FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA


 

 

JOEL SILVEIRA
Correspondente de Guerra

Joel Silveira
Lagarto, 23/09/1918
Rio de Janeiro, 15/08/2007

 

Joel Silveira foi um jornalista e escritor brasileiro. Autodidata, cursou até o segundo ano do curso de Direito. Tido como militante de esquerda e por divergências com seu pai, o qual considerava um burguês, mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1937, disposto a trabalhar como jornalista, função na qual se destacou, tornando-se, inclusive, escritor. Embora pareça paradoxal o período do Estado Novo permitiu que ele e mais um grupo de jovens jornalistas, como David Nasser, Edmar Morel e Samuel Wainer, viessem a se notabilizar pela "grande reportagem" dos anos 1940, forma encontrada pelos jornais para sobreviver à censura imposta pela ditadura. Seu primeiro emprego foi no periódico literário Dom Casmurro, de propriedade de Brício de Abreu e Álvaro Moreyra, que era um jornal esquerdista.

"E meu irmão começou a mandar de São Paulo material do partido para que eu distribuísse aqui no Rio. Era uma tarefa arriscada, mas ele sempre mandava um dinheirinho dentro; como eu vivia de biscate, aquela era uma ajuda muito útil.."

Como repórter e secretário da revista Diretrizes, semanário de propriedade de Samuel Wainer, ali permaneceu até a redação ser fechada pelo DIP, em 1944. Escreveu também para os Diários Associados, Última Hora, O Estado de S. Paulo, Diário de Notícias, Correio da Manhã e Manchete. Seus mais de 60 anos de carreira contabilizaram passagens por diversas redações do país, nas quais ocupou inúmeros cargos. Escolhido por Assis Chateaubriand, dos Diários Associados foi correspondente de guerra junto à F.E.B., apesar de parecer contrário do DIP e do General Dutra, então Ministro da Guerra. Embora houvesse outros candidatos se maior peso para a função como David Nasser, Edmar Morel e Carlos Lacerda, Joel Silveira seguiu para a Itália

"Quando me inscrevi para seguir com a FEB como correspondente de guerra, eles fizeram de tudo para que eu não embarcasse. A acusação era a de sempre: comunista."

É reconhecido como um dos precursores do jornalismo internacional e do jornalismo literário no Brasil. Assis Chateaubriand o apelidou "a víbora" por seu estilo ferino e impactante. Suas reportagens "Eram Assim os Grã-Finos em São Paulo" e "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista" o consagraram como profissional e hoje são tidas como verdadeiros clássicos do gênero. Publicou cerca de 40 livros. Agraciado com o prêmio Machado de Assis, o mais importante da Academia Brasileira de Letras, em 1998, pelo conjunto de sua obra, foi ainda ganhador dos prêmios Líbero Badaró, Prêmio Esso Especial, Prêmio Jabuti e o Golfinho de Ouro. Pouco antes de falecer, foi homenageado no Segundo Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado entre os dias 17 e 19 de maio de 2007, pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Por conta de problemas de saúde, foi representado pela filha.
Joel Silveira morou em Copacabana, no Rio de Janeiro, até sua morte, em 2007.

Fonte: Wikipedia

 


 

