chefia do 7th em muito consumiram a Ten. Elza, que com problemas de saúde, a fizeram requerer o desligamento da função. Em resposta, foi designada como oficial de ligação, em virtude da reconhecida facilidade com que manejava o idioma inglês. Na condição de oficial de ligação serviu sob o comando do Ten. Cel. Augusto Sette Ramalho, no 182th Station Hospital, de onde seguiu para o 45th General Hospital, em 18 de Abril de 1945. Neste período, serviu também no 16th Evacution Hospital em Pistóia e no 300th General Hospital, em Nápoles. Um elogio do Ten. Cel. Ramalho, porém, lhe estava reservado ao deixar o 182th: "A 2º Ten. Elza Cansanção Medeiros é elemento de primeira grandeza no seio de sua classe, pelas suas qualidades pessoais de disciplina e correção, pela simpatia que irradia, pela sua habilidade em resolver problemas e facilidade em manejar a língua inglesa, tornando-se um elemento indispensável à administração desta seção, que contou sempre consigo para a solução que necessitava de intérprete eficiente e que soube encontrar eco em sua lealdade para com seu Chefe na defesa de interesses e com nome de nossa Unidade. Agradeço-lhe tudo, louvando-a por suas qualidades acima assinaladas e recomendo-a a meu substituto" (BI 99 de 16/04/45, 1ª D.I.E)." Com o fim da guerra em 8 de Maio de 1945, solicitava a Ten. Elza o retorno ao Brasil, embarcando para aquele destino a 11 de junho com o sexto grupo que deixou a Itália, sendo licenciada do serviço ativo do Exército Brasileiro em 14 de Julho de 1945. Não obstante, o denodo e a relevância dos serviços de guerra prestados pelas enfermeiras voluntárias da FEB não foram esquecidos. A 29 de Julho de 1945, o Gen. Mascarenhas de Morais resolve promover 24 das 67 enfermeiras que estiveram no teatro de operações italiano à enfermeiras de Segunda e, logo em seguida, de Primeira Classe. Além da dupla promoção por merecimento, duas condecorações passaram a ornar o uniforme da Ten. Elza, as medalhas de Campanha e a de Meritorious Service United Plaque.  De volta ao Brasil, passa os dois anos seguintes viajando e, em 1947, ingressa, por concurso público, no serviço médico do Banco do Brasil, cargo que ocupa nos doze anos seguintes, período o qual se gradua jornalista, recebe sua carta patente de 2º Tenente, além de vários elogios e medalhas pelo seus serviços de campanha, das quais a de Guerra, a de Bronze, a da Cruz Vermelha Brasileira e a de Santos Dumont. Publica também seu primeiro livro sobre a odisséia da FEB nos campos da Itália: Nas barbas do Tedesco (1955).

Por força da lei nº 3160, de 1º de junho de 1957, as enfermeiras voluntárias da FEB que desejassem poderiam requerer sua reversão ao serviço ativo, no Serviço de Saúde do Exército, no posto de 2º Tenente Elza, por ocasião da lei é convocada e, a 19 de setembro daquele ano, reingressa no Exército, ficando adida à Diretoria Geral de Saúde. De 1957 a 1962 serve em várias unidades, é condecorada pelo governo do Paraguai com a medalha Abnegacion y Constancia Honor al Merito, apresenta trabalhos em congressos de Medicina Militar e de Enfermagem e profere palestras às turmas de formação da Escola de Saúde do Exército. Em todas as atividades que participa destaca-se pelo profissionalismo e recebe inúmeros elogios. Como resultado, a 21 de Setembro de 1962, o Ministro da Guerra resolve promovê-la ao posto de 1º Tenente Enfermeira, a contar de 25 de agosto daquele ano. De 1963 a 1965 fica agregada, a fim de reassumir suas funções no Banco do Brasil. Em janeiro de 1965 passa a disposição do Serviço Nacional de Informações lá permanecendo até junho de 1966. Reverte uma vez mais ao serviço ativo do Exército em 22 de novembro de 1965. A 24 de outubro deste ano é agraciada com a Medalha do Pacificador. Serve na Policlínica Central do Exército e na Clínica de Cardiologia. Continua a proferir palestras na Escola de Saúde e a receber elogios de todos que lhe privam da vida profissional.  Por conta do agravamento de seu estado de saúde e de um diagnóstico confirmado de espondilo artrose anquilosante - moléstia adquirida em zona de combate - a 12 de abril de 1976, aos 54 anos, a 1º Tenente Enfermeira Elza é reformada dois postos acima na hierarquia militar, como Major. Atualmente, neste posto, foi reconhecida como a Decana das mulheres militares do Brasil, e é detentora de 36 condecorações militares e paramilitares, destacando-se: Ordem do Mérito Militar - nos graus de Cavaleiro e Oficial; Medalha de Campanha da Força Expedicionária Brasileira; Medalha do Mérito Tamandaré; Meritorius Service United Plaque (Exército dos Estados Unidos); Medalha de Guerra; Medalha do Soldado Polonês Livre; Medalha Ancien Combatant du Tatre du Operacion du L’Orope – França (única mulher a ser agraciada). Sua moléstia, porém, nunca a impediu que deixasse de cuidar, com a coragem e determinação que sempre lhe foram intrínsecas, dos trabalhos de pesquisa sobre a FEB e seus veteranos. Dona de mais de 5 000 fotos e documentos relativos a II Guerra Mundial, organizou um museu da II Guerra Mundial em Maceió, o que lhe rendeu o título de cidadã daquela cidade em 1982. Escritora consumada, publicou três outros livros sobre a odisséia da FEB: E Foi Assim Que A Cobra Fumou (1987), Eu Estava Lá! (também publicado nos EUA e na Itália, escrito por ela nos respectivos idiomas, em 2002), e 1... 2... Esquerda... Direita... Acertem o Passo! (2003). Fundou ainda as revistas Ex-combatentes, da Associação de Ex-Combatentes e O Febiano, da ANVFEB. Artista plástica com produções premiadas em escultura, pintura,tapeçaria, artes cênicas e também cantora de rádio, a múltipla personalidade de Elza Cansansão Medeiros soube, ao longo de todos os papéis que tem representado na vida dignificar o Brasil não só como heroína de guerra e inquebrantável preservadora da Memória Histórica da FEB, mas, sobretudo, como a aguerrida mulher brasileira, da mesma fibra e estirpe de Maria Quitéria de Jesus, Sóror Joana Angélica, Ana Néri, Ana Lins de Vasconcelos, Ludovina Portocarrero e Rosa Fonseca, mulheres que na luta pelos seus sonhos e ideais, fizeram e ilustraram a história de nosso país.

Texto publicado no site: www.anvfeb.com.br
Matéria cedida pelo 2º Ten Jefferson Biajone - Professor de Matemática - EsPCEx - Campinas, SP.

 

Um Herói nunca morre!

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