Os Intelectuais e o Estado Novo
Entrevista à Gazeta Mercantil 

Conversar com Joel Silveira vale tanto quanto ler suas histórias de repórter e seus contos, espalhados em 38 livros, lançados em 60 anos de jornalismo. Aos 80 anos e com a memória privilegiada em forma, o correspondente dos Diários Associados que cobriu a aventura da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial relembra casos que são um deleite para quem aprecia narrativas sobre a vida política brasileira entre os anos 30 e 70. Joel foi o tipo de repórter sortudo, sempre no lugar certo e na hora certa. Por outro lado, pior para aqueles que estiveram diante dele no lugar errado e na hora errada. Ele não perdoa, por exemplo, a decisão do Partido Comunista Brasileiro que autorizou o escritor Jorge Amado a dirigir uma revista nazista porque Stalin assinara um pacto de não-agressão com Hitler – que praticamente entregou a Polônia ao exército nazista. Nesta entrevista exclusiva, além de fazer revelações sobre a promiscuidade que marcou a relação entre parte dos intelectuais e o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, Joel explica por que dedicou um livro de 650 páginas a contar seus 12 primeiros meses no Rio, entre os tumultuados anos de 1937 e 1938. O livro, o recém-lançado Na Fogueira – Memórias, foi o vencedor do Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e narra como um garoto de 19 anos trocou a pequena Aracaju, no Sergipe, pela capital federal para estudar Direito. Mas o que ele queria mesmo era ser jornalista. Joel chegou com dinheiro suficiente apenas para pagar três meses de pensão. Entre um bico e outro, caiu na panela do diabo: acompanhou o golpe que impôs o Estado Novo, viu a explosão do movimento integralista – ouviu da janela de um sobrado os tiros do cerco a Getúlio pelos ‘galinhas verdes’ de Plínio Salgado –, a efervescência do nazismo no Brasil e a violenta repressão do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Como se não bastasse, foi arrastado pelo irmão comunista para distribuir panfletos sem se dar conta do risco que corria: acabar nas salas de tortura da Polícia Federal de Vargas, treinada pela Gestapo de Hitler para punir os inimigos da ditadura. 
No l
ivro, Joel lembra suas aventuras com humor, misturando o malabarismo que fazia para pagar um quarto de pensão e garantir a comida e o deslumbre por uma cidade que vivia seus tempos áureos. Até que se abrigou nas páginas do hoje esquecido jornal Dom Casmurro, importante publicação literária que circulou nos anos 30. De repente, estava convivendo com Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Jorge Amado e Marques Rebelo, entre tantos. 

Enquanto faz as revisões de Mão e Contramão, que reúne suas memórias e reportagens dos anos 60 e 70 – a ser lançado pela Mauad em setembro –, Joel anuncia que já tem pronta a continuação de Na Fogueira – Memórias, referente aos anos de 1939 a 1944, véspera de seu embarque para cobrir a FEB na Itália.

Se o senhor conta um único ano num livro, quantos serão necessários para contar toda a sua vida?

Joel Silveira – (Risos) Nesse livro, conto como minha chegada ao Rio coincidiu com um momento crucial da história do Brasil, em fevereiro de 1937. Aquele foi um ano terrível. Então procurei fazer um contraponto: conto um pouco da minha história – que não tinha qualquer importância – e os fatos políticos que ocorreram. Eu já tinha alguma formação política, pois desde os 14 anos presidira um grêmio e escrevia em jornal operário. Eu acompanhava muito a política porque meu pai e meu irmão mais velho assinavam quase todos os jornais e revistas do Rio. Ao mesmo tempo, tinha um irmão em São Paulo que era do Partido Comunista. Eu estava entrosado.

O senhor chegou e já foi engolido sem querer pelas tarefas do Partido Comunista?

Joel – Tenho a impressão de que a minha vida se resume a 1937. Meu primeiro emprego mais ou menos certo foi no Dom Casmurro, do Álvaro Moreyra, que era um jornal esquerdista. E meu irmão começou a mandar de São Paulo material do partido para que eu distribuísse aqui no Rio. Era uma tarefa arriscada, mas ele sempre mandava um dinheirinho dentro; como eu vivia de biscate, aquela era uma ajuda muito útil.

‘Dom Casmurro’ foi uma publicação literária importante?

Joel – Era o único jornal literário do país. Pela sua redação passava todo mundo, todos aqueles escritores que eu já conhecia de nome, de Aracaju. Fui fazendo amizade com todos eles – José Lins do Rego, Oswald de Andrade, Anibal Machado, Adalgisa Nery, Jorge Amado, Marques Rebelo. O Graciliano Ramos não, ele eu fiz questão de ir conhecer pessoalmente na José Olympio.

Aquela foi a melhor época da literatura brasileira neste século?

Joel – Acredito que foi, depois da Semana de Arte Moderna de 1922. Claro, foi um movimento que não começou em 1937, mas culminou naquele ano. Primeiro, tivemos a explosão da literatura nordestina no mercado editorial, com autores como Graciliano, José Lins, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Américo Almeida. O José Américo, na verdade, foi quem começou tudo, com A Bagaceira, o primeiro livro a trazer a questão da essência nordestina. Então os jornais começaram a falar, a querer saber o que estava acontecendo. Havia também um marasmo depois de 22 – dez ou doze anos em que não se fez praticamente nada. Parecia que as idéias de 22 haviam empacado. Assim, 1937 foi um anos efervescente sob o ponto de vista literário, cultural e político, principalmente. Quando estava no auge, veio o golpe do Estado Novo.

 ‘Dom Casmurro’ estava mesmo sozinho no mercado?

Joel – Não, não. Havia uma porção de jornais literários, mas de vida efêmera. A concorrente do Casmurro era a Revista Acadêmica, de Carlos Lacerda e Murilo Miranda, que tinha colaboradores como Rubem Braga, Moacir Werneck de Castro, Arnaldo Pedroso D’Horta e outros. Do lado de cá, no Dom Casmurro, estavam Álvaro Moreira e o pessoal novo que chegava. Eram publicações contemporâneas e concorrentes. E havia também a José Olympio, que era uma editora de prestígio fantástico. Todo mundo queria ser editado por ela e sua livraria funcionava como um ponto de encontro de intelectuais todas as tardes. Ou o pessoal ia para lá ou passava no Dom Casmurro ou na Revista Acadêmica, ou em todas. As três ficavam próximas, naquele quadrilátero entre a Rua do Ouvidor e a Cinelândia.

Além de artigos políticos ‘Dom Casmurro’ pesquisava o furo, a notícia literária?

Joel – Éramos o único jornal do gênero com circulação nacional. Vendia muito em São Paulo. Tirávamos 50 mil exemplares por semana, o que era extraordinário. Todos os literatos do Brasil escreviam ou visitavam a redação quando passavam pelo Rio e Dom Casmurro ficou como um ponto de referência para todos da esquerda. É curioso hoje folhear a coleção do jornal porque ali você tem um retrato de todo mundo. Jorge Amado criou um concurso literário para romance, em 1938, e vieram originais de todo o canto. Todo mundo tem um romance na gaveta. O diretor Brício de Abreu era muito amigo dos filhos do Ramalho Ortigão, donos do primeiro shopping center do Brasil, o Parque Royal, e descobriram as cartas inéditas que trocou com Eça de Queiroz; duplicamos a tiragem porque nem Portugal conhecia essa correspondência. A edição sobre o centenário de Machado de Assis foi antológica, teve mais de 200 páginas, todo mundo escreveu. A gente sempre publicava algum capítulo inédito de grande escritor, como Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo.

Havia uma polarização radical entre esquerda e direita em 1937. Parece que o DIP soube tirar proveito disso para atrair intelectuais para o lado do governo, não?

Joel – Naquele momento, ou você era do lado de cá ou do lado de lá, isto é, do governo. Lourival Fontes, comandante do DIP, era um fascista e um homem fabulosamente inteligente. Um sujeito culto, lia tudo, inclusive escrevia muito bem. Acabou socialista (risos). Veja você que fui eu quem endossou o nome dele para entrar no Partido Socialista... Fiz isso pelo homem que me perseguiu a vida inteira. Um dia, durante o Estado Novo, fui com Joracy Camargo a uma granja que ele tinha na região serrana do Rio e ele fez questão de me pegar pela mão, pois sabia que eu era de esquerda, e me mostrou uma parede forrada de livros e me perguntou: ‘Sabe o que é isso aí? Todos os livros sobre fascismo. Eu sei mais sobre fascismo do que o Mussolini. Tenho as obras completas de Mussolini com dedicatória dele’.

Lourival sabia da importância de seduzir intelectuais para o governo?

Joel – Não tenha dúvida. Ele era maquiavélico, sabia o que estava fazendo. Tanto que se casou com Adalgisa Nery, que era de esquerda e a grande paixão do Murilo Mendes. O Lourival, fisicamente era o oposto do Murilo, um sujeito alto, bonitão, bem educado; Lourival tinha um olho torto, cabelo sempre caído do lado. Ele corrompia com dinheiro, mas era honestíssimo. Com sua astúcia, sabia que poderia tirar proveito dividindo a esquerda. O pessoal (escritores e jornalistas) vivia mal e, logo que ele chegou ao DIP, criou uma revista chamada Cultura muito bem feita, muito bem paginada e com dinheiro do Erário. Era inspirada numa revista italiana simpatizante de Mussolini.

Ela foi criada para fazer oposição a ‘Dom Casmurro’?

Joel - Lourival queria duas coisas: acabar com Dom Casmurro e comprar os intelectuais de esquerda. O pior era que nosso jornal não pagava pelas colaborações. A gente recebia um valezinho que não dava nem para pagar o aluguel. Mas de lá a gente arrumava uns bicos. Enquanto isso, Cultura oferecia dois contos de réis por colaboração, uma fortuna na época. Tinha gente que estava devendo aluguel havia quatro ou cinco meses, e uma só colaboração no Cultura botava a vida em dia. Muita gente não resistia, muito mais por necessidade.

Quem é o escritor ilustre que colaborou com DIP, de quem o sr. fala no livro sem citar o nome?

Joel – Eu não gosto de falar no nome desse escritor porque era uma pessoa fantástica, por quem até hoje tenho uma admiração muito grande; ele tinha acabado de sair da cadeia. É melhor não falar. É preciso entender que ele estava para ser despejado com a família.

Graciliano Ramos?

Joel – Graciliano só escreveu um conto. O Anibal Machado também escreveu. Mas ninguém defendia o Estado Novo; eram colaborações literárias, crônicas, resenhas. Oswald de Andrade também escreveu. Ele era bem moleque, piadista, gostava de fazer graça.

Havia muita arbitrariedade no governo de Vargas – e seu livro mostra bem isso –, mas parece que a imagem do estadista e pai dos pobres se sobrepôs, não?

Joel – Getúlio fez coisas terríveis. Filinto Müller mandou gente sua aprender métodos de repressão com a Gestapo. Filinto mandou a mulher de Prestes, Olga, grávida, para Hitler. Aquilo foi vingança pessoal porque ele havia sido expulso da Coluna Prestes, acusado de roubar os fundos do movimento. Quando ele se viu no poder, não quis conversa. Tinha porões que eram uma coisa, o quartel-general da polícia de Filinto, e tinha o Dops.

O senhor acredita que o Estado Novo (1937-1945) reprimiu menos que o Regime Militar (1964-1985)?

Joel – Olha, não reprimiu mais porque demorou menos. Mas os processos de repressão eram os mesmos. Creio que a tortura durante o governo de Getúlio era mais ‘refinada’ porque sua polícia de repressão fora instruída pela Gestapo de Hitler. Os militares de 1964 eram broncos, torturavam com pau de arara – o que não quer dizer que fossem menos brutais. Mas o Getúlio não assumia a tortura. Ele sabia de tudo. Inclusive porque sua filha, Alzirinha, que era muito simpatizante dos estudantes e da esquerda, contava tudo para ele. Dizia: ‘Patrão, está acontecendo isso e aquilo’. Havia o navio "Dom Pedro", que ficava ancorado no mar, cheio de presos políticos.

Em ambos os casos , a diferença não estava na eficiência da censura em esconder a tortura?

Joel – No caso do Estado Novo, as informações circulavam porque a Agência Nacional – que era do DIP e fazia aquelas campanhas horrorosas de louvação a Getúlio, enviava rolos e rolos de papel sobre Getúlio, dizendo que ele fez isso e fez aquilo – tinha pelo menos 50% de seu pessoal simpatizante ou pertencente aos quadros do PC. Era uma verdadeira infiltração. De modo que tudo que o DIP escondia a gente sabia, inclusive até antes da proibição, pois bastava passar pela galeria Cruzeiro ou pela Lapa à noite e o pessoal dava todo o serviço.

Essa ‘infiltração’ passava despercebida de Lourival?

Joel – Lourival era como o Roberto Marinho foi durante o regime militar – sabia que os melhores redatores eram comunistas. Ele queria fazer o melhor para Getúlio e, por isso, procurava o melhor texto, a melhor foto. Para isso, contratava o sujeito, mas o xingava e avisava: ‘Eu sei que você é comunista e estou de olho em você’.

Como Lourival controlava as rédeas desses subversivos?

Joel – Ah, ele fez uma triagem e colocou nos cargos de confiança pessoas que lhe davam segurança, como o Licurgo Costa, o Lincoln Nery. Tudo passava por essas pessoas, que prestavam atenção para ver se havia alguma informação insidiosa, uma frase que levasse algum tipo de mensagem subversiva – comunista é fogo para fazer isso.

Filinto Müller foi o tipo de ‘vilão’ que não recebeu a atenção merecida dos historiadores?

Joel - Alguém ainda tem de contar a história dele. Esse homem foi senador da República, foi cacique, teve um papel importante na ditadura militar. O David Nasser chegou a escrever alguma coisa, mas o Nasser era panfletário. É preciso alguém que conte uma história isenta, fria, feita por um jornalismo investigativo mesmo. A história não pode ser escrita por um contemporâneo dele porque não é possível ser imparcial diante de uma figura daquelas.

Voltando à literatura, havia também as birras pessoais dos escritores, como a famosa raiva que Marques Rebelo nutria contra os autores nordestinos. O senhor acompanhou isso?

Joel – Esse era o lado cômico daquilo tudo. Rebelo gostava de brigar por tudo e procurava sarna para se coçar, apesar de ter um físico franzino. Ficou famosa a surra que levou do Osvaldo Orico na José Olympio. O culpado disso foi o Josué Montello. Orico escrevia na Careta e assinava as iniciais ‘O. O.’. Rebelo, então começou a fazer graça, chamando-o de ‘Double Zero’. Montello brincou com Orico, que não gostou. Um dia, os dois se encontraram e foi um deus-nos-acuda. Essa história quando era contada pelo Zé Lins do Rêgo era de morrer de rir.

E a implicância dele com os nordestinos?

Joel – Rebelo tinha horror dos nordestinos. Acho que era porque eles vendiam muito e ele não (riso). Ele queria jogar os mineiros contra os nordestinos. Mas o Jorge não topava as provocações.

Por falar em Jorge Amado, ele é uma das personagens de seu livro de memória?

Joel – Ninguém podia calcular que, às vésperas da guerra, Stalin entregasse a Polônia a Hitler, e isso chocou o mundo esquerdista inteiro. Mas havia as chamadas ‘ordens de Moscou’, que eram aceitas sem discutir. Diziam apenas: ‘O bigodudo sabe o que faz’, ‘é estratégia’, "esse bigodudo poderia estar fazendo aquele pacto?" Por isso, o Partido Comunista autorizou Jorge para dirigir aqui no Rio – e o Oswald de Andrade em São Paulo – o suplemento literário do jornal Meio Dia, editado por Joaquim Inojosa com dinheiro da embaixada alemã. Aquilo foi um negócio nojento. Não que o Jorge escrevesse elogiando Hitler. Era como a revista Cultura de Lourival, com colaborações literárias. Monteiro Lobato também publicou um conto no caderno. Claro que esse suplemento publicava artigos contra o imperialismo inglês, mas nada assim frontalmente.

O próximo volume de suas memórias cobre que período?

Joel – Cobre uma época em que eu já tinha perdido a inocência; estava na selva, atuando na imprensa sob um regime autoritário. Pouca coisa podia ser dita e a gente escrevia sempre ouvindo ‘Isso não pode’, ‘aquilo não pode’.

O sr. chegou a ser preso?

Joel – Não, não. Em 1944, eu já trabalhava num semanário de Samuel Wainer, Diretrizes, que era um dos poucos que faziam restrições a Vargas dentro da medida do possível. A maneira de ‘beliscar’ – digamos assim – o Estado Novo era escrever sobre os Estados Unidos, democracia americana, material que a embaixada americana mandava. O leitor era inteligente e percebia logo a intenção da revista.

O DIP respondia cortando a importação de papel?

Joel – Completamente. Diretrizes, por diversas vezes, quase deixou de sair. E isso só não aconteceu porque os jornais, mesmo os contrários, como os Associados, emprestaram papel, restos de bobina. O papel era importado da Finlândia e do Canadá. Com a guerra e o racionamento, era aquela história: aos amigos do governo, papel de sobra; aos inimigos, nada.

Mas esse controle do governo era anterior ao Estado Novo?

Joel – Não, foi o Lourival Fontes quem criou isso. Nos mesmos moldes da imprensa na Itália e na Alemanha. Lourival era fortíssimo, mas foi enfraquecido porque em 1942 houve o torpedeamento dos navios, a UNE pressionou muito porque era muito forte, diferentemente de hoje. Antes os estudantes iam para a rua, ficavam ao lado do povo, das causas populares. Os estudantes daquela época estariam hoje ao lado dos sem-terra, por exemplo, mas o que você vê é a UNE pedindo audiência ao presidente da República para dar direito a meia-entrada nos cinemas."

Gonçalo Jr, Gazeta Mercantil, 4/4/99

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/mt200499.htm


JOEL SILVEIRA (1918-2007)
Repórter na vida e na morte

Tiago Cordeiro em 16/08/2007 na edição 446

O jornalista e escritor Joel Silveira morreu na quarta-feira (15/8), aos 88 anos, em seu apartamento da Rua Francisco Sá, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Repórter de mão-cheia e autor de 40 livros, Silveira era sergipano e morava no Rio havia 70 anos. A fase da "grande reportagem" ocorreu durante o Estado Novo com jornalistas como Edmar Morel, David Nasser e Samuel Wainer colocando o repórter como principal personagem do meio jornalístico. Nesse período, Joel Silveira se destacou como um repórter por vocação e de talento inegável para contar histórias. Essa aptidão começaria a ser reconhecida em 1943 com a reportagem "Grã-finos em São Paulo", publicada pelo Diário da Noite. Matéria em que o sergipano, há 70 anos no Rio de Janeiro, narrou os bastidores dos salões de festas de tradicionais famílias paulistas. "Ele morria de inveja de um personagem que o Victor Hugo citava que era guilhotinado e minutos antes de morrer dizia `lamento morrer porque eu queria ver o resto´. Se ele pudesse fazer a cobertura da sua própria morte, ele faria", afirma Geneton Moraes Neto, que se define como "um amigo e pupilo há vinte anos" do jornalista. A pedido de Silveira não haverá velório, mas a cerimônia de cremação será às 14h, da quinta-feira (16/08). Nesta quarta-feira, o jornalista morreu de causas naturais aos 88 anos. Segundo sua filha, Elizabeth Silveira, ele sofria de câncer de próstata, mas não quis se tratar para poder morrer em casa. Com passagens por jornais como O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã, Última Hora e a revista Manchete, ele deixa como referência um padrão de qualidade nas reportagens que hoje deixou de ser comum.

Trincheiras

Durante a Segunda Guerra Mundial, o jornalista emprestaria seu talento para a cobertura do conflito junto com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália. Na época, houve a transição do trabalho de correspondentes de guerra dos militares para os civis. "A guerra que cobri era uma guerra aberta, senti o gosto no sangue. A que o Joel cobriu foi de trincheira, de acampamento. Ele escreveu sobre o cheiro da guerra. Um cheiro de óleo diesel e excremento humano", descreve o correspondente José Hamilton Ribeiro, que esteve no Vietnã. Ribeiro reitera que a imprensa nacional dá cada vez menos espaço para trabalhos como os de Silveira. "Como o repórter de grande profundidade que ele era, seu espaço foi cada vez mais asfixiado. Não é comum publicar grandes reportagens, à exceção, talvez, da Brasileiros", opina.

Brasileiro & Brasileiros

"A revista que a gente faz é pra gente como o Joel Silveira. Se a gente pudesse escolher um símbolo para a revista seria ele", concorda o jornalista Ricardo Kotscho, diretor-adjunto da Brasileiros. "É um grande contador de histórias. De boas histórias", revela Kotscho, usando o presente para o jornalista imortalizado por cerca de 40 livros. Para Geneton, o fato de há duas décadas o jornalista não trabalhar regularmente em um jornal é triste para a história do jornalismo nacional. "É como se o Brasil estivesse abrindo mão de um talento raro, o Brasil não podia se dar a esse luxo", protesta. "Podemos dizer que hoje morreu o maior repórter brasileiro."

Carreira marcada por talento literário e opiniões firmes

Com seis décadas de jornalismo, Joel Silveira colocaria "na galeria nacional do ridículo" tocadores de cavaquinho – "não existe nada mais grotesco do que um sujeito barrigudo e suado tocando cavaquinho" –, os alpinistas – "por que aqueles idiotas não pegam um avião para olhar as montanhas do alto?" –, os turistas e "o velho que quer parecer moço". O jornalista jamais teve problemas em manter e expor suas convicções como quando se candidatou à Academia Brasileira de Letras, em 2001. Silveira pleiteava a vaga de um escritor que detestava: Jorge Amado. Como concorrente, tinha a escritora Zélia Gattai, viúva do autor de Capitães da Areia, e que contava com a ampla simpatia de toda a Academia. "Ele me disse: `Sabe de uma coisa? Vou me candidatar só para atrapalhar a Zélia Gattai´, que ele considerava uma subliterata", explica Geneton Moraes Neto, repórter especial da TV Globo. O jornalista perdeu a eleição, vencida por Zélia que teve a seu favor a desistência do escritor Paulo Coelho, vencedor da eleição seguinte. "Eu não entendo o fenômeno do Paulo Coelho. O Bill Clinton lê, o Chirac leu, o mundo inteiro lê e eu tentei ler, mas vomitei. Eu acho horroroso. Mandaram um exemplar para mim, mas mandei devolver porque não quero infectar minha biblioteca. Eu considero isso a sub-sub-subliteratura, mas ele vende até na Tailândia".

Do patético ao dramático

Para Geneton, Silveira foi o precursor do Novo Jornalismo (ou New Journalism), antes mesmo de profissionais como Gay Talese e Truman Capote. Colega de redação do dramaturgo Nelson Rodrigues, Silveira teve apenas um curto e objetivo diálogo com ele.

"Uma vez, estava escrevendo alguma coisa. De repente, Nelson Rodrigues caminha em minha direção, fica parado diante de mim com um cigarro pendendo na boca e exclama: `Patético!´. Em seguida, foi embora, em silêncio. Quando acabei de escrever, fui até a mesa de Nelson – que batia à máquina com dois dedos – e fiz a mesma coisa. Fiquei em silêncio vendo-o escrever. Depois, disse, simplesmente : `Dramático!´. Fui embora. Nosso único diálogo resumiu-se a estas duas exclamações – `patético´ e `dramático´", sintetizou o jornalista em entrevista a Geneton Moraes Neto.

Com vinte anos de convivência, em uma relação "quase paternal", Geneton lembra que o jornalista chegou a falar seu próprio epitáfio: "Aqui jaz um desafortunado que em vida não conseguiu ler Guerra em Paz no original". Curiosamente, Silveira preferiu não ter um velório para ter uma frase em sua lápide, mas apenas uma cerimônia de cremação.

Necessidade

O repórter da TV Globo comenta que Silveira nunca se adaptou ao computador e chegou a ter antipatia pelos PCs. "Quando escrevia um livro, ele chamava um cara que consertava a máquina de escrever". Em uma época em que muitos jovens jornalistas acostumaram-se ao googlejournalism, o jornalista provavelmente nunca usou o famoso site de buscas para nenhuma apuração. A busca pelo seu nome no site revela mais de quinze mil páginas. Silveira não precisava do google, mas o google precisava dele. E o jornalismo também.

Tiago Cordeiro

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/reporter-na-vida-e-na-morte

 

Um Herói nunca morre!

